Pelas estradas de Minas…

A ausência de notícias, esta semana, se deve ao longo percurso que estou fazendo pelas estradas de Minas. Teófilo Otoni, Ponte Nova, Passos, Divinópolis…Muitos quilômetros a  rodar, muitas veredas a cruzar, e as histórias ficam pra volta. Até breve!

Caninha Trepadeira

Faz tempo que não conto um causo aqui no Fósforo. E porque hoje é sábado, vou relembrar um da semana passada.

Estava em Atibaia, onde passei quatro dias num velho hotel-fazenda meio decadente, acompanhando um congresso de trabalhadores da saúde. No segundo dia, fui até o centro da cidade para sacar dinheiro. Depois de rodar umas cinco vezes o quarteirão do banco, não achei lugar pra estacionar. Ruas apertadas e cheias, típicas das cidades que não foram feitas para suportar a atual frota circulante. Como na maioria das cidades, aliás…

Tentei novamente no domingo, certo de que o centro estaria vazio. Só não contava com encontrar uma feira no meio da cidade. Parei o carro bem longe, atravessei a feira, saquei meus trocados. Na volta, não resisti e entrei no mercado municipal.

Adoro mercados. É onde tomo contato com a cultura local. Não observo apenas as comidas típicas, artesanatos e badulaques, mas também os costumes, os modos de conversar, de barganhar, de dar risadas. Seja Atibaia, São José do Egito, Manaus ou Montevidéu, visitar o mercado é de lei.

O de Atibaia é pequeno, mas simpático. Safra de morangos no início, pintando as bancas de frutas de vermelho. Muitos japoneses, presença forte na região. Lembrei de comprar uma cachaça local para o Paulo W, colecionador que costuma recepcionar as garrafas recebidas com generosos churrascos.

A única que encontrei não era de Atibaia, mas da vizinha Nazaré Paulista. O japonês-caipira que me vendeu disse que era forte, e que o fabricante era prefeito de Nazaré. Bem, um sujeito que fabrica uma caninha chamada Trepadeira deve ter muito voto, certamente.

Acabo de conferir na página da cidade, e o nome do atual alcaide não é o que está no rótulo. O japonês me enganou ou enganaram o japonês. Mas descobri que o prefeito estava perdendo a reeleição em 2008 e, com a contagem chegando ao fim, a oposição já comemorava no centro da cidade. Na última urna a votação virou, e ele ganhou por 2 votos. Dois! O pau comeu, claro, e a polícia teve de intervir.

Taí: uma cidade onde se faz uma caninha Trepadeira e eleição termina desse jeito merece ser visitada. Preciso conhecer Nazaré Paulista!

Caninha Trepadeira

Atualização, 12 horas depois: O japonês estava certo! O prefeito Nenê Pinheiro é mesmo o dono do alambique. É que ele assina a cachaça com o nome de batismo, por ser coisa séria. O apelido é para a política…

As paisagens silenciosas de Lucila

Foto Lucila

A fotógrafa (e amiga querida) Lucila Wroblewski desenha com a luz. Pinta cenários oníricos onde o olhar passeia por muito tempo, procurando decifrar a magia que se esconde/revela através  das cores.

São fotos feitas no crepúsculo ou à noite, iluminadas com lanterna, e ampliadas manualmente em grande formato, sem nenhuma interferência de computador (nada de Photoshop!).

Lucila está com uma exposição de fotos (pinturas de luz!) na Caixa Cultural, na Praça da Sé, 111, em São Paulo. Vai até 9 de agosto, de terça a domingo, das 9 às 21 h. No programa, dois workshops mostrando a técnica do light painting. Pra quem gosta de fotografia de invenção, é uma grande pedida!

Lucila 2

Lucila 1

Sarney, o incomum

Sarneydiscursa

(Às vezes leio algo tão bem escrito que dá até raiva. Por que não consigo escrever assim?  O jornalista Leandro Fortes disse tudo neste artigo!)

Sarney, o homem incomum
Há anos, nem me lembro mais quantos, os principais colunistas e
repórteres de política do Brasil, sobretudo os de Brasília, reputam ao
senador José Sarney uma aura divinal de grande articulador político,
uma espécie de gênio da raça dotado do dom da ponderação, da mediação
e do diálogo. Na selva de preservação de fontes que é o Congresso
Nacional, estabeleceu-se entre os repórteres ali lotados que gente
como Sarney – ou como Antonio Carlos Magalhães, em tempos não tão idos
– não precisa ser olhada pelas raízes, mas apenas pelas folhagens.
Esse expediente é, no fim das contas, a razão desse descolamento
absurdo do jornalismo brasiliense da realidade política brasileira e,
ato contínuo, da desenvoltura criminosa com que deputados e senadores
passeiam por certos setores da mídia.
Olhassem Sarney como ele é, um coronel arcaico, chefe de um clã
político que há quatro décadas domina a ferro e fogo o Maranhão,
estado mais miserável da nação, os jornalistas brasileiros poderiam
inaugurar um novo tipo de cobertura política no Brasil. Começariam por
ignorar as mentiras do senador (maranhense, mas eleito pelo Amapá), o
que reduziria a exposição de Sarney em mais de 90% no noticiário
nacional. No Maranhão, a família Sarney montou um feudo de cores
patéticas por onde desfilam parentes e aliados assentados em cargos
públicos, cada qual com uma cópia da chave do tesouro estadual, ao
qual recorrem com constância e avidez. O aparato de segurança é
utilizado para perseguir a população pobre e, não raras vezes, para
trucidar opositores. A influência política de Sarney foi forte o
bastante para garantir a derrubada do governador Jackson Lago, no
início do ano, para que a filha, Roseana, fosse reentronizada no cargo
que, por direito, imaginam os Sarney, cabem a eles, os donatários do
lugar.
José Sarney é uma vergonha para o Brasil desde sempre. Desde antes da
Nova República, quando era um político subordinado à ditadura militar
e um representante mais do que típico da elite brasileira eleita pelos
generais para arruinar o projeto de nação – rico e popular – que se
anunciava nos anos 1960. Conservador, patrimonialista e cheio dessa
falsa erudição tão típica aos escritores de quinta, José Sarney foi o
último pesadelo coletivo a nós impingido pela ditadura, a mesma que
ele, Sarney, vergonhosamente abandonou e renegou quando dela não podia
mais se locupletar. Talvez essa peculiaridade, a de adesista
profissional, seja o que de mais temerário e repulsivo o senador José
Sarney carregue na trouxa política que carrega Brasil afora, desde que
um mau destino o colocou na Presidência da República, em março de
1985, após a morte de Tancredo Neves.
Ainda assim, ao longo desses tantos anos, repórteres e colunistas
brasileiros insistiram na imagem brasiliense do Sarney cordial,
erudito e mestre em articulação política. É preciso percorrer o
interior do Maranhão, como já fiz em algumas oportunidades, para
estabelecer a dimensão exata dessa visão perversa e inaceitável do
jornalismo político nacional, alegremente autorizado por uma cobertura
movida pelos interesses de uns e pelo puxa-saquismo de outros. Ao
olhar para Sarney, os repórteres do Congresso Nacional deveriam
visualizar as casas imundas de taipa e palha do sertão maranhense, as
pústulas dos olhos das crianças subnutridas daquele estado, várias
gerações marcadas pela verminose crônica e pela subnutrição idem. Aí,
saberiam o que perguntar ao senador, ao invés de elogiar-lhe e,
desgraçadamente, conceder-lhe salvo conduto para, apesar de ser o
desastre que sempre foi, voltar à presidência do Senado Federal.
Tem razão o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao afirmar, embora
pela lógica do absurdo, que José Sarney não pode ser julgado como um
homem comum. É verdade. O homem comum, esse que acorda cedo para
trabalhar, que parte da perspectiva diária da labuta incerta pelo
alimento e pelo sucesso, esse homem, que perde horas no transporte
coletivo e nas muitas filas da vida para, no fim do mês, decidir-se
pelo descanso ou pelas contas, esse homem comum é, basicamente,
honesto e solidário. Sarney é o homem incomum. No futuro, Lula não
será julgado pela História somente por essa declaração infeliz e
injusta, mas por ter se submetido tão confortavelmente às chantagens
políticas de José Sarney, a ponto de achá-lo intocável e especial. Em
nome da governabilidade, esse conceito em forma de gosma fisiológica e
imoral da qual se alimenta a escória da política brasileira, Lula,
como seus antecessores, achou a justificativa prática para se aliar a
gente como os Sarney, os Magalhães e os Jucá.
Pelo apoio de José Sarney, o presidente entregou à própria sorte as
mais de seis milhões de almas do Maranhão, às quais, desde que assumiu
a Presidência, em janeiro de 2003, só foi visitar esse ano, quando das
enchentes de outono, mesmo assim, depois que Jackson Lago foi apeado
do poder. Teria feito melhor e engrandecido a própria biografia se
tivesse descido em São Luís para visitar o juiz Jorge Moreno.
Ex-titular da comarca de Santa Quitéria, no sertão maranhense, Moreno
ficou conhecido mundialmente por ter conseguido erradicar daquele
município e de regiões próximas o sub-registro civil crônico, uma das
máculas das seguidas administrações da família Sarney no estado. Ao
conceder certidão de nascimento e carteira de identidade para 100%
daquela população, o juiz contaminou de cidadania uma massa de gente
tratada, até então, como gado sarneyzista. Por conta disso, Jorge
Moreno foi homenageado pelas Nações Unidas e, no Brasil, viu o nome de
Santa Quitéria virar nome de categoria do Prêmio Direitos Humanos,
concedido anualmente pela Secretaria Especial de Direitos Humanos da
Presidência da República a, justamente, aqueles que lutam contra o
sub-registro civil no País.
Em seguida, Jorge Moreno denunciou o uso eleitoral das verbas federais
do Programa Luz Para Todos pelos aliados de Sarney, sob o comando,
então, do ministro das Minas e Energia Silas Rondeau – este um
empregado da família colocado como ministro-títere dentro do governo
Lula, mas de lá defenestrado sob a acusação, da Polícia Federal, de
comandar uma quadrilha especializada em fraudar licitações públicas.
Foi o bastante para o magistrado nunca mais poder respirar no
Maranhão. Em 2006, o Tribunal de Justiça do Maranhão, infestado de
aliados e parentes dos Sarney, afastou Moreno das funções de juiz de
Santa Quitéria, sob a acusação de que ele, ao denunciar as falcatruas
do clã, estava desenvolvendo uma ação político-partidária. Em abril
passado, ele foi aposentado, compulsoriamente, aos 42 anos de idade.
Uma dos algozes do juiz, a corregedora (?) do TRE maranhense, é a
desembargadora Nelma Sarney, casada com Ronaldo Sarney, irmão de José
Sarney.
Há poucos dias, vi a cara do senador José Sarney na tribuna do Senado.
Trêmulo, pálido e murcho, tentava desmentir o indesmentível. Pego com
a boca na botija, o tribuno brilhante, erudito e ponderado, a raposa
velha indispensável aos planos de governabilidade do Brasil virou, de
um dia para a noite, o mascate dos atos secretos do Senado. Ao
terminar de falar, havia se reduzido a uma massa subnutrida de
dignidade, famélica, anêmica pela falta da proteína da verdade. Era um
personagem bizarro enfiado, a socos de pilão, em um jaquetão coberto
de goma.
Na mesma hora, pensei no povo do Maranhão.
Fonte: Brasília, eu vi – Blog de Leandro Fortes

Sarney

A história de Elza

Elza

Não, não se trata daquela leoazinha que virou filme nos anos 60, cuja trilha sonora marcou época (Born Free). Esta Elza é brasileira, e sua história foi contada por Sérgio Rodrigues num romance magistral, que acabei de ler esta semana nas frias madrugadas de Atibaia, onde participei de um congresso.*

Sabe aqueles coquetéis coloridos, servidos em copo longo, em que cada fase é de uma cor? A realidade que Sérgio Rodrigues descreve é assim: Se olharmos por cima, vemos apenas um aspecto. Podemos até suspeitar que há algo embaixo, mas não conseguiremos enxergar. Visto do ângulo correto as camadas surgem distintas, harmônicas ou contrastantes.

A diferença é que, no obscuro caso (real) do assassinato de uma garota de presumidos 16 anos por ordem do PCB, em 1936, não é possível definir um ângulo que abarque todas as nuances. E o escritor dá leves mexidas no coquetel, suficientes para que a parte “ficcional” dissolva a linha fina que separa verdade e mentira.

Parece confuso? Pois é fascinante! No seu melhor livro, Sérgio Rodrigues arrisca na linguagem, cutuca um vespeiro político, distribui ironias pra todo lado e demonstra seu grande domínio do ofício.

A bibliografia registrada mostra que o assunto foi muito pesquisado, mas como bem aponta Zuenir Ventura na apresentação, as peças reais do quebra-cabeça surgem de forma orgânica, sem parecer citação de tese acadêmica. O exercício de linguagem é virtuoso, sem ser pedante. Rigoroso, sem deixar de ser envolvente. Investigativo, sem ser apenas uma reportagem. Romance moderno, cimentado por ótima ficção, com referências reais gentilmente indicadas pelo uso de itálico. Um pequeno grande livro, daqueles que nos fazem refletir sobre todas as nuances da estupidez humana.

*Este parágrafo inicial está aí para justificar a ausência de textos no Fósforo nos últimos dias.

Diploma de jornalista?

http://organismo.art.br/blog

http://organismo.art.br/blog

Esta semana foi marcada pelo polêmico fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo. Vários amigos estão debatendo a questão, e um incauto até arriscou me perguntar o que achava.

Talvez não devesse entrar nessa discussão, por não ser jornalista. Mas estudei numa faculdade de comunicação, tive e tenho muitos colegas jornalistas, e até sou confundido com eles.

Estudei Cinema na USP. Concluí o curso direitinho, em 4 anos. Nunca fui buscar o diploma, não me serve pra nada. Sou contra o diploma para cineasta…

Sempre achei absurda a quantidade de “colegas” do curso de jornalismo que não participavam sequer do jornalzinho do Centro Acadêmico, na minha época.  Também achava um absurdo o curso de jornalismo não ter aulas de português. E não têm até hoje, em muitos lugares! Vi muito aluno de jornalismo escrever gato com jota e sapato com cê, pra você ver!

Vi de perto que o monte de generalidades que é ensinado nas faculdades de jornalismo (sociologia, psicologia, antropologia, filosofia, todas “da comunicação”) não torna o aluno melhor que um sociólogo, psi, etc., de verdade. A regra é se tornar um generalista raso.

Como os mais argutos já perceberam, não defendo o curso “superior” de jornalismo. No meu jornal “ideal”, um médico escreveria sobre medicina, um urbanista sobre questões urbanas, um cientista político sobre política, um músico sobre música, um economista sobre a Bolsa de Valores, um profissional de turismo falando de viagens, um engenheiro sobre o Airbus da Air France. Mas teriam de escrever bem. Como?

O curso de jornalismo deveria ser oferecido como extensão acadêmica, com no máximo dois semestres, onde o sujeito aprenderia algumas técnicas básicas de redação, editoração e pesquisa. E com um exame rigoroso de português para ingresso, pois para escrever num meio de comunicação deve dominar o idioma.

Simples. E complicado, devido ao corporativismo dos “colegas”. Na área da comunicação onde atuo com mais frequência (televisão), muitos jornalistas ficariam indignados se lhes fosse exigido o diploma de “rádio e TV” ou “audiovisual”. Felizmente, é uma área menos conservadora, menos acadêmica. Tem outros pecados, claro.

Repare: Quando um repórter vai fazer uma matéria sobre um assunto qualquer, seja economia, física nuclear ou futebol de salão, ele entrevista jornalistas da área? Não, ele procura profissionais da área. O jornalista sabe que o público quer ouvir/ ler a opinião de especialistas, não generalistas. Assim sendo, porque preciso de um jornalista? Pra que o intermediário do conhecimento? Não seria melhor um jornal falado/ escrito por aqueles especialistas?

Creio que em todas as profissões existem os dotados de espírito investigativo, soma de curiosidade inata e conhecimento técnico adquirido na pesquisa. Esse cara deve passar por um treino pra escrever bem e voilá! teremos um ótimo jornalista especializado!

Num artigo, o (bom) jornalista Leandro Fortes teme que, com o fim do diploma, as “redações dos pequenos jornais do interior do Brasil, (…) sejam infestados por jagunços, capangas, cabos eleitorais e familiares”. Convenhamos, está desatualizado.  Isso já acontece, com diploma ou não.

Por que diabos uma redação de sociólogos, pedagogos, artistas de circo, economistas, etc, seria mais subserviente aos patrões que jornalistas? Há algum indício de que jornalistas sejam mais éticos ou inflexíveis que o resto dos mortais?

Isso é que soa estranho na maioria dos argumentos. Falam do fim do diploma como se acabasse o último bastião da moralidade. Não bate com o que vemos por aí, nas Vejas e jornalões da vida.

Em resumo: sou contra o diploma, mas a favor de bons cursos de jornalismo. E se fosse dono de jornal, pode crer que contrataria redatores e repórteres com diploma ou certificado do tal curso. Existe gente boa e ruim no jornalismo, como em qualquer outra profissão, mas isso não vem indicado em nenhum diploma…

Obama acerta jornalista da Folha!

Um jornal às moscas

Uma das coisas mais ridículas que vi nos últimos tempos é a nova campanha da Folha de SP na TV. O decadente jornal tenta passar um ar moderno colocando alguns de seus principais colunistas num roteiro debilóide, em que repetem versos de Raul Seixas.

Moderno? Quer coisa mais anos 70 que Raul Seixas? Quer coisa mais tosca que se apropriar de versos alheios pra alardear idéias próprias? Tem até gente que respeito fazendo papel de besta (ou melhor, díptero), confira:

“Eu sou a mosca”, diz Clóvis Rossi, secundado por Gilberto Dimenstein (canastrão), Ruy Castro (constrangido?), Bárbara Gancia (patética!), Zé Simão (sem graça e errando a letra), Renata Lo Prete, Angeli (tentando se esconder?) e as três mocinhas do 02 Neurônio.

“Eu sou a mosca/ que perturba o seu sono./ Eu sou a mosca/ que pintou pra lhe abusar.” Ha ha ha ha! Faz tempo que não ria tanto de um comercial ridículo!

Não preciso dizer qual é o alimento principal das moscas, certo? “Pois nem o DDT pode me exterminar”. A sabedoria popular diz que mudam as moscas, mas a merda continua a mesma.

Não é à toa que as assinaturas da Folha encolhem a cada dia. Espie só!

Auto-de-fé

elias-canetti

Alguns amigos reclamam que ando escrevendo pouco ultimamente. É verdade. Poderia dar as desculpas habituais de trabalho, pouco tempo, falta de assunto. Serviriam. Mas uma leitura que me absorveu as últimas semanas é a responsável pela baixa freqüência de postagens no Fósforo.

Já comentei aqui que me impus uma meta, na virada do milênio, de ler um clássico por ano. Pois ontem li a última página de Auto-de-Fé, do Elias Canetti. E creio que vou ficar impressionado por um bom tempo.

O búlgaro não é fácil. Seu único romance publicado fez com que merecesse o Nobel de Literatura de 1981. Fluente em espanhol, língua de seus ancestrais sefarditas, inglês (mudou-se para Manchester ainda menino) e alemão, transitou por vários gêneros. Parece que o cara estava disposto a esgotar toda forma de expressão, pois escrevia uma coisa definitiva e passava pra outra praia. Teatro, romance, relato de viagem (Vozes de Marrakesh), crítica literária (A Consciência das Palavras), autobiografia (Uma Luz em Meu Ouvido), ensaio (Massa e Poder, talvez sua obra mais conhecida).

Auto-de-Fé é assombroso pela ousadia estrutural, pela suprema originalidade dos personagens, pelo temerário mergulho na alma humana no que ela tem de mais mesquinho, invejoso, cruel. Lambendo as beiradas da loucura, os personagens agem de maneira que a artificialidade do intelecto embota o instinto. Um sinólogo alemão que vive no mundo dos livros, um anão que quer ser campeão de xadrez na América, uma mulher rude que almeja ficar rica, um renomado psiquiatra que tenta salvar o irmão da insanidade.

E não se trata apenas de criar tipos originais. A linguagem (o romance é de 1935!) mistura primeira com terceira pessoa, e a cada parágrafo temos que prestar atenção pra saber quem fala, o escritor ou o personagem. Olhando de longe, tinha tudo pra dar errado, pelo artificialismo da montagem. Na leitura, tudo ganha contornos de terrível realidade, quase epidérmica. Obra de gênio, leitura de marcar para sempre. Fuja, se você teme águas profundas!

Culinária musical

heitor-dos-prazeres

(Há algumas semanas escrevi um artigo com este nome, na Revista Música Brasileira. Algumas pessoas não lembraram das músicas citadas, outras me pediram a letra. Aproveitando o feriado frio e chuvoso,  republico. Antes que me chamem de preguiçoso, lembro que deu um trabalhão achar estes links. E ainda vão faltar alguns, porque quem quer tudo mastigadinho, vá comer mingau!)

O assunto surgiu em torno de uma peixada regada a samba, e acabou tomando conta da noite. Quando a música popular começou a falar de comida? Ou melhor, quando a comida virou tema na música popular brasileira?

Perguntinha difícil de responder. O samba nasceu dum batuque na cozinha, e o couro comia solto antes e depois do regabofe. Todos lembram de alguma referência, de alguma melodia temperada, de algum samba-receita.

Samba-receita é um gênero? Não chega a tanto, mas gerou obras primorosas de craques como Dorival Caymmi (Vatapá) e Chico Buarque (Feijoada Completa). Poucos compositores chegaram a detalhes técnicos tão explícitos quantos estes dois apreciadores de um bom prato.

Feijoada, aliás, é um clássico. Que o diga Paulinho da Viola, que provou do famoso feijão da Vicentina, no Pagode do Vavá. O grande Braguinha transmitiu a várias gerações a receita de feijoada do casamento da Baratinha, onde acabou sucumbindo o Doutor João Ratão: “Feijão, carne-seca, lingüiça mineira, orelha de porco pra dar e vender! Toucinho fresquinho, toucinho gostoso, toucinho cheiroso pra gente comer!”

Mas nem só de feijoada vive o brasileiro. O cardápio é extenso no cancioneiro pátrio. Carmen Miranda, acusada de ter voltado americanizada em 1940, se defendeu cantando que “na hora da comida, eu sou do camarão ensopadinho com chuchu”.

Carmem só confirma que frutos do mar sempre estiveram na comissão de frente da mesa brasileira. Pudera, com tanta praia, tanto peixe e tanto compositor, o negócio tinha de dar samba. Candeia mostra, em Peixeiro Granfino, que “salsa, pimenta de cheiro, faz bom tempero, azeite de dendê”. Aldir Blanc (com João Bosco) conta toda uma saga em busca de um siri recheado.

A moqueca, baiana ou capixaba (ou seja, com ou sem dendê) , foi cantada de diversas maneiras. Uma das receitas mais acabadas foi cantada por Herlon. Minas Gerais não tem mar, mas o mineiro Milton Nascimento sabe que “peixe bom dá no riacho”.  Sá e Guarabyra louvaram o Pirão de Peixe com Pimenta das margens do São Francisco, acompanhado de uma boa januária. Milton também exalta as especiarias em Cravo e Canela. Ê, morena, quem temperou?

Aliás, os doces marcam presença no repertório. Do doce de coco de Jacob do Bandolim ao alfenim de Delcio Carvalho, passando pela goiabada cascão de Wilson Moreira e Nei Lopes, tem muito doce cantado por aí. Ary Barroso elogiou os quindins de Iaiá, cozinheira tão famosa que Nei Lopes fez questão de homenagear o seu tempero. Tim Maia, como sabemos, só queria chocolate…

O tradicional churrasco, outra preferência nacional, está em tantas letras de música, principalmente sertanejas e regionais, que dá até enjôo. Entre os gaúchos, a combinação é quase obrigatória. Aliás, os caipiras de verdade sempre fizeram questão de exaltar os pratos da terra, como o Leitão à Pururuca de Lourenço e Lourival, que também prepararam um Franguinho na Panela, cantado por Tião Carreiro e Pardinho. Palmeira e Mario Zan cantaram a saudade do Arroz a Carreteiro. O grande Luiz Gonzaga, além de enumerar as delícias de Feira de Caruaru e mostrar como se faz um Baião de Dois, lembrou até da comida paraense em Tacacá.

O trivial variado está presente em todas as mesas. Martinho da Vila elogia a Comida da Filó (Vai ter bife de panela com polenta e aipim/ Quero provar o jiló e a berinjela/ Tô sem pressa, sou assim). Adoniran Barbosa e  Carlinhos Vergueiro não esqueceram da proletária marmita, que traz um Torresmo à Milanesa como “sustança”. Aliás, lá nos anos 70, Maria Creuza já cantava o Feijãozinho com Torresmo, do Walter Queiroz, com grande sucesso. Zeca Pagodinho diz que não conhece Caviar, e é mais “ovo frito, farofa e torresmo”. Cartola já reclamava que não é possível “Cozinhar sem banha, sem cebola e alho, sem vinagre e cheiro”.

Pratos menos corriqueiros foram cantados por Geraldo Pereira (Cabritada Mal Sucedida), João do Vale (Peba na Pimenta – peba é tatu, prato proibido pelo Ibama mas apreciado em todo o Brasil) e o grupo satírico Língua de Trapo, que sugere, numa cantina italiana, “filé a parmegiana com catuaba, arroz e pão”, acompanhado de ovos de codorna e sobremesa de tutano. (Tragédia Afrodisíaca). Nem a Concheta enfrentaria um cardápio desses!

Melhor ficar na Comida Mineira, de Toninho Geraes e Paulinho Rezende, um bufê completo de delícias bem brasileiras.  O bom garfo Nei Lopes, pra testar a nova cremalheira, anunciou para os amigos “carne de terceira’ e “tartaruga em fatia” (Festa da Dentadura). Aliás, o quelônio faz parte no cardápio cantado por Walter Alfaiate, no Prato do Dia (de Felipão do Quilombo): “Camarão frito na manteiga/ e tartaruga em fatia”. Nei lembra também da moqueca de fato que Idalina preparou, que mais parece um sarapatel.

Pensa que é só? Celso Viáfora e Vicente Barreto cantaram o pastel de feira, Inezita homenageou o bolinho de fubá, Rita Ribeiro fez sucesso com a cocada maranhense de Antonio Vieira, e o grande João Pacífico  imortalizou o doce de sidra paulista.

Quem mergulhou fundo no tema foi a dupla mineira  Célia & Celma. Além de escrever um livro com cheiro de fogão a lenha (A Cozinha Caipira de Célia e Celma), lançaram um CD com receitas musicadas, em vários ritmos. Vaca Atolada, Tutu de Feijão, Canjiquinha com Costelinha, Pé de Moleque…. Sim, são nomes de músicas, vale a pena conferir! Tem xote, samba, moda de viola, xaxado e até tarantela (Bolinho de Macarrão).

A dupla de artistas mineiras tem uma contrapartida maranhense: os músicos-gourmets Wellington Reis e José Ignácio, que lançaram um CD com receitas cantadas da culinária maranhense. Traz músicas-receita como Peixe ao Escabeche na Costa da Mão, Cuxá Orquestrado, Peixe Frito no Samba, Sururu Chorado no Leite de Coco, Caruru Mina-Jeje,  e Divino Doce de Calda Cacuriado no Crioula, entre outras. De dar água na boca!

Até nas capas dos discos, no tempo em que o formato LP dava espaço para a criatividade, a comida esteve presente. Quem não se lembra do disco de estréia de Luiz Melodia, cercado de feijão preto? Ou dos Secos e Molhados servidos à mesa? Ou o Banquete dos Mendigos, com Macalé recebendo os amigos para a santa ceia? Macalé, aliás, se apresentou num festival comendo rosas enquanto cantava.

Tia Ciata, cozinheira de mão cheia e primeira-madrinha do samba, inaugurou a mistura. De lá pra cá, o cardápio só ficou mais rico e substancioso. Paulo César Pinheiro, em parceria com Joyce, já havia decretado que “no samba tem que estar de olho/ É preciso dosar tempero e molho” (Receita de Samba ). Afinal, como bem disse Vinicius, para viver um grande amor é importante conhecer a harmonia das panelas:

“E o que há de melhor que ir pra cozinha
E preparar com amor uma galinha
Com uma rica e gostosa farofinha
Para o seu grande amor?”

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