Comerciais de cerveja

Gosto de cerveja. Mais do que paixão de temporada, é amor duradouro, que me acompanha em momentos de percalço ou de festa. À noite, sozinho, costumo tomar cerveja. Desinibe a imaginação. Escrevo melhor, penso melhor, a música que escuto fica melhor. Acompanhado, gosto mais ainda. A conversa flui fácil, a tolerância aumenta, relevamos as pequenas bobagens que toda conversa propicia.

Claro que tudo isso vale para doses ponderadas, sem abuso. Ninguém gosta de bêbado. E eu detesto ficar bêbado, enjoado ou de ressaca. Bebo pra me sentir bem, não pra passar mal.

Mas não entendo os comerciais de cerveja. Alguém um dia vai me explicar porque os publicitários tratam os apreciadores de cerveja como cafajestes primários, que só pensam em futebol e mulher. Todo comercial de cerveja tem mulher de biquíni, comportamento machista, preconceito disfarçado de humor.

De onde os criativos que produzem os comerciais de cerveja tiraram a conclusão de que pessoas sensatas, educadas, cultas e inteligentes não são público-alvo? Num país tropical, onde a opção mais confortável e democrática de bebida gelada é a cerveja, é certo mirar só o universo truculento da “tchurma do boteco?” Gente normal tem de tomar uísque (odeio!), vodka (detesto!) ou refrigerante (tô fora!)?

Por que não um comercial num ambiente elegante, onde gente normal, não-cafajeste, toma cerveja? Um sujeito não pode estar lendo um livro, num bar? Recitar João Cabral e dizer, “ah, isso merece uma cerveja”? Ou falando sobre política – outro tabu entre publicitários – e encher o copo da companheira? Ou uma mesa de mulheres, falando do filme que acabaram de assistir, ao redor de um copo espumante?

Os publicitários brasileiros pensam que elegância é tomar vinho. Falta de cultura é um problema sério. Na Europa (e América) tem muito vinho vagabundo, é a bebida mais plebéia. Um vinho mediano é mais barato que cerveja, na França ou na Itália…

Ou seja: elegância não tem a ver com a bebida que você toma. Enquanto os produtores de cachaça, cada vez mais, investem na imagem de bebida fina, requintada, for export, os de cerveja apostam na baixaria: Bebedor de cerveja gosta de popozuda seminua, de enganar a mulher fingindo que está fazendo hora extra, de se vangloriar na frente dos amigos, de humilhar o garçom.

- Quosque tandem, Ambev, abutere patientia nostra?

Êxodos, parte 2

Êxodo, no teatro grego, é a intervenção final do coro, o epílogo, o último comentário sobre o drama encenado. Simbolicamente significa a partida, o adeus, e por isso ganhou o significado moderno ao qual estamos habituados: o dramático movimento de migrantes, no mundo todo, em busca de paz, alimento, trabalho e vida digna.

Por isso, êxodo é também recomeço, o fim de uma etapa e o início de outra. Para o grupo Folias D’Arte, uma travessia dramatúrgica através de um oceano de indagações. A busca permanente. Êxodos – O Eclipse da Terra, estréia nesta quinta-feira, 04/02, promovendo o nobre pacto entre o pesadelo de Sebastião Salgado e o sonho de Gabriel Garcia Marquez.

Na última semana de ensaios, vários trechos foram suprimidos. A peça ficou mais concisa, perdeu uns 30 minutos. Está mais amarrada, mais orgânica, embora jamais utilize recursos fáceis, pré-mastigados, para se fazer entender. Há personagens delirantes, que falam de forma convulsiva, mas passam um recado claro: o mundo não é claro. Como as fotos de Salgado, também o ser humano tem zonas de sombra e de luz. Os personagens de Êxodos são passageiros de uma nau de insensatos, de visionários, de perdedores, que resolvem enfrentar sua última batalha.

Difícil comparar o trabalho dos sete atores, tão envolvidos estiveram na criação e desenvolvimento de seus papéis. O empenho coletivo é evidente, e dá margem a solos impressionantes. Atores experientes, como Patricia Barros, Danilo Grangheia e Val Pires, jovens como Bruna Bressani e Flávia Tavares, revelações como Joana Mattei, que é preparadora corporal do Folias há dez anos e só agora sobe ao palco, e um ótimo ator convidado, o basco Ieltxu Martinez Ortueta, a quem coube a difícil tarefa de conduzir a trama de Êxodos.

O encenador, Marco Antonio Rodrigues, teve o apoio do português Jorge Louraço Figueira, que dividiu o desafio de organizar o texto dramaticamente. A jovem Fernanda Aloi, que foi atriz em Querô, montagem de 2009, assina aqui a cenografia, valorizada pela iluminação de Ericke Busoni. A trilha sonora tem uma função tão marcante que Pedro Simon pode ser considerado o “oitavo passageiro”, tendo até uma participação musical no palco. E como não falar dos  figurinos do Atilio Vaz, a produção da Nani, a assistência da Tati?

Além de gravar ensaios e bastidores, o pessoal do vídeo vai registrar a peça na íntegra. Mais que isso: vamos transmitir pela internet, neste domingo, 07/02, a partir das 20 horas, nos endereços www.galpaodofolias.com.br e www.viatv.com.br.  Quatro câmeras, captação em HD, em wide screen. Experimente o gostinho.

Para viver de perto as emoções de Êxodos, vá ao Galpão do Folias, na Santa Cecilia, em São Paulo. Mas, cuidado: você corre o risco de não querer mais saber de teatro quadradinho e bem comportado!

(fotos: Luiz Miyasaka)

Êxodos, parte 1

Estou há dias enfiado num trabalho tão difícil quanto fascinante. Imagine traduzir em vídeo o cotidiano, os ensaios, o trabalho de bastidores, a encenação de uma peça de teatro.

“É fácil”, pode dizer um apressadinho. De fato, é fácil fazer o banal, o óbvio, o previsível, a mera reportagem. E se for uma peça convencional, passada num palco italiano, mais fácil ainda.

Mas estou falando do Folias D’Arte, grupo que há mais de dez anos transformou um velho galpão na região central de São Paulo num celeiro de audaciosos experimentos de forma e linguagem.

Desta vez, partiram para um projeto radical. O texto foi desenvolvido pelos próprios atores, a partir da forte impressão causada pelo livro Êxodos, de Sebastião Salgado. No meio do processo, que durou cerca de 18 meses, leituras de Gabriel Garcia Marquez incorporaram outras dimensões à cena.

Como conciliar o realismo trágico de Salgado com o realismo mágico de GGM? Aos poucos, vamos reconhecendo traços nas personagens. Aquela refugiada que insiste em falar da avó morta não é Cândida Erêndira? E aquele velho muito sujo com umas asas enormes? Mas não é velho, é jovem. É ou não é? Começamos a ver o que há de onírico nas imagens do fotógrafo e o que há de realismo nas imagens delirantes do escritor. E os êxodos pessoais afloram no trabalho de cada um. Ser ator também é sair de si, ser outro, sem território. Ou melhor, ocupante do território da imaginação.

O resultado pode ser visto a partir desta quinta-feira, dia 04/02, no Galpão do Folias, em  Êxodos – O Eclipse da Terra. Sete atores em cena, vivendo múltiplos personagens em estado de desequilíbrio, tentando entrar num navio que irá levá-los ao lugar sonhado.

O impacto é impressionante. Um teatro radical, onde as possibilidades cênicas do espaço fazem com que os atores sejam meio mágicos, meio trapezistas, meio cenógrafos, num ambiente que vai sendo modificado pela dinâmica da narrativa.

A equipe de vídeo está registrando os ensaios, fazendo entrevistas e mostrando o processo, que tem se acelerado nos últimos dias. Texto sendo afinado, ansiedade subindo.  Tentamos atrapalhar o menos possível, e contamos com a enorme gentileza de todos, atores, técnicos e o diretor Marco Antonio Rodrigues. Poucas vezes vi um grupo de pessoas tão identificadas com um projeto estético e político, na medida em que fala dos milhões de desterrados que perambulam pelo mundo fugindo da guerra, da fome, dos desastres ambientais, da discriminação.

Espero que a beleza das imagens captadas compense o estorvo que causamos. E recomendo enfaticamente o espetáculo, do qual falarei com mais detalhes nos próximos dias. Acompanhe!

(PS: as fotos de cena são dos bravos companheiros  Tiago, César e Luiz Miyasaka. A última é da Renata Palheiros, nossa produtora de vídeo).

O crepúsculo de Florença

É curioso como uma das lembranças mais persistentes das pessoas que conhecem ou viveram em Florença é o por do sol. Seria normal, se estivéssemos falando de uma pequena ilha selvagem, onde o maior espetáculo fosse o crepúsculo. Ou de uma cidade portuária qualquer, virada para o Oeste, onde o mar incendiado dos fins de tarde aquecesse a alma das pessoas. Ou de um sertão (ou deserto) onde o alaranjado que anuncia a noite pinta o céu de nuances quase surreais.

Mas é Florença, depositária dos maiores tesouros artísticos da Europa. Cidade de palácios e castelos, de esculturas e pinturas, de torres e igrejas, de pontes e vielas cheias de história. Não tem mar, nem praia. De onde vem esse mistério?

Primeiro, do rio Arno, que se transforma em sol líquido cortando a cidade. Segundo, da ponte Vecchio (séc. XIV), velha senhora cuja beleza encanta várias gerações. Por fim, da moldura de montanhas, que delineia o cenário.

Nada disso seria devidamente apreciado se não houvesse um lugar perfeito para tal. Sobre uma colina, próximo à Piazzale Michelangelo, o Belvedere se transforma, todo fim de tarde, no ponto de encontro de turistas, estetas, apaixonados, jovens de todas as idades.

Eles guardam para sempre a visão do rio Arno dourado sob a Ponte Vecchio. Dezenas de pessoas levam garrafas de vinho e taças (ou cerveja, em pleno verão) e assistem ao espetáculo dantesco sentadas nos degraus da escadaria. Lindo! E não aplaudem o último raio de sol, como se faz em algumas praias. Erguem um brinde, e se embriagam de luz.

O esplendor de Florença

Diz um velho ditado que não se deve ir a Roma sem ver o Papa. Não cumpri esta indicação, embora tenha visto belas obras de arte no Vaticano. Mas cumpri prazerosamente um outro conselho, de inspiração mais elevada: Não se deve ir a Florença sem ver a Galeria Degli Uffizi.

Passei vários dias embriagado pela superexposição a tantos tesouros do Rissorgimento. Os florentinos abusaram do direito de acumular belezas. Às vezes não tinham este direito, claro! Guerras, roubos e traições fizeram parte dos afazeres habituais de Medicis, Borgias, Sforzas et caterva.

O percurso na Galeria segue uma orientação cronológica. A reverente arte sacra dos séculos XIII e XIV exibe seus dourados. Giotto, Lippi, Piero Della Francesca, as batalhas de Ucello… Tudo é sólido, solene, compenetrado. De repente, entramos numa grande sala onde a luz que vem dos quadros emana leveza e transparência. Tudo parece voar, os pés mal tocam o chão. É Boticelli.

O coração descompassou ao ver a Primavera e, sobretudo, a Vênus de cabelos soprados pelos zéfiros. Mais linda que sua irmã brasileira, aquela que nos recebeu no aeroporto de Roma…

E tem Rafael, Caravaggio, da Vinci, Tiziano, Dürer. E os inefáveis anjinhos de Rosso Fiorentino, tocando alaúde ou espiando sobre um muro, reproduzidos em camisetas, cartões, cartazes, chaveiros, calcinhas e bolsas bregas em todo o mundo, inclusive nas barracas de camelôs tupiniquins.

Flanei também pelo Palazzo Pitti, enorme e cheio de mármores e óleos (a galeria Palatino tem outros Rafaéis, Rubens, Tizianos, Caravaggios…), só parando após a iminência de uma trombose nas pernas.

Obras conhecidas, quase familiares. Estão em livros, revistas, pôsteres, agendas, fascículos. Mas vê-las ao vivo, de perto, é pura emoção estética. Eu disse ao vivo? Sim, não foi um lapso. Elas respiram, e te acompanham com os olhos até que você saia da sala. Até o fim da vida. Até que você vire também um retrato na parede.

Ou uma estátua…

Bach em gráficos

Bem antes da criação do moderno pentagrama (invenção do monge Guido d’Arezzo, 995-1050), o problema de  representar graficamente as notas musicais era resolvido pela analogia com as alturas. Uma nota mais alta era um pontinho (ou bolinha, ou quadradinho) mais alto que a anterior.

Partitura de canto gregoriano

O canto gregoriano era registrado dessa forma. Como a altura não era exata, confiava-se na memória dos cantores para que a melodia fosse cantada de forma correta.

Bem, depois do pentagrama e da definição exata da altura das notas (lá = 440 Hz), a música virou quase uma ciência exata. Mas esse vídeo retoma a idéia original dos neumas medievais, usando o recurso da animação, onde os timbres são representados por cores. Um Bach gráfico, ao mesmo tempo didático e genial. Curta!

Quem já viu como funciona uma caixinha de música, um realejo ou uma pianola mecânica? É isso aí, lâminas metálicas passando por furinhos (ou saliências) e produzindo sons de alturas diversas. Desconfio que tem algo meio mágico nisso tudo…

Os Davis de Florença

(Florença, 31/07/2009)

Viagem tranqüila, trem pontual. Um simpático e idoso casal puxa conversa.  São austríacos, mas moram nos EUA. Globe trotters, viveram no Chile, conhecem o Brasil. Arregalam os olhos quando relembram sua maior emoção: “Iguazu Falls is terrific!”. Deve ser mesmo, um dia ainda irei lá.

Pra variar, em Florença faz um calor maquiavélico, dantesco! (maneira pouco sutil de introduzir dois personagens locais). Nosso consumo de acqua frizzante está nos hectolitros. Pela primeira vez nessa viagem ficamos num hotel, o Bocaccio, pertinho da estação e do centro histórico.

Como já eram mais de onze, compramos ingressos para a Galeria Degli Uffizi para o dia seguinte, prometendo estar lá na primeira hora. Zanzamos pela cidade, entre castelos e vicolos, turistas e camelôs. Por aqui, como no resto da Itália, Pinocchios de todos os tamanhos são vendidos como lembrança. Deve ser um símbolo nacional, na terra de Berlusconi.

No mercado histórico há uma estátua em bronze de um javali. Diz a lenda que quem põe uma moeda na sua boca tem sorte e fortuna. Uma versão mais mão-de-vaca diz que basta passar a mão no nariz do bicho. Resultado: O corpo todo do animal está escurecido pelo tempo, menos o dourado e brilhante focinho. Vi bronzes humanos com outras partes douradas. Estranhos mitos…

O David de Michelangelo está por toda parte. Em mármore, em bronze, em tecido, em couro, em papel. Em volta, sempre um bando de turistas fotografando, sem se importar se é cópia ou original. Ah, a obra de arte na época dos seus meios de reprodução… Imagino Walter Benjamin no meio dessa bagunça: “A aura, onde está a aura?”

Um pescador de domingo

Nascido à beira do mar, desde menino gosto de pescar. Desenvolvi sozinho a prática de só ficar com os peixes que iria comer, devolvendo os outros à água.

Quando vim para Sâo Paulo, pescar ficou mais difícil. Naquele tempo, a represa Billings  ainda era atrativa, mas a poluição acabou tornando esta opção insalubre. Nos anos 90 passei um tempo em Juquehy, no litoral Norte do estado, e ainda pesquei alguns robalos e pampos em Barra do Una.

Na virada do milênio, parei. Meu molinete sumiu em uma das mudanças, e nem me preocupei em arrumar outro. Pescar se confundiu com um daqueles  passatempos juvenis  que custamos a abandonar. Certa vez um  sábio definiu pescaria como “um bobo em cada ponta da linha”.

Mas nessa virada de ano, em Ilhabela, levei meu sobrinho Bruno pra aprender alguns macetes de pescaria. Fomos para um costão de pedra, ao sul da ilha, e mostrei como se usa o molinete, com iscas artificiais. De repente, para minha surpresa, este peixe-galo achou que aquela minhoca marciana de borracha era apetitosa…

Era um sonho infantil publicar uma foto minha de pescador. Daquelas que aparecem nas revistas, com um pançudo mostrando orgulhoso o resultado da luta desigual. Mas tinha que ser diferente, claro.

Resolvi colocar  o peixe à minha altura, olhos nos olhos, digno adversário que por infelicidade teve seu dia de azar. E o cara tem uma testa maior que a minha, merece respeito!

Avatar

Fui ver Avatar. Saí maravilhado, impressão que normalmente dura por algum tempo e vai se dissipando quando a poeira digital abaixa.

Me parece definitivo que é uma experiência inovadora para a história do cinema. Nada será como antes, depois de Avatar. Quem se conformará em ver um filme de FC (ou de fantasia) em 2D? Até Harry Potter e o Senhor dos Anéis parecerão miseráveis, depois de Avatar.

Dito isso, vamos aos clarões de sobriedade. O filme é uma fábula previsível, cheia de referências conhecidas e coisas parecidas com… outros filmes. A floresta e seus sustos lembram descaradamente Jurassic Park. O romance inter-racial (ou entre espécies, no caso) é puro Pocahontas. A batalha final é Apocalipse Now. O soldado meio tosco que ganha consciência e resolve ficar do lado dos bons é… vixe, são muitos!

Mas isso não é ruim, é legal. O filme é uma fábula, e o roteiro se assenta nestes arquétipos, nessas estruturas narrativas tão conhecidas e estudadas. Nada de novo. E tudo, de novo!

O visual é impressionante. A imaginação gráfica é admirável, e o 3D nos faz ficar de boca aberta pelo, digamos, realismo (o mais correto seria dizer surrealismo. Até as montanhas flutuantes de Magritte estão lá, lindíssimas, com cachoeiras e pterodáctilos voando como se estivessem em capas de álbuns do Yes, nos anos 70).

O filme mistura todas estas referências e o resultado é fantástico. Atenção: Fantástico no sentido da fantasia, não no sentido empobrecedor criado pela Globo nas noites de domingo.

Saí do filme conversando com a Carmen (física) e a Renata (produtora de vídeo). Uma, apaixonada por ficção científica. Outra, por cinema. E lembrei de filmes que foram marcos do cinema de FC.

Metrópolis, lá atrás. 2001, Uma Odisséia no Espaço, de 68, marco absoluto, um dos maiores filmes de todos os tempos. Blade Runner, nos anos 80, enterrando de vez a imagem limpinha e asséptica do futuro no planeta. Star Wars, com seu vertiginoso fliperama visual. Jurassic Park. E agora, Avatar.

O que chama a atenção nessa linhagem é a regressão intelectual. Havia idéias políticas, desafios intelectuais, conflitos adultos. A coisa vai ficando rala, até virar uma fábula de bonzinho contra malvado, cada vez mais simplória, para encantar o maior número de pessoas possível.

Avatar aposta na infantilização crescente dos jovens, que são 90% do público mundial de cinema. Investe na preguiça em pensar, no previsível, na equação fácil. Kubrick seria um fracasso hoje, nem conseguiria filmar algo como 2001. “Que porra é essa, que ninguém consegue entender?”, diria o big boss da produtora. E os jovens de hoje – perante 2001 – dizem a mesma coisa, num vocabulário ainda mais pobre. Nos anos 60, nos encantávamos com o desafio, com o obscuro, com o indecifrável… hoje, se a história não for entregue bem mastigadinha, é fracasso na certa. Ou vira uma xaropada pretensamente intelectual como Matrix, cheia de furos.

Consciente da decadência mental que Avatar representa, volto a dizer que é um marco na história do cinema. Não sei o que virá depois, ladeira abaixo, mas é um magnífico exemplar da submissão da inteligência criativa à técnica que recicla e liquidifica todos os conceitos anteriores. É maravilhoso. De maneira perversa, vai tornar menores todos os filmes que ousem especular sobre o futuro em um obsoleto 2D. E nem teremos noção do que vamos perder com isso, deslumbrados que estaremos com as paisagens new age do planeta Pandora.

(As ilustrações que abrem e fecham este post são de Roger Dean, ilustrador inglês, dos anos 70. A do meio é do belga René Magritte – morto em 1967).

Verona, 2009

(O segundo semestre de 2009 foi tão agitado que acabei nem contando aqui alguns causos da viagem que fiz em julho/agosto. Entre eles, está a ida a Verona, terra dos bisavós da Carmen. Aqui vai, copiado diretamente do diário de bordo, sem cortes ou adições.)

Ainda hospedados em Milão, pegamos o trem para um dia em Verona. A estação de trens de Milão é gigantesca, e recém reformada. Parece maior que a de Roma, e daqui saem trens para toda a Europa. Viajantes de todas as nacionalidades brigam com as máquinas de emissão de bilhetes. Ou resmungam, em todos os dialetos, na fila de atendimento da Trenitalia. Movimento maior que o de muitos aeroportos, só falta o check-in e o raio X.

Em menos de duas horas chegamos a Verona. A Arena, anfiteatro onde gladiadores se digladiavam (eis um autêntico pleonasmo!) e cristãos serviam de aperitivo a leões no século I hoje é palco de shows, concertos e óperas. Estava cercada de alegorias egípcias, esfinges enormes e pirâmides, como se estivéssemos na área de dispersão do Sambódromo. Não precisei ser muito esperto pra descobrir que na noite anterior haviam encenado a Aída de Verdi.

Olha o cenário colocado no coliseum!

O Castelvecchio é hoje um imponente museu, ao lado do rio Adige. Castelo de verdade, com fosso (sem jacarés), ameias, muralhas, seteiras, passagens estreitas e grandes salões. Abriga obras de várias épocas, armas e barões assinalados, obras medievais, renascentistas, clássicas e românticas. Uma bela coleção de Correggio, alguns flamencos (dois Rubens!).

Perambulamos pelo centro histórico, visitando as chiesas. Pra variar, calor de derreter cavaleiro medieval.  De repente, uma multidão aglomerada num vicolo, com máquinas fotográficas disparando freneticamente. A casa de Giulietta, vejam só! Carmen subiu no famoso balcão, registrei.

Obviamente, é tudo falso. Os dois personagens inventados por Shakespeare são os nomes mais célebres de Verona, e estão em camisetas, broches, pratos, chaveiros, guardanapos e CDs. Na rua, flautistas e acordeonistas tocam o tema do filme de Zefirelli. Um pesadelo kitsch, piorado por uma exposição de um artista moderninho, que encheu a casa da Julieta de intervenções e obras como um Romeu grávido e dois esqueletos transando… Existe também a Casa de Romeu e a tumba de Julieta, fora das muralhas da cidade, para quem se interessar. Tomamos outro rumo.

Subimos na torre Lamberti, a mais alta de Verona, construída no século 12. No momento em que chegamos ao topo, o sino bateu 2 horas, deixando surdos todos os que ali estavam.  Minha cabeça ficou tinindo por uns 15 minutos, até voltar ao chão. Ainda fomos à Ponte Pietra e ao Teatro Romano, também palco de encenações atuais.

Valeu a viagem. Verona ficará na lembrança por muito mais tempo que as maledettas badaladas. Voltamos a Milão cansados, mas felizes como dois jovens personagens shakespearianos. Ciao, Lombardia! Rumo à Toscana.

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