Jornalistas, acima da lei?

Eu gostaria de ouvir um único motivo convincente dos que defendem a não-convocação de jornalistas na CPI do Cachoeira. Ou em qualquer CPI.

Jornalista é inimputável? Nasceu ungido de inocência perpétua? Crimes e delitos não existem dentro das redações, estes conventos da  informação?

A última desculpa que ouvi foi a de que abriria um “perigoso precedente”. Perigoso pra quem? Para a liberdade de imprensa? Claro, sabemos todos que investigar a verdade pode ser perigoso, alguns até perdem a vida nessa busca. Mas não se deve deixar de buscar, nunca! E imprensa livre não é exatamente aquela que se enconde atrás de acordos obscuros.

Além do mais, o jornalista que falou de “perigoso precedente” é um desinformado. Ou seja, um péssimo jornalista. O professor Venício Lima lembra bem, aqui, que já houve convocação de jornalistas em CPIs no Brasil. No resto do mundo civilizado, é até praxe.

A CPI da Última Hora rolou no tempo de Getúlio, e convocou notórios jornalistas como Samuel Wainer e Carlos Lacerda. O mundo não caiu por causa disso. Aliás, ficou mais claro.

Durante a ditadura militar rolou a CPI do acordo Globo X Time-Life, que convocou representantes de ambas as partes. Além de Walter Clark (diretor da Globo) e João Calmon (então presidente da Abert), o próprio Roberto Marinho foi convocado e se submeteu a interrogatório. Portanto, houve precedente, e envolveu gente bem mais categorizada que os suspeitos de hoje.

Enfim, vivemos num país onde parlamentares, religiosos, advogados, juízes, prefeitos, governadores e presidentes podem ser convocados, julgados e condenados (ou inocentados). Por que jornalistas estariam acima da lei?

Os margaridões de Van Gogh

Fim de semana ensolarado, resolvo dar uma volta pelas ruas do Butantã. Num dos últimos terrenos baldios da Vila Gomes parei para apreciar a vingança da natureza contra a especulação imobiliária.

 Margaridões (ou arnicões, segundo meu velho amigo Sylvio Panizza) esparramavam seu amarelo pela paisagem. Quando cheguei bem perto, tentando focar uma abelha com minha compacta, tive um alumbramento. Me senti uma espécie de pintor holandês, e tive até de me certificar se minhas orelhas estavam no lugar.

Van Gogh gostava de girassóis e coisas amarelas em geral. Há uma curiosa teoria de que, enquanto pintava nos campos de trigo, mascava alguns talos que continham um pequeno fungo, de onde (no século seguinte) se sintetizaria o ácido lisérgico, mais conhecido como LSD. Engenhosa tese que é reforçada quando contemplamos os famosos ciprestes bruxuleantes e céus revoltos do torturado artista.

Não sei se há margaridões na França. Por aqui são comuns, e gozam de certa fama medicinal. Mas olhando bem o famoso quadro, suspeito que o que a História da Arte entendeu serem girassóis são, na verdade…. margaridões!

(Eu juro que só tomei uma taça de vinho!)

Noel e o humor na canção

Noel Rosa sempre dá samba. Em qualquer roda que se preze isso não é novidade. Mas Noel, com toda sua grandeza, também dá tese, artigo, ensaio e livro.

   O mais recente, que saiu do forno na semana passada, é o da professora e pesquisadora Mayra Pinto, de São Paulo. Depois de escrever vários livros didáticos e passar por mestrado e doutorado, descobriu no sambista da Vila Isabel um tema original, que vem enriquecer a estante de estudos sobre a música (e a poesia) popular brasileira.

  Para ela, Noel “criou um modelo de excelência poética”. A partir dele, “ficou a experiência de que a canção, em sua imbricação de linguagens – musical e linguística – poderia ser uma produção cultural de primeira grandeza”. Conversei com Mayra,  pedi uma entrevista para a Revista Música Brasileira, fui no lançamento e acabamos amigos!

- Como surgiu a ideia de escrever sobre Noel, com este enfoque?

Por incrível que possa parecer, tive a ideia de analisar a obra do Noel via um teórico russo, o Bakhtin. Para quem trabalha com cultura popular e/ou análise literária com viés enunciativo, há uma obra dele cuja leitura é obrigatória: A cultura popular na idade média e no renascimento. Há toda uma teoria do humor aí, além de um ensaio brilhante sobre a obra de Rabelais, que teria sido, segundo Bakhtin, um lugar erudito (no renascimento) que pôde ser atravessado por diversas imagens próprias da cultura popular (da idade média) europeia. Bem, a partir dessa leitura, fiquei pensando se não teria havido na nossa cultura um fenômeno semelhante, já que aqui há toda uma larga história das confluências entre cultura erudita e popular desde o século XIX sobretudo na música. E Noel, pra mim, cumpriu de certa forma essa função de misturar elementos próprios da cultura popular – além dos temas, claro, toda a linguagem musical que vinha sendo reelaborada pelos sambistas do Estácio – e da cultura erudita – com a sofisticação poética de letras carregadas de ironia e marcadas pelo discurso coloquial que, só a partir da geração dele, entrou de fato como uma marca linguística de primeira grandeza na canção.

- O humor está na origem da poesia (e da música) brasileira, desde Gregório de Matos. Letras satíricas, canções chistosas e lundus maliciosos fazem parte da nossa formação. Noel é uma mudança qualitativa nessa tradição?

Acho que sim, porque com ele entrou um tipo de ironia que não havia antes e com uma segurança poético-musical incrível. Como disse o Luiz Tatit, a obra do Noel dá a impressão de que o samba sempre existiu! Tamanha a “naturalidade”, a familiaridade que a gente sente ao ouvir suas canções. No seu momento mesmo, há toda uma produção humorística nas canções, como você diz, chistosas, maliciosas e/ou satíricas (não nos esqueçamos das deliciosas marchinhas de carnaval e de inúmeros sambas clássicos, inclusive de Noel, com esse tipo de humor). Mas Noel traz a ironia na canção. Por exemplo, leia/ouça “Gago apaixonado” cujo discurso é de um gago que encaixa milimetricamente nas frases musicais; é literalmente um samba cantado por um gago! Só por isso, já seria genial, mas aí temos o toque noelino precioso: a autoironia. Noel funda na canção esse sujeito lírico capaz de tirar sarro de si mesmo. Moderníssimo isso.

- Por que a canção “Com Que Roupa?” é tão emblemática na obra de Noel?

Porque é o primeiro samba dele gravado (junto com “Malandro medroso”) e já nasce um clássico por inúmeras razões, mas, a principal, a meu ver, é que ele entra aí num baita confronto com o que está começando a se estabelecer como um paradigma em várias frentes: desde o arranjo da canção – bem mais simples só com um violão e cavaquinho – passando pela interpretação – ele mesmo grava a canção, com sua voz “pequena” num meio dominado pelo vozeirão-modelo de Francisco Alves (Mário Reis começava aí, e claro que foi uma inspiração e incentivo pro Noel) – até chegar na letra da canção – que confronta o estereótipo do malandro “bem sucedido”, que mal começava a se formar, veja, e era o mote de inúmeros sambas da época (em “Com que roupa?” o malandro não tem dinheiro sequer para vestir uma roupa adequada para ir ao samba devido à crise financeira de 29 que afetou a todos, inclusive o malandro!). Então, essa voz de Noel, que chamo de uma voz de confronto (com os valores dominantes do trabalho, da moral etc.), já se mostra claramente, e de modo seguro, desde seu primeiro samba. Se vc pensar que um artista, geralmente, leva anos para amadurecer seu trabalho, para conquistar a segurança de um estilo, é bastante surpreendente o que aconteceu com o poeta da Vila já aos 19 anos.

- Um traço característico da música brasileira, principalmente do samba, é falar da dor de modo irônico, dando risada. A falta de dinheiro, de trabalho, de amor, a traição e até a morte serviram de tema para inúmeras canções irônicas, alegres, que fazem rir e pensar. Noel foi um dos criadores dessa fórmula?

Creio que sim. Mas Noel contribuiu para essa fórmula no viés mais “amargo”. Sua risada não é “solar”, por exemplo, como a de um Braguinha ou de um Lamartine Babo, contemporâneos e parceiros seus. Várias canções de Noel carregam um riso que é também a expressão de uma dor; a crítica, em sua obra, não é só do deboche, que há também, mas em boa parte de suas canções, a ironia sugere um desprezo pelos valores dominantes com um traço de amargura. Pense em “Filosofia”, por exemplo, em que o sambista se queixa da “incompreensão” do mundo a respeito de sua condição de artista/sambista e, ao mesmo tempo, revela sua “estratégia” para lidar com essa dor: “Mas a filosofia/Hoje me auxilia/A viver indiferente assim./Nesta prontidão sem fim/Vou fingindo que sou rico/Para ninguém zombar de mim”. Sua estratégia é o fingimento de um suposto desprezo, no fim das contas, por esses valores: ele finge não se importar, mas, ele se importa; como qualquer artista, o sambista precisa do reconhecimento de seu trabalho para seguir. Essa é a um marca singular da voz de Noel: a ambiguidade própria da ironia permite um jogo de disfarce em que o sujeito “finge” seu desprezo pelos valores dominantes (com graça, num tom alegre) e ao mesmo tempo denuncia esses valores como opressivos (com amargura, num tom menor). Veja a última estrofe de “Filosofia”: “Quanto a você/ Da aristocracia/Que tem dinheiro/Mas não compra alegria/Há de viver eternamente/Sendo escrava desta gente/Que cultiva hipocrisia”. Fica bem clara aí a atitude crítica, e agressiva até, desse sujeito aparentemente desvalido e frágil, mas ao mesmo tempo capaz de denunciar, com eloquência, as contradições mais cruéis da ordem social.

O livro Noel Rosa – O Humor na Canção (Ateliê Editorial/ Fapesp), de Mayra Pinto, foi lançado em São Paulo no dia 8 de maio, na Livraria da Vila. Vamos torcer para que, em breve, esteja em todas as rodas… digo, livrarias do Brasil!

(foto: Helvio Romero)

Para o seu governo

Esta semana fui ao teatro. Ou melhor, fui ao espetáculo de dança-teatro-poesia do grupo Caleidos, na Galeria Olido, em São Paulo. Depois de ter enfrentado o mico da Virada Cultural, semana passada, com gente demais pra tudo quanto é lado, nada melhor que voltar ao velho Centro e ver que ainda há salvação.

O Caleidos segue uma linha muito interessante de trabalho, misturando prosa, poesia, dança e teatro. A coreógrafa Bel Marques, formada na escola de Laban, propõe uma interação  entre bailarinos e público de uma forma inovadora. Eu, pelo menos, nunca tinha passado por esse tipo de experiência.

Nós (o público) entramos pelos bastidores, e fomos posicionados no palco, não na platéia. Um grande tabuleiro quadriculado, onde cada pessoa ocupou um metro quadrado marcado no chão. Os bailarinos dançaram à nossa volta, movimentando as pessoas como peças de xadrez, de um quadrado para outro, mas de forma delicada, sem constrangimentos. Tudo isso é regido por um texto, lido ao vivo pelo autor Fábio Brazil, que enumera estatísticas monstruosas sobre a nossa, digamos, civilização. “Para o seu governo, este espetáculo começou há 15 minutos. Nesse período, 2.412 mulheres sofreram algum tipo de violência no Brasil”. O “Para seu governo…” vai enumerando dados urbanos, nacionais e mundiais, mesclados a uma trilha sonora intensa e tensa.

Durante uma hora fazemos parte do espetáculo. Às vezes em pé, às vezes sentados, cada um no seu metro quadrado. Ou melhor, no quadrado da vez. Saí de lá pensativo, e louco para comer um autêntico bauru do Ponto Chic. Infelizmente, às 21 horas de uma sexta-feira, estava fechado. Sinal dos tempos, do medo que se instalou no centro de São Paulo. Os mendigos na calçada da avenida São João ocupavam seus quadrados. Ou melhor, o quadrado da vez. Amanhã estarão em outro metro quadrado, se sobreviverem.

Campeões da corrupção

Taí um assunto escabroso. Para alguns, repetitivo e chato. Para outros, bandeira a ser agitada durante toda a vida.

O problema é que muitos que a ostentam em todos os discursos se revelam meros calhordas oportunistas, como o até ontem impoluto senador Demóstenes. Como manifestar indignação contra os corruptos sem se confundir com esse tipo de gente? Eu, que sou bobo mas não besta, nunca embarquei nessas campanhas do tipo “cansei”, justamente por ler jornal e ver quem estimulava esse tipo de movimento. O parlamentar goiano era um ídolo de boa parte daqueles iludidos…

Mas é fácil xingar os políticos (ué, você não elegeu vários deles? Não tem responsabilidade nenhuma nisso?) e fechar os olhos para os pequenos deslizes cotidianos. Subornar o guarda de trânsito, maquiar o imposto de renda, parar o carro na vaga de deficiente, furar a fila, mentir sobre o próprio currículo, etc.  Todos mentem, até o Papa. Uns mais, outros menos. Fazer discurso moralista é que é a suprema hipocrisia. Combata o errado, mas não se julgue perfeito por causa disso. Você não faz mais que a obrigação…

Uma das confusões mais difundidas por aí é que nunca houve tanta corrupção como agora. Bem, digamos que a corrupção antes era oculta, certo? Durante todo o período da ditadura militar a imprensa era censurada. Alguém acredita que os partidos do Brasil imperial eram menos corruptos? Que as leis no tempo das capitanias eram ditadas por governantes justos e seguidas por um povo ordeiro?  Pois hoje temos mais liberdade de imprensa (viva!), mais repercussão, mais transparência. Onde era escuro, a claridade revela os ratos. Infelizmente,  governantes de vários estados brasileiros preferem manter a escuridão,  impedindo a abertura de CPIs e fazendo pactos excusos com órgãos de imprensa locais (alô, Serra!), muitas vezes de propriedade dos próprios políticos (alô, Sarney!).

Uma pequena pesquisa me levou ao Dossiê do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral. Baseados em dados do TSE, elaboraram uma lista dos políticos cassados por corrupção no Brasil.  Há 632 nomes na lista, que não inclui delitos criminais, apenas eleitorais (compra de votos, propaganda irregular, desvio de verbas de campanha, etc). Veja só que interessante:

Posição – Partido político Sigla Nº. de políticos cassados Percentual
1º - Democratas DEM 69 20,4%
2º - Partido do Movimento Democrático Brasileiro PMDB 66 19,5%
3º - Partido da Social Democracia Brasileira PSDB 58 17,1%
4º - Partido Progressista PP 26 7,7%
5º - Partido Trabalhista Brasileiro PTB 24 7,1%
6º - Partido Democrático Trabalhista PDT 23 6,8%
7º - Partido da República PR 17 5%
8º - Partido Popular Socialista PPS 14 4,1%
9º - Partido dos Trabalhadores PT 10 2,9%
10º - Partido Progressista Brasileiro PPB 8 2,4%
11º - Partido Socialista Brasileiro PSB 7 2,1%
12º - Partido Social Liberal PSL 3 0,9%
12º - Partido Trabalhista Cristão PTC 3 0,9%
13º - Partido da Mobilização Nacional PMN 2 0,6%
13º - Partido Renovador Trabalhista Brasileiro PRTB 2 0,6%
13º - Partido Social Cristão PSC 2 0,6%
14º - Partido Humanista da Solidariedade PHS 1 0,3%
14º - Partido de Reedificação da Ordem Nacional PRONA 1 0,3%
14º - Partido Republicano Progressista PRP 1 0,3%
14º - Partido Social Democrático PSD 1 0,3%
14º - Partido Verde PV 1 0,3%

Os três primeiros partidos somam mais da metade dos cassados por corrupção. Curiosamente, é neles que se instalam alguns dos mais estridentes tribunos do Congresso Nacional. O grande demônio da velha imprensa, o PT, ocupa um modesto nono lugar…

Nesta semana, dois governadores estão sobre suspeita de envolvimento com o esquema Cachoeira. O do DF (PT) ocupa um espaço muito maior nas manchetes dos jornalões que o de Goiás (PSDB), embora as provas contra este sejam cada vez mais consistentes. A manipulação é clara,e  mostra como anda corrompido o tal “quarto poder”. Duro é ver gente – que se acha séria – acreditar na revista Veja, por exemplo… Sinal de afrouxamento mental,  talvez conveniente para defender certas idéias meio primitivas. A velhaca revista está cada vez mais atolada no esquema do contraventor-corruptor, que mandava até colocar notas sobre seus desafetos

Enfim, o tema não é fácil. A corrupção é eterna, inerente ao ser humano. Se intimida com mais justiça, mais verdade, mais transparência, mais deputados comprometidos com as promessas de lisura. Eles existem, sim, quem acompanha as ações parlamentares sabe disso. E cassação, prisão e julgamento de quem corrompe ou é corrompido, com devolução do roubo e pagamento de multa equivalente (alô, Maluf!).

Quando alguém te pergunta o que fazer para melhorar, responda: Que tal começar não elegendo corruptos em 2012?

Não siga a minha religião

Domingo é dia de conquistar novas almas. Pelo menos é isso que devem pensar certos evangélicos, apostólicos, mormons, crentes, testemunhas, missionários, obreiros, vendedores do carnê celestial ou seja lá como se chamam. Não poucas vezes fui acordado numa bela manhã dominical, fui até a porta, ainda sonolento, e dei de cara com simpáticas senhoras ou uma dupla de gringos loiros e altos, de forte sotaque, prontos para me catequizar. É o que dá morar num bairro de classe média de uma metrópole como São Paulo.

Não consigo ser mal educado com as pessoas, embora a vontade de mandar lamber sabão seja grande. O livro preto nas mãos denuncia a intenção. Por que diabos toda Bíblia tem a capa preta? Aliás, juntar diabo e Bíblia na mesma frase deve ser alguma espécie de pecado…

A pergunta inicial nunca é “o senhor gostaria de ser catequizado?”, pois isso tornaria tudo mais direto e franco: um “não” bastaria.

- Bom dia. Como é o teu nome? Como o senhor está passando? O senhor nos conhece?

Qualquer resposta educada é motivo para puxar a conversa. Perco cinco, dez minutos tentando me desvencilhar.

- Ah, Daniel é um nome bíblico! O senhor já leu a Bíblia?

Claro que li algumas partes, não vou mentir. Como já li trechos do Alcorão, da Torá e do Mahabharata. Mas é sempre um cristão que bate à porta, nunca fui incomodado por representantes de outras religiões. Acabo com algum folheto na mão (que vai sempre para a lixeira), deixando eles felizes  por ter mordido a isca oferecida.

Não adianta dizer que não frequento igrejas, pois revelo que sou uma potencial alma a ser salva. Dizer que sou ateu provavelmente terá o mesmo efeito. Nos últimos tempos, comecei a testar outras estratégias.

- Desculpe, sou judeu.

- (ar de desapontamento) Ah… Que coisa a situação em Israel, né?

Aproveito a deixa.

- É um governo de direita, racista e beligerante. Judeus democratas não apoiam aquele governo, querem a paz.

- Ah, então leia esse texto sobre as guerras no mundo e a salvação!

Não deu certo. Talvez na próxima diga que sou muçulmano. Mas como não uso barba nem turbante, provavelmente vão desconfiar da mentira. A cultura desse povinho catequizador costuma ser muito rasa, devem ter uma imagem estereotipada dos islâmicos.

Já sei! Acabo de fundar uma religião cujo primeiro mandamento é “Nunca tente convencer alguém a seguir tua religião”. Pecado feio, mortal. Tem de ser uma escolha pessoal, uma iluminação. Vou mandar essa, e quero ver a cara de quem me acordar cedo, no próximo domingo!

A rua dos bobos e o pai dos burros

Na semana passada, os jornais noticiaram a causa de um ex-empregado dum condomínio em Mangaratiba. Ele processou – e ganhou! – por danos morais os ex-patrões porque na guia de dispensa constava como endereço “Rua dos Bobos, 0”.

É lugar comum a afirmação de que a música popular brasileira é nosso maior patrimônio cultural.  Apesar de certo exagero, todos concordam que um dos aspectos da cultura brasileira mais conhecidos e admirados em todo o mundo é a música (já foi o futebol…). Quase poderíamos dizer “música popular”, não fosse a presença desse gigante chamado Villa-Lobos, que é até mais tocado e estudado que seus pares do formato canção.

             Neste cenário, é de se supor que a citação de autores, intérpretes ou obras de nosso cancioneiro fosse algo corriqueiro em textos jornalísticos, ensaísticos e mesmo na literatura de ficção. E que esse acervo cultural fosse do conhecimento da maioria, principalmente daquela camada que se autonomeia como “culta”, formada em universidades.

            Infelizmente, no dia a dia das redações, topamos com exemplos constrangedores de ignorância. Os caras enchem a boca pra falar da última bandinha de garagem que surgiu na semana passada em Londres (e da qual ninguém se lembrará daqui a um ano), mas não sabem quem foi Lamartine Babo…

            A frequência de asneiras só não é maior porque a maioria prefere esconder seu desconhecimento sobre a cultura brasileira. Afinal, no mundo idealizado, globalizado e cosmopolita onde ficam as sedes dos jornalões, é mais cool citar Madonna que Dolores Duran. E quando arriscam, sai besteira.

No Estado de SP, matéria não assinada de 13/04/12 (caderno Metrópole) afirma que o verso “Rua dos Bobos, número zero” é de uma canção do “violonista brasileiro Baden Powell”. O mais modesto A Voz de Caxias, sobre o mesmo assunto, tascou que a música era de Toquinho. Os redatores deveriam voltar à escola (de samba, talvez, se é que alguma vez pisaram lá). Outros, mais escaldados, deram a notícia mas evitaram chutar a autoria do verso.

De onde vem tal divergência? Terá a memória traído os redatores, que certamente cantarolaram esta canção na infância? É fácil observar a origem da gafe, basta entrar no Google. A fonte de informações não confiáveis em que se transformou o “pai dos burros do século XXI” coloca no topo da lista de  busca com o verso Rua dos Bobos, número 0 “ A CASA – Toquinho”.  Logo abaixo, no terceiro tópico, indica “A CASA – Baden Powell.” Os apressados jornalistas, sem tempo para checar as fontes, como se diz no jargão profissional, sequer perceberam que na mesma página havia informações contraditórias. E, por sinal, ambas erradas!

De fato, Toquinho interpretou várias vezes esta canção italiana (de Bardotti e Endrigo), que teve a letra traduzida por Vinicius de Moraes. Como o poetinha andou pela Itália e foi amigo dos autores, alguns podem até arriscar que ele deu um pitaco na letra original. Mera conjectura. O certo é que esta se transformou numas das canções mais populares da Itália (e do Brasil), cantada de cor por várias gerações. As crianças se divertem com o verso “não se podia fazer pipi, porque penico não tinha ali”, que não foi inventado por Vinicius (no original: Non si poteva far la pipì, perché non c’era vasino lì).

É grande a lista de mancadas nos chamados cadernos culturais da velha (outrora, grande) imprensa. A mais comum é atribuir versos aos autores errados. Muitas vezes quem leva a fama é o intérprete, como Toquinho no caso acima. Mas também atribuem origem errada ao artista (“o compositor nordestino Sérgio Ricardo”), confundem o gênero musical (“o sambista Jackson do Pandeiro”), trocam o instrumento do músico, situam em outra época ou até dão por morta gente que ainda tá por aí traçando sua feijoada.

Não chego a defender que a adoção da matéria História da Música Brasileira deva ser obrigatória nas escolas. Mas o simples ensino da música, plena e universal, na rede pública, como já foi no passado (uma bandeira de Villa-Lobos, arriada pela ditadura militar), provavelmente faria as novas gerações despertarem para seu significado cultural dentro de nossa formação como povo, como nação. A partir dessa base, os futuros jornalistas talvez respeitassem mais esse patrimônio tão rico e tão maltratado.

E vamos combinar que pra confiar cegamente na primeira linha do Google é preciso ter residência fixa na Rua dos Bobos, em qualquer número!

(artigo publicado originalmente na Revista Música Brasileira  - www.revistamusicabrasileira.com.br)

Pina, por Win Wenders

Assistir Pina, o filme de Win Wenders, é uma experiência sublime. Envolvidos pelas imagens em 3D, sentimos a respiração dos bailarinos, quase sentimos a pulsação acelerada, o sangue correndo nas veias. Toda a radicalidade formal do Tanzstheater  (dança-teatro) de Pina Bausch  se espalha pela tela, captada com emoção e invenção por Wenders, que foi amigo da coreógrafa alemã.

A ideia inicial era filmar tudo no palco, dentro da sede da companhia. A morte de Pina, em 2009, quase encerrou o projeto. Wenders  então reuniu os bailarinos da companhia e pediu que cada um sugerisse o que gostaria de dançar/dizer para Pina. O resultado delineia um retrato intimista da artista, carregado de emoção e sinceridade, ao mesmo tempo em que descortina a grandeza de sua obra.

A Sagração da Primavera abre o espetáculo de forma magnífica. Sentimos a força da encenação, marcada por uma simbologia pictórica de grande impacto. Há um homem, uma mulher, e o início de tudo, marcado pela única veste vermelha. Imagens de Pina são projetadas em uma sala escura, em 2D, por um velho projetor de 16 mm (que vemos em 3D). Wenders não nos deixa esquecer que estamos vendo cinema, grande cinema.

Mas foi a segunda peça, Café Müller, que me fez viajar no tempo. Mais precisamente para um dia remoto, há quase três décadas, quando assisti pela primeira vez, no Teatro Municipal de São Paulo, a chocante e revolucionária coreografia. Os personagens se debatiam entre cadeiras, caíam no chão, sofriam. Meu primo Fábio saiu da sessão tão marcado que pouco depois acabou se casando com uma bailarina! Um pequeno trecho desta peça foi mostrado também  no filme Fale Com Ela, de Almodóvar, lembra?

Wenders foi genial em colocar os bailarinos em cenários reais, ao ar livre. Eles dançam no meio do trânsito, no metrô suspenso de Wuppertal, em parques, em escadas rolantes, à beira de uma enorme escavação. O cineasta demonstra a universalidade de Pina fazendo os bailarinos darem seus depoimentos sobre a saudosa coreógrafa em russo, espanhol, francês, japonês, alemão e português (há uma delicada fala de Regina Advento, que abre o clipe abaixo, dançando sobre as cadeiras).

Tudo é movimento, poesia e beleza. A câmera acompanha os movimentos com uma leveza impressionante. Quando as luzes se acendem, e nos levantamos e encaminhamos para a saída, por alguns momentos parecemos personagens de Pina/ Wenders, dando continuidade à  mise en scène.  Wenders conseguiu transportar a magia da dança para as salas de projeção, com plena felicidade. Quase saí dançando…

Madame e a Sexta Feira, 13

Ela surgiu há alguns meses, de mansinho. Pulava o muro de volta quando alguém se aproximava. Com o tempo ganhou confiança. Passou a tomar sol no quintal, sossegada. Acabamos pondo água e comida, desde que não entrasse em casa. Entendeu as condições, depois de alguns entreveros. E começou a ficar barriguda. Não me preocupei muito, porque ela não pernoita por aqui. Imagino que deve dormir num lugar quentinho e seguro, algures. No final de março, apareceu esbelta novamente. E com uma fome daquelas, já chega miando e pedindo comida.  Come, lambe os bigodes, recebe um agrado e some por um par de horas. Cuidando da prole, certamente. Mas a quantidade de ração consumida dobrou, aqui em casa. Creio que em breve vai apresentar a família.

Hoje, véspera de sexta feira, 13, Madame fez pose no quintal. (Esqueci de dizer que o nome dela é Madame. Madame Satã, prima do Satanás, da Bruxa do 71). Espero que não sofra nenhum tipo de perseguição por conta da ignorância e da superstição. Gosto de gatos pretos, minha mãe teve um chamado Martim Afonso de Souza. Madame tem uma mancha branca no peito, e sua presença é sempre bem vinda. Onde tem gato, não tem rato.

Flying Down to Rio again

Semana de Páscoa, aniversário de filha. Desde o primeiro ano a confusão entre presentes e ovos de chocolate era constante, lá em casa. Bolo em forma de coelho, decorado com ovinhos, foi um clássico (que ela não gostaria de repetir, e nem eu).

Algumas vezes o aniversário cai na Sexta Feira Santa, ou seja, difícil fazer festa nessa data. Por outro lado, desde pequena, ela passou a curtir uma bacalhoada daquelas, neta de português que é. E quem nasceu no mesmo dia que Billie Holiday e Mussum, não tem do que reclamar.

Voei para o Rio, como naquele filme clássico, para comemorar o aniversário de Maria Flor, filha querida. O bacalhau da sexta foi devidamente degustado na Adega Flor de Coimbra, tida como a mais antiga da cidade. No mesmo endereço desde 1938, num sobrado onde morou Portinari, é um dos lugares do Rio antigo que mantém aquela aura indefinível que algumas cidades tem, outras não. Uns chamam de charme, outros de tradição.

Os donos da Adega tem certas idiossincrasias, que explicitam através de cartazes bem claros. Na verdade, muitos bares gostariam de colocar este aviso na parede, mas não tem coragem…

No sábado, reinauguração da quadra da Portela. Vamos lá? Claro! Busão até a Central do Brasil, trem até Madureira. Um mergulho no Brasil urbano-suburbano profundo, cheio de histórias.

O espaço é meio cenográfico, com paredes de gesso acartonado, mas é lindo. Tudo azul e branco, recém pintado, cheirando a novo. A feijoada consegue agradar, mesmo sendo feita em quantidades industriais (meu tíquete era de número 523…).

Rever a Velha Guarda da Portela não tem preço, capitaneada pelo grande Monarco. As pastoras se aplicam nos grandes clássicos mas a acústica não ajuda, como em qualquer quadra de samba. Entendemos mais as letras cantadas por quem está ao lado, ali no chão, do que pelos amplificadores amontoados nos cantos do palco.

À noite, outro clássico: O Bar do Zé, ali atrás do Glória. Cada vez que vou gosto mais do esquema simples, da possibilidade de pegar sua cerveja no balcão e ir tomar na calçada, conversando, sem barulho de trânsito ou vozerio de multidões. O espaço é lindo, com uma bela coleção de cachaças, parede de tijolos aparentes, portas em arco. Na rua de paralelepípedos o movimento de automóveis tende a zero, ampliando o espaço de convivência até a outra calçada. Mas fecha à meia noite, pois o Zé gosta de dormir cedo…

Enfim, voei de volta num domingo ensolarado, vendo toda a orla pela janela. Barra, Bandeirantes, Restinga da Marambaia…  Angra dos Reis, Ilha Grande, Paraty… Ubatuba, Ilhabela, Guarujá… E As represas enfeitando o alto da serra: Paraibuna, Billings, incrivelmente coalhadas de ilhotas. Um cenário fantástico, que deveria ser mais aproveitado pelo cinema brasileiro. Reichenbach tentou, Candeias experimentou, Person passou perto. Que tal?

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