Assisti Tropa de Elite em 2007, antes mesmo de inaugurar este blog. Daí me deu certa preguiça de comentar o filme, num ano que teve Jogo de Cena como um belo exemplo de cinema de invenção, feito com mãos de mestre e sentimento de sábio por Eduardo Coutinho.
Mas pintou Berlim e o Urso de Ouro, e há sempre amigos lembrando que me formei em Cinema na USP, e cobrando que eu fale mais da sétima arte aqui neste minifúndio.
Duas idéias me ocorrem (e não precisava ter estudado Cinema para isso). Primeiro, que é um filme bem feito, muito bem dirigido, montado e interpretado. Segundo, que tem um conteúdo fascista.
Curiosamente, os fãs do filme esperneiam, reclamando que “não é fascista”. Bem, gosto de alguns filmes fascistas, e assumo. Aqueles filmes da Leni Riefenstahl mostrando a supremacia nazista são lindos, embora tenham servido a uma causa grotesca. Intolerância, do Griffith, é uma obra-prima, mesmo sendo racista. Por que negar o óbvio?
Parece que a dimensão histórica dá certo grau de isenção para a obra de arte. O problema é quando a coisa está quente, falando do momento em que vivemos. Difícil enxergar sem o filtro ideológico, não é mesmo? Vamos a uma analogia didática.
Lembram dos filmes e reportagens encomendados pelo governo dos EUA para justificar o bombardeio ao Iraque? Ocultavam a morte de mulheres e crianças (“danos colaterais inevitáveis”) e mostravam só os “bandidos” sendo mortos. Qualquer pessoa minimamente dotada de senso crítico via a manipulação, mas serviu para que milhões de americanos votassem novamente em Bush Jr.
O que é o estilo “Tropa de Elite” de mostrar a realidade, senão ocultar as mulheres e crianças baleadas pelos Rambos brasileiros do Bope? Gostaria de perguntar ao Padilha, diretor inegavelmente talentoso na manipulação de imagens, se ele considera correta a “direção” do Pentágono. A tropa de elite, aqui como lá, não erra. Só mata os malvados traficantes/iraquianos e seus colaboracionistas.
E ainda há quem defenda o filme brasileiro dizendo que é a “realidade”…



