De volta a São Paulo, corro para a banca de revistas do aeroporto, com crise de abstinência de cultura impressa. Um número especial da revista Bravo! me chama a atenção: “100 Canções Essenciais da Música Popular Brasileira”.
Não sou fã de listas nem da revista, mas de música brasileira. Gosto de ouvir, tocar e conversar sobre nosso maior patrimônio cultural. Sei que qualquer lista é uma escolha arbitrária, e provavelmente metade de uma lista deste porte poderia ser substituída por canções tão boas quanto. Mas arrisquei.
E fiquei indignado, claro. Tudo que é óbvio está lá, de Asa Branca a Chega de Saudade, passando por Carinhoso. O problema são as ausências e alguns desequilíbrios de escolha, que privilegia certos nichos da MPB e ignora outros.
Só pra ficar no samba, fica difícil engulir que Geraldo Pereira e Wilson Batista não estejam na lista. Como João Nogueira cantou certa vez, os três maiorais do gênero são Wilson, Geraldo e Noel. Só discordo da ordem, pois coloco Geraldo em primeiro. Estranhamente, o autor de Falsa Baiana, Escurinho e Escurinha não foi sequer lembrado.
Há quem suspeite de certo racismo no fato de que o branquinho aí de cima ser sempre mais lembrado que os dois crioulos. Mas Noel era bamba, sem dúvida, embora um samba meio repetitivo como Com Que Roupa – que está na tal lista – não chegue aos pés de um Pra Que Mentir (parceria com Vadico), que não está.
Outro craque, Ataulfo Alves, entra só com a famosa Amélia. A suspeita de branqueamento surge quando vemos a foto de Mário Lago encabeçando o comentário, que se refere muito mais à letra que à música.
Dois dos meus sambas preferidos, Antonico (de Ismael Silva) e Chuvas de Verão (Fernando Lobo), não mereceram lembrança. Assis Valente, imortal autor de Camisa Listrada e Brasil Pandeiro, só foi considerado essencial por causa de O Mundo Não Se Acabou. Paulinho da Viola comparece com duas unanimidades, mas uma é seu mais famoso não-samba, Sinal Fechado. Wilson Moreira, Nei Lopes, Elton Medeiros ou Candeia não fizeram nada de essencial, pelo jeito.
Mas samba é coisa de preto, mesmo. A revista anuncia uma lista de MPB, aquela coisa meio indefinida, mais intelectual, mais cult, certo? Pois Milton Nascimento, autor de obras primas como Travessia, San Vicente e Saudade dos Aviões da Panair, só entra na lista por uma parceria com Chico Buarque (O Que Será?). Benjor não é essencial. Tim Maia, só como cantor. E Luiz Melodia ficou de fora! Hummm…
Chico tem dez indicações, e é o recordista, ao lado de Tom Jobim. Caetano tem quatro, Gil duas, e ambos tem uma parceria (Panis et Circensis). É duro destacar as dez melhores do Chico, reconheço, mas deixar Gota Dágua, Geni e Atrás da Porta de fora para a entrada de Todo o Sentimento, Leve (parceria com Carlinhos Vergueiro) e A Banda deve gerar muita briga no boteco. Convenhamos, a Banda tem um valor histórico inestimável, mas Chico evoluiu muito depois disso, e fez canções bem mais elaboradas.
Ah, mas todo mundo sabe cantar a Banda, podem argumentar alguns. Então, porque Aurora, A Jardineira e Mamãe Eu Quero não estão na lista? O que é ser “essencial”, afinal?
As canções contemporâneas, de caráter mais pop, devem causar arrepios nos tradicionalistas. Claro que é muito mais fácil escolher canções consagradas pelo tempo que as que estão em processo de sedimentação na cultura brasileira. Sou menos chato com estas escolhas, e acho mesmo que Lulu Santos, Blitz e Herbert Vianna fizeram canções memoráveis. Sim, são aquelas mesmas que você está pensando nesse momento: Como Uma Onda, Você Não Soube Me Amar e Óculos. Mas porque o Vira, dos Secos e Molhados, é mais essencial que Sangue Latino ou Rosa de Hiroshima?
E o sertão, o imenso latifúndio musical que está impregnado na alma de milhões de brasileiros, no campo ou na cidade? Bem, está lá o Luar do Sertão. Assum Preto marca a influência nordestina. No Rancho Fundo mescla viola e MPB. Surpresa tive com o Drama de Angélica, deliciosa canção satírica de Alvarenga e Ranchinho. Creio que Romance de Duas Caveiras é bem mais conhecido, não? E outros essenciais não foram nem lembrados, como Angelino de Oliveira ou Renato Teixeira. Dos modernos, Almir Sater, mas só como intérprete da canção Cruzada, de Tavinho Moura e Márcio Borges.
Aliás, Zezé de Camargo não é essencial pra entender um certo Brasil? Registro que não curto as músicas do cara, assim como não suporto pagode, axé ou funk carioca, mas é inegável que ele faz parte da trilha musical brasileira nos últimos 20 anos. Afinal, não se trata de uma lista das minhas preferidas, certamente.
Diz o Houaiss que essencial é o “que constitui o mais básico ou o mais importante em algo; fundamental”. Pensando bem, nenhuma lista é, no fundo, essencial.