Há três anos, quando acompanhei a jornada dos cortadores de cana, em Pernambuco, achei que era o pior trabalho do mundo. Como outras certezas que já tive na vida, essa também virou pó em pouco tempo. No caso, pó de carvão, pois alguns meses depois fui gravar as minas de Criciúma (SC).
A gravação durou cerca de cinco horas. Subterrâneas, pareceram dez. Primeiro descemos 300 metros, por um precário elevador, daqueles de construção. A ida até a frente de mineração (3,5 km!) é feita parcialmente por uma marinete puxada por um tratorzinho. Um labirinto de túneis, mais escuros que a alma de George Bush, muitos deles alagados. Os trechos abandonados servem também de privada para os mineiros…
Os quinhentos metros finais são feitos a pé mesmo. Carregando câmera, equipamento de luz, fitas, baterias, deu pra perder algumas calorias. À medida que nos aproximamos da frente de trabalho, o ruído aumenta. Britadeiras, máquinas, carregadeiras, pequenos bulldozers e, de vez em quando, explosões de dinamite.
O túnel tem de ser permanentemente molhado, para que a poeira mortal em suspensão diminua. As doenças pulmonares são muito freqüentes na categoria, e só têm diminuído por causa das campanhas constantes e da implantação das CIPA’s. A Cooperminas, primeira cooperativa de mineradores da região, foi a primeira da região a implantar uma série de medidas visando a recuperação ambiental e a saúde dos trabalhadores.
A cooperativa, aliás, tem uma história fantástica, daquelas que dariam um filme ou romance, continuação do Germinal, de Zola, com final feliz. A empresa faliu, deixando dívidas trabalhistas. Para receber o devido, os trabalhadores invadiram a mina. A polícia foi chamada para desocupar, atendendo prontamente ao pedido dos patrões. O líder amarrou meia dúzia de bananas de dinamite na cintura e foi negociar com um isqueiro na mão. “Se passarem deste portão, vão todos pelos ares”.
Nada como um discurso direto, sem rodeios. A polícia recuou. Os trabalhadores venceram na Justiça, tomaram posse da mina e assumiram sua direção de forma cooperada. Hoje vivem melhor que os outros mineiros da região, têm os melhores salários, ganharam o respeito da cidade. Elegeram vereadores e deputados, e nenhum prefeito se elege em Criciúma sem o apoio da categoria.
Bem, de volta ao mundo subterrâneo. Saí daquele pesadelo jurando nunca mais pisar naquela ante-sala do reino de Hades. E, como outras certezas que já tive na vida, essa também virou pó. De carvão. (Engraçado, acho que já disse isso antes…).
Estamos em 2008. E estou de volta, mais uma vez. Tudo parece igual, durante a descida. Mas a frente de trabalho ficou mais distante: agora são 5 km até chegar lá, trafegando por labirintos que nenhum fauno ousaria habitar.
Mando aqui um abraço para os bravos companheiros que fazem da Cooperminas um exemplo de superação, mas, confesso: Prefiro cortar cana!









É muito bom trabalhar na cooperminas,
e muito bem administrada pelos seus colaboradores!
abraços a todos..
Essa gravação ou documentário sobre as minas de carvão, é possível ser encontrado? Gostaria de assistir.
Aliás, gostaria de trocar um email com você. Cheguei até o seu blog por uma pesquisa no google.
É possível?
O vídeo foi produzido para a Unisol, entidade que representa nacionalmente várias cooperativas, Maia. Vou escrever diretamente pra você, aguarde!