Auto-de-fé

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Alguns amigos reclamam que ando escrevendo pouco ultimamente. É verdade. Poderia dar as desculpas habituais de trabalho, pouco tempo, falta de assunto. Serviriam. Mas uma leitura que me absorveu as últimas semanas é a responsável pela baixa freqüência de postagens no Fósforo.

Já comentei aqui que me impus uma meta, na virada do milênio, de ler um clássico por ano. Pois ontem li a última página de Auto-de-Fé, do Elias Canetti. E creio que vou ficar impressionado por um bom tempo.

O búlgaro não é fácil. Seu único romance publicado fez com que merecesse o Nobel de Literatura de 1981. Fluente em espanhol, língua de seus ancestrais sefarditas, inglês (mudou-se para Manchester ainda menino) e alemão, transitou por vários gêneros. Parece que o cara estava disposto a esgotar toda forma de expressão, pois escrevia uma coisa definitiva e passava pra outra praia. Teatro, romance, relato de viagem (Vozes de Marrakesh), crítica literária (A Consciência das Palavras), autobiografia (Uma Luz em Meu Ouvido), ensaio (Massa e Poder, talvez sua obra mais conhecida).

Auto-de-Fé é assombroso pela ousadia estrutural, pela suprema originalidade dos personagens, pelo temerário mergulho na alma humana no que ela tem de mais mesquinho, invejoso, cruel. Lambendo as beiradas da loucura, os personagens agem de maneira que a artificialidade do intelecto embota o instinto. Um sinólogo alemão que vive no mundo dos livros, um anão que quer ser campeão de xadrez na América, uma mulher rude que almeja ficar rica, um renomado psiquiatra que tenta salvar o irmão da insanidade.

E não se trata apenas de criar tipos originais. A linguagem (o romance é de 1935!) mistura primeira com terceira pessoa, e a cada parágrafo temos que prestar atenção pra saber quem fala, o escritor ou o personagem. Olhando de longe, tinha tudo pra dar errado, pelo artificialismo da montagem. Na leitura, tudo ganha contornos de terrível realidade, quase epidérmica. Obra de gênio, leitura de marcar para sempre. Fuja, se você teme águas profundas!

2 Respostas para “Auto-de-fé”


  1. 1 Inês Correa Junho 17, 2009 às 2:13 pm

    Você foi lá me visitar e eu vim aqui te conhecer. E vejo que você está aí achando que tem pouca gente te visitando. Mas não pare de se trazer pra este ambiente que é seu blog. Continue escrevendo. Cada vez acho mais que é daqui de dentro da internet que vamos encontrar o autêntico mundo de cada um, sem censura, sem falso-moralismos. Eu virei aqui sempre que puder, ok? E vá lá me visitar. Adorei seu comentário, mesmo! Prazer te conhecer. Vamos trocando “figurinhas”.Abraço, Ines

  2. 2 Daniel Brazil Junho 17, 2009 às 2:51 pm

    Escrever é um prazer, Inês. Eu que andava meio sumido daqui. Você já está linkada, te visitarei mais vezes!

    Abraço!


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