Caninha Trepadeira

Faz tempo que não conto um causo aqui no Fósforo. E porque hoje é sábado, vou relembrar um da semana passada.

Estava em Atibaia, onde passei quatro dias num velho hotel-fazenda meio decadente, acompanhando um congresso de trabalhadores da saúde. No segundo dia, fui até o centro da cidade para sacar dinheiro. Depois de rodar umas cinco vezes o quarteirão do banco, não achei lugar pra estacionar. Ruas apertadas e cheias, típicas das cidades que não foram feitas para suportar a atual frota circulante. Como na maioria das cidades, aliás…

Tentei novamente no domingo, certo de que o centro estaria vazio. Só não contava com encontrar uma feira no meio da cidade. Parei o carro bem longe, atravessei a feira, saquei meus trocados. Na volta, não resisti e entrei no mercado municipal.

Adoro mercados. É onde tomo contato com a cultura local. Não observo apenas as comidas típicas, artesanatos e badulaques, mas também os costumes, os modos de conversar, de barganhar, de dar risadas. Seja Atibaia, São José do Egito, Manaus ou Montevidéu, visitar o mercado é de lei.

O de Atibaia é pequeno, mas simpático. Safra de morangos no início, pintando as bancas de frutas de vermelho. Muitos japoneses, presença forte na região. Lembrei de comprar uma cachaça local para o Paulo W, colecionador que costuma recepcionar as garrafas recebidas com generosos churrascos.

A única que encontrei não era de Atibaia, mas da vizinha Nazaré Paulista. O japonês-caipira que me vendeu disse que era forte, e que o fabricante era prefeito de Nazaré. Bem, um sujeito que fabrica uma caninha chamada Trepadeira deve ter muito voto, certamente.

Acabo de conferir na página da cidade, e o nome do atual alcaide não é o que está no rótulo. O japonês me enganou ou enganaram o japonês. Mas descobri que o prefeito estava perdendo a reeleição em 2008 e, com a contagem chegando ao fim, a oposição já comemorava no centro da cidade. Na última urna a votação virou, e ele ganhou por 2 votos. Dois! O pau comeu, claro, e a polícia teve de intervir.

Taí: uma cidade onde se faz uma caninha Trepadeira e eleição termina desse jeito merece ser visitada. Preciso conhecer Nazaré Paulista!

Caninha Trepadeira

Atualização, 12 horas depois: O japonês estava certo! O prefeito Nenê Pinheiro é mesmo o dono do alambique. É que ele assina a cachaça com o nome de batismo, por ser coisa séria. O apelido é para a política…

7 Respostas para “Caninha Trepadeira”


  1. 1 carlos assis Julho 5, 2009 às 11:09 am

    nomes de caninha são muito curiosos
    desde palavrões e frase de quarto sentido
    pequenas e médias cidades do interior paulista
    são ótimas para se viver e conhecer pessoas que não se preocupam com isto

  2. 2 paulow Julho 5, 2009 às 3:21 pm

    Essa Trepadeira vai ter lugar de honra nestas prateleiras depois deste post !!! E assim, com a generosidade dos amigos, esse amontoado de garrafas vai dominando minha casa….

  3. 3 akio Julho 6, 2009 às 11:24 am

    O prefeito deve ter distribuído a caninha trepadeira para os seus eleitores “sérios”..ehhh..
    Abraço
    Akio

  4. 4 Daniel Brazil Julho 6, 2009 às 1:23 pm

    E a tática deu certo, Akio! Ou será que ele quase perdeu por causa da marvada?

  5. 5 David Julho 9, 2009 às 12:52 pm

    Bom dia…

    Vi uma matéria do ano passado, que falava (acabava) com a cidade em que vivo, ficaria muito feliz em saber quem foi o autor da matéria e em que cidade ele mora!!!

    Muito Obrigado!!!

  6. 6 Bruno Ribeiro Julho 9, 2009 às 5:20 pm

    Grande Daniel! Adorável a história da cachaça e da eleição em Nazaré Paulista. Essa eu vou contar por aqui! Aproveitando a deixa, postei seu vídeo, do Memorial da Resistência, lá no meu buteco. Dá uma passada por lá, quando tiver um tempinho. Grande abraço!

  7. 7 Daniel Brazil Julho 9, 2009 às 10:33 pm

    Aqui não há matérias, David, só opiniões e comentários meus. Quase um papo de botequim, sabe?
    Já falei aqui de muitas cidades, pois viajo muito. Aliás, escrevo neste momento de Ponte Nova, MG, depois de rodar mais de 400 km.
    Nunca “acabei” com nenhuma sem destacar algum ponto positivo. Acho que a cidade da qual mais falo mal é São Paulo, onde moro :-)


Deixe uma resposta




Tags