
Dentre as várias cidades em que trabalhei, tenho um carinho especial por Santo André. Ali tenho vários amigos, e vivi a experiência maravilhosa de participar de um governo democrático (gestão Celso Daniel, 1989/1993), criativo, com coragem de experimentar. Fui coordenar o Núcleo de Vídeo a convite de Celso Frateschi, então secretário da Cultura.
Acompanhei de perto as atividades da Escola Livre de Teatro, um projeto que aprendi a admirar. Gravei espetáculos, eventos, mostras, festivais. Gravei até Kazuo Ono, em 1992! E fiquei chocado com a notícia que li semana passada, do ataque à ELT realizado pelo atual governo.
Passo a palavra aos envolvidos. Este espaço estará sempre aberto a eles, por tudo de bom que me proporcionaram.
“A ELT é uma escola, pública, cujo projeto artístico-pedagógico que se firmou como referência para a formação de atores no Brasil e que se aproxima agora dos seus 20 anos de enraizamento na cidade, teve seu coordenador, o ator Edgar Castro, sumariamente demitido.
Internacionalmente conhecida por seu projeto inovador desde sua fundação, em 1990, a ELT foi idealizada pela artista-pedagoga Maria Thaís Lima Santos, (hoje professora doutora da USP e diretora do TUSP), e coerentemente transformada pela experiência e pelos diversos mestres que passaram por ela tais como: Luis Alberto de Abreu, Antonio Araújo, Tiche Vianna, Francisco Medeiros, Cacá Carvalho, Renata Zhaneta, Cibele Forjaz, Cláudia Schapira, Denise Weinberg, Sergio de Carvalho.
Da palavra “Livre” – presente no nome da Escola – emerge um campo pedagógico próprio, que pressupõe o conceito de deliberação coletiva, derivado do contínuo diálogo entre mestres, aprendizes e funcionários (constituintes legítimos da comunidade ELT), num processo de não-hierarquização, radicalmente contrário a imposições.
Desde o final do ano passado, após a eleição do atual prefeito Dr. Aidan Ravin, a comunidade da Escola Livre de Teatro tem se reunido para conhecer o projeto cultural para a cidade de Santo André. Em 28 de novembro, organizou um ato público, o Encontro Cultural da Cidade, quando se esperava como convidado principal Dr. Aidan Ravin. O então futuro prefeito não compareceu, mas fez-se presente através de seus assessores e do vereador recém eleito Gilberto do Primavera, que firmou publicamente seu compromisso com a cultura da cidade e com a manutenção do projeto original da ELT.
No entanto, como primeira medida, designaram para escola uma nova coordenadora não pertencente ao quadro de mestres e desconhecedora do projeto em curso. Em assembléia geral da escola, em 3 de fevereiro de 2009, com a presença de toda comunidade ELT e da coordenadora, o atual Secretário de Cultura, sr. Edson Salvo Melo, não só reiterou a continuidade do projeto artístico-pedagógico como também acenou a reforma física do prédio da ELT, readequando o espaço para as atuais necessidades da escola.
Passados oito meses da nova gestão, de contínuas tentativas de diálogo entre a comunidade, o coordenador Edgar Castro (mestre da escola há 11 anos), foi sumariamente demitido – pelo diretor de cultura Sr. Pedro Botaro – no dia oito de setembro. Todos os aprendizes da ELT estão alarmados. A comunidade teatral tem demonstrado forte apoio à volta do Edgar.”
Diz um velho axioma dos políticos que “cultura não dá voto”. Mas alerta outro ditado, que circula em palcos, botecos, ateliês, escolas e estúdios: Pode não dar voto, mas tira…
Que a ELT volte a se orgulhar do L de seu nome!