
Além das ruínas gloriosas da epopéia grega, Siracusa carrega também as marcas do império romano. A poucos metros do anfiteatro grego está o estádio romano, local de festejos e cerimônias. Ao lado, a maior ara – altar de sacrifícios – da Antiguidade.

Há registro de ocasiões em que foram ali sacrificados 450 bois em homenagem a Zeus. Pensou que fosse sacrifício humano, Joãozinho? Procure por maia, inca, asteca, é outro capítulo da História. Romanos atiravam cristãos aos leões, no máximo. Ou no (Circus) Maximus.

Mais alguns passos e estamos diante de uma igreja cristã do século XI. Erigida sobre ruínas gregas (romanas?), guarda no retábulo vestígios de pinturas bizantinas.

Sob o chão, protegido por uma placa de vidro, a visão arrepiante de um cristão dos primeiros tempos. Pelo furo no crânio parece morte recente, calibre 38, mas eles juram que o moço tem mais de 1000 anos.

Aliás, as catacumbas de Siracusa são impressionantes. Um labirinto de canais subterrâneos, ligados a cisternas de captação e armazenamento de águas pluviais, construídas pelos helênicos, e aproveitadas pelos primeiros cristãos como refúgio, cemitério e até moradia. Consta que ali está enterrado o primeiro bispo cristão, que por sinal também ali viveu, escondido dos romanos.

Parece impossível? Pois basta entrar em um dos labirintos, (são três!) cuja entrada fica dentro da igreja de San Giovanni, para seguir obedientemente os guias, com medo de se perder. Não é permitido fotografar, por isso reproduzo aqui imagens do catálogo recebido na entrada.

Cada “casinha” dessas é uma tumba, ou seja, escavações na parede, como se fossem gavetas. As ruas são corredores, com cerca de três metros de altura. As “praças” são as cisternas, com aberturas externas para captação de água, por onde entra alguma claridade.

Rever a luz do dia é alentador, depois de um passeio subterrâneo de quarenta minutos. Mas o calor siciliano de 35 graus quase me fez voltar para a penumbra fresca e agradável das catacumbas. A mesma sensação que tive quando saí das cavernas do Vale do Ribeira, em São Paulo, pela primeira vez. Fazia tanto calor que acampamos e dormimos dentro de uma caverna, lá no fundão. Não por medo de ser devorado por leões, mas pelos mosquitos…

De alguma forma, revendo estes vestígios de civilização, fica a impressão de que os gregos construíram a mais bela e fantástica cidade em Siracusa. Os romanos baixaram o nível, e os bizantinos, os primeiros cristãos, mouros e hispânicos que por ali passaram foram destruindo, sujando, degradando, tornando a vida urbana cada vez mais estreita, mesquinha e desagradável.
Alguns amigos que já estiveram na Grécia afirmam que na Sicilia estão as mais belas cidades gregas da antiguidade. Selinunte, Agrigento, Siracusa… A terra de Arquimedes, infelizmente, submergiu perante o rio de Heráclito. Os escombros nos lembram, de forma incômoda, que já fomos melhores neste planeta.
Não sei se já fomos melhores, meu velho.
Receio que as ruínas, por mais imponentes, não escondem o fundo de barbárie sobre que assentam.
E nossa desgraça, meu profeta, é que até o futuro virou ruína…
Abraço arruinado
do Paschoa
É por aí meu desconforto, Paschoa. Minha fé epidérmica na humanidade vive em conflito com a impressão profunda e sombria de que estamos em declínio. Mas talvez eu tenha a pele maior que a alma, sei lá…