Estou há algumas semanas curtindo um novo livro de engarrafamento (cultivo o perigoso hábito de ler durante os congestionamentos paulistanos – não façam isso, crianças! -). O pluriforme livrinho de Airton Paschoa, Banho-maria (Nankin Editorial, 2009) oferece um cardápio de pequenas delícias proso-poéticas, às vezes micro-contos, às vezes epigramas, embebidos em partes desiguais de doçura e amargura, de riso e risco, de dor e odor. (ele gosta de aliterações, ecos e rimas toantes).
Páscoa (como os amigos o chamam) não é fruto da internet, como a moda e o parágrafo acima fazem supor. Já publicou romances, contos e artigos indefinidos, mas em papel, capa e prateleira. Não tem blog. Seus textos são curtos porque são. Nem mais, nem menos. Quaseprosa ou quaseverso, nunca quasímodo.
Banho-maria é um fascinante amontoado de palavras. Por menos homogênea que possa parecer sua escritura, basta ler para sentir que tem corpo, alma, estrutura e sentido. E sob a capa do sarcasmo, do poema-piada, do quase-cinismo, há pinceladas de lirismo desencantado e provocador, capaz de sínteses como esta:
BANHO-MARIA
O chiado não cessa. Mas basta controlar a pressão. Um suspiro e iria tudo pelos ares. Muito sábia a senhora minha avó. Viveu de chaleira na mão e um dia evaporou. Que Deus a tenha! que a chaleira está entre nós.

Não é um trecho, é tudo. E isso é tudo!
Impressionante. Tenho muito q aprender.
abç!
Gente que escreve coisas como essa não só vivem aprendendo, como também ensinando:
“Dizes como morres, e te direi…”
Não é fácil morrer dignamente nestes dias
carregados de pequenos
envenenamentos cotidianos
de desejo insano
de raiva corrosiva
dias sem nenhuma causa a defender…
(Neuzza Pinhero)
Daniel,
Você não está sozinho. Apesar de evitar engarrafamentos (quase sempre posso escolher meus horários e fujo de horários de pico)também tenho sempre um livro no banco da direita para eventualidades. Não só, máquina fotográfica também (as cenas da metrópole são irresistíveis). Mas também tenho sempre um livrinho em outros lugares inusitados (como todo leitor inveterado), como na cozinha (enquanto aguardo a fervura), na bolsa (para enfrentamento de filas, espera de atendimento médico – as revistas dos consultórios são horríveis e defasadas), enfim. O livro é sempre uma boa (e sempre arriscada) companhia. Quanto ao Paschoa, parabéns pelo olhar clínico de leitor exigente. Sou leitora dele também e tempos atrás, até escrevi uma resenha de um de seus livros (se não me engano, o primeiro).
abraços da leitora
dalila teles veras
Viu só, Paschoa? Você também tem leitores de respeito!
De respeito?! É porque não leram ainda a “Dárlin”…
Abraço amigo
do Paschoa