Em 1988, ano do centenário da Abolição, ganhei um prêmio da Ford Foundation para fazer um vídeo sobre “negritude”. Escolhi o tema do negro no mundo do trabalho, e fui à luta. Sindicalistas relutantes, esquerda branca racista (direita, então, nem se fala…), falta de registros históricos, pouca grana.
Mesmo assim, consegui entrevistar pessoas fundamentais, gente que faz parte da história deste país, heróis do meu panteão pessoal. Um deles é o professor Clóvis Moura, que abriu as portas de seu pequeno apartamento no bairro de Santa Cecilia para receber aqueles jovens malucos (um branco, um negro e um cor-de-burro-quando-foge). Adoentado, mas cheio de energia, conversou por duas horas conosco. Encerrei o vídeo com uma frase dele: “Nós, negros, precisamos ser a esquerda brasileira!”.
Outra frase, perdida no meio do vídeo (eram mais de 20 entrevistados…) me voltou à memória nesta semana: “Numa greve, num piquete, o negro é quem leva a primeira porrada.”
Clóvis Moura redarguia à afirmação de um sindicalista negro (hoje deputado federal), de que no sindicato “todos eram iguais”. Este vídeo, USP-2012, mostra o quanto o professor sabia das coisas.
Daniel,
Tive a honra de conhecer Clóvis Moura justamente por essa época (anos 80), na sede da União Brasileira de Escritores, na rua 24 de Maio, no centrão velho. Pouca gente sabe que, além de ensaísta, autor de livros que estudam o problema do negro na histórical social brasileira, como o já clássico “Rebeliões da Senzala”, Clóvis Moura foi também poeta, e bom poeta. Acabo de ir à prateleira e abrir algumas raridades de sua autoria como “espantalho na feira” (1961) seu primeiro livro de poemas publicado, “argila da memória” (1964) e “flauta de argila” (1993). O poeta piauiense que evoca sua cidade natal (Amarante) em muitos de seus poemas, também evocou a cidade que adotou,São Paulo, em outros. Deixo aqui um bonito verso dele (sim, ele sabia das coisas): “Oh, cidade sem soluços, / São Paulo que singra os ventos / das tragédias e dos sustos.” (excerto do poema “Sobolos Rios da Vida”, do “espantalho na feira”. Abraço grato por me fazer reler o Clóvis, que há muito repousava na prateleira.
dalila
E eu, que não conhecia o Clóvis Moura poeta? Obrigado mais uma vez, Dalila, por suas contribuições preciosas, que enriquecem muito este Fósforo!,
Legal. O melhor dos posts sobre esse episódio. Vou compartilhar.
Nossa.
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