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Citação e recitação

No meio de uma conversa em torno da polêmica travada entre Caetano Veloso e Paulo Vanzolini, acerca da canção Sampa, surgiu um comentário meio depreciativo, dizendo que o baiano é o cara que mais copia na música popular brasileira.

Como sabemos, Caetano cita um verso e uma frase melódica de Ronda: ”Cena de sangue num bar da Avenida São João” vira “Só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João”.  Vanzolini odiou, resmungou que era um plágio, Caetano argumentou que era uma homenagem a duas coisas que ele identificava como essencialmente paulistanas: a famosa esquina e a canção Ronda. Na verdade, o paulista já declarou em entrevistas que não gosta desta música, considera obra de juventude, melodramática em excesso. Talvez preferisse ser lembrado por outras cancões…

A lei caracteriza o plágio pelo número de compassos idênticos, mas existem inúmeras citações, homenagens, referências, ecos de outras canções dentro das canções de nossos maiores compositores. Villa-Lobos adorava trabalhar em cima de temas populares, cirandas, cantigas de ninar. Tom Jobim foi acusado de vários “plágios”, inclusive em Chega de Saudade.

Caetano, nas suas primeiras composições, já citava sambas de roda do Recôncavo baiano: “É de manhã, vou buscar minha fulô” (É de Manhã). E fez isso a vida inteira, misturando alta poesia (Navegar é preciso…) com versos anônimos do povo. Procedimento coerente com a estética desenvolvida pelos tropicalistas, cevada por grandes poetas como Ezra Pound, que influenciou toda a arte moderna. A grande poesia é feita de referências, escreveu ele. Porque a grande música não seria?

“Tropeçavas nos livros, desastrada”, escreve Caetano, lembrando um dos mais famosos versos de nosso cancioneiro: Tu pisavas nos astros, distraída, de Orestes Barbosa. As consonâncias e ressonâncias do novo verso criam rimas internas em nossa memória, e ficamos a ruminar sílabas e aliterações. Tropeçando nesta floresta de citações que é a MPB, por vezes nos sentimos desnorteados ao ouvir um verso conhecido ou uma seqüência de notas que, como o sabor das madeleines proustianas, nos remete a outras canções, filhas e netas de remotas chiquitas bacanas.

Numa canção do Milton Nascimento emerge uma frase musical idêntica à de uma peça renascentista anônima. Intencional ou não? Terá o mineiro ouvido em alguma igreja barroca, na infância, e ali ficou adormecida por muitos anos até aflorar numa canção brasileira, sem que ele percebesse?

Chico parte de canções populares para criar suas Terezinhas, Maninhas e outras preciosidades. Claro, tem muita gente que prefere implicar com o Caetano, não com o Chico. E quando este cita a quadrilha do Drummond, como é que fica? Fica lindo, claro! Carlos amava Dora que amava Pedro… Não é à toa que o primeiro nome citado é o do poeta. Vinicius revive pontos de candomblé e chama Baden pra roda, e este convoca o garoto Paulo César Pinheiro pra lembrar o Besouro Cordão de Ouro, zum-zum-zum, zum-zum-zum, capoeira cita um!

Luiz Gonzaga deixou o rastro das alpercatas na música de muita gente. Dos reverentes nordestinos, como Alceu, Fagner ou Chico César, até um paulista como Miguel Wisnick, que cria um Assum Branco surpreendente no  CD Pérolas aos Poucos. Aliás, o trocadilho também pode entendido como citação, neste caso recriação de uma expressão popular.

Para o bem e para o mal, estamos condenados a ouvir cada vez mais repetições e citações nas canções que ouvimos. Multiplicação de repertório, acúmulo de informação, vivência de ouvinte. Saber distinguir cópia de homenagem, plágio de recriação, é um exercício de sensibilidade e cultura musical. E isso vale tanto para o compositor quanto para o ouvinte.

(Este artigo foi publicado na Officina do Pensamento, revista virtual da poeta Ana Peluso, em 2004. Estava esquecido, até que o assunto retornou no último fim de semana, num almoço com amigos. O eterno retorno de certos assuntos…).

O banho-maria do Paschoa

Estou há algumas semanas curtindo um novo livro de engarrafamento (cultivo o perigoso hábito de ler durante os congestionamentos paulistanos – não façam isso, crianças! -). O pluriforme livrinho de Airton Paschoa, Banho-maria (Nankin Editorial, 2009) oferece um cardápio de pequenas delícias proso-poéticas, às vezes micro-contos, às vezes epigramas, embebidos em partes desiguais de doçura e amargura, de riso e risco, de dor e odor. (ele gosta de aliterações,  ecos e rimas toantes).

Páscoa (como os amigos o chamam) não é fruto da internet, como a moda e o parágrafo acima fazem supor. Já publicou romances, contos e artigos indefinidos, mas em papel, capa e prateleira. Não tem blog. Seus textos são curtos porque são. Nem mais, nem menos. Quaseprosa ou quaseverso, nunca quasímodo.

Banho-maria é um fascinante amontoado de palavras. Por menos homogênea que possa parecer sua escritura, basta ler para sentir que tem corpo, alma, estrutura e sentido.  E sob a capa do sarcasmo, do poema-piada, do quase-cinismo, há pinceladas de lirismo desencantado e provocador, capaz de sínteses como esta:

BANHO-MARIA

O chiado não cessa. Mas basta controlar a pressão. Um suspiro e iria tudo pelos ares. Muito sábia a senhora minha avó. Viveu de chaleira na mão e um dia evaporou. Que Deus a tenha! que a chaleira está entre nós.

Capa-banho-maria

Não é um trecho, é tudo. E isso é tudo!

O design do Saci

As pessoas mais antenadas sabem que os sacis costumam aparecer em computadores. A informática se revelou um novo e surpreendente território para as traquinagens do pequeno unípede. O que some de arquivo, pasta, coisa que aparece fora de lugar ou que muda de nome, tem toda a pinta de ser arte de saci.

Observador, e eventual criador, de sacis, até já escrevi sobre eles, aqui no Fósforo. E, por honroso convite da Ethel Leon,  fui convidado a dar uns palpites sobre o insigne perneta na excelente revista de design Agitprop.

Mas, afinal, que diabos tem a ver o saci com o design? Vá lá e descubra.  E aproveite para ler ótimos artigos e ensaios sobre arquitetura e design, perto dos quais meu texto parece meio manquitola…

Jávium(saci)

Lembrando Quintana

Como seriam belas as estátuas equestres se constassem apenas dos cavalos! (Mário Quintana)

Le Cheval

Encontro com Tarzan

Sempre tive vontade de conhecer o Museu do Homem, em Paris.

Reservei o terceiro dia na cidade para ver de perto alguns dos tesouros  que conheço de cor, desde menino, através de livros e ilustrações. Vejam bem como era importante para mim: deixei o Louvre para outra viagem!

Imagine a minha decepção ao encontrar o museu fechado, em reformas. Vendo minha cara de tacho etnográfico, o porteiro gentilmente me sugeriu o Museu do Quai Branly, onde eu poderia ver parte da coleção.

Paris Branly 10

Trata-se de um dos museus mais modernos da França. Arquitetura sinuosa e orgânica, largas áreas de iluminação natural filtrada por plantas, painéis interativos, vídeos e sons gravados ao lado de cada coleção, com interfaces de fácil manuseio e fones de ouvido confortáveis. A exposição permanente abriga peças de culturas primitivas não-européias, com um belíssimo conjunto de instrumentos musicais e cerimoniais, vestuário, adereços, utensílios e esculturas.

Paris Branly 01

Paris Branly 02

No piso de exposições temporárias, encontrei nada menos que o Tarzan! Trechos de filmes históricos, desenhos originais de Hal Foster, Burne Hogarth e Russ Manning, análises antropológicas, psicológicas e estéticas sobre o Rei dos Macacos. E claro, Johnny Weissmuller e Maureen O’Hara…

Tarzan

A exposição proporciona uma boa discussão sobre colonialismo, racismo e eurocentrismo, e dialoga muito bem com o acervo permanente do Quai Branly. Basta passar de um piso a outro para ver que o criador, Edgar Rice Burroughs, não fez a mínima pesquisa para compor seu personagem. Aliás, ele nunca pisou na África…

Depois de algumas horas imerso num mundo quase mágico, voltar para as ruas quentes da cidade foi bem curioso. Cada africano que cruzava meu caminho – e há muitos em Paris! – me levavam a pensar nas coisas que tinha acabado de ver. E, sim, acabei passando no Louvre, mas para refrescar os pés no espelho dágua, de forma tribal, junto à Pirâmide…

Paris  86

(a seguir, Montmartre. Uh la lá!)

Intervalo literário

Comecei a ler o Leite Derramado, do Chico Buarque, antes desta última viagem. Terminei agora, e não resisto a fazer um comentário, antes que esqueça (sabe como é, a idade, disco rígido cheio…).

Chico escreve cada vez melhor, formalmente falando. Há trechos lindos, onde a poesia aflora. Mas o enredo nebuloso ainda é um problema. Creio que Budapeste é melhor resolvido, neste aspecto.

Não que histórias com começo-meio-e-fim sejam imprescindíveis, hoje em dia. Mas as lembranças de um velho centenário, ditadas num hospital, dão margem a facilidades literárias, como repetições, omissões, devaneios e elucubrações que não levam a lugar algum. Um truque meio besta, enfim.

Curioso é notar que o próprio Chico Buarque já havia criado, de forma esplêndida, este personagem. Na canção O Velho Francisco, gravada em 1989, um velho internado num asilo rememora, de maneira confusa (e poética) sua vida. O anônimo preto velho dos versos musicados muda de cor e se espicha em 195 páginas como o decadente Eulálio d’Assumpção, filho de senador, de família influente no Rio de Janeiro do século XX.

O primeiro diz: “Acho que fui deputado/ Acho que tudo acabou/ Quase que já não me lembro de nada/ Vida veio e me levou”.  O segundo repete, com outras palavras, o mesmo destino.

Na belíssima canção, que gosto de ouvir na voz de Renato Braz, o personagem diz que “hoje é dia de visita/ vem aí meu grande amor”. O livro abre com as seguinte palavras: “Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda de minha feliz infância, lá na raiz da serra”.  Uma origem rural comum liga os dois velhos. Ou melhor, revela que estamos na presença de um mesmo velho, doidinho e solitário: “Freqüentei palácio sem fazer feio/ vida veio e me levou”.

O Chico escritor não deveria disputar queda de braço com o Chico compositor. O criador genial cede lugar ao diluidor apenas competente.

A história de Elza

Elza

Não, não se trata daquela leoazinha que virou filme nos anos 60, cuja trilha sonora marcou época (Born Free). Esta Elza é brasileira, e sua história foi contada por Sérgio Rodrigues num romance magistral, que acabei de ler esta semana nas frias madrugadas de Atibaia, onde participei de um congresso.*

Sabe aqueles coquetéis coloridos, servidos em copo longo, em que cada fase é de uma cor? A realidade que Sérgio Rodrigues descreve é assim: Se olharmos por cima, vemos apenas um aspecto. Podemos até suspeitar que há algo embaixo, mas não conseguiremos enxergar. Visto do ângulo correto as camadas surgem distintas, harmônicas ou contrastantes.

A diferença é que, no obscuro caso (real) do assassinato de uma garota de presumidos 16 anos por ordem do PCB, em 1936, não é possível definir um ângulo que abarque todas as nuances. E o escritor dá leves mexidas no coquetel, suficientes para que a parte “ficcional” dissolva a linha fina que separa verdade e mentira.

Parece confuso? Pois é fascinante! No seu melhor livro, Sérgio Rodrigues arrisca na linguagem, cutuca um vespeiro político, distribui ironias pra todo lado e demonstra seu grande domínio do ofício.

A bibliografia registrada mostra que o assunto foi muito pesquisado, mas como bem aponta Zuenir Ventura na apresentação, as peças reais do quebra-cabeça surgem de forma orgânica, sem parecer citação de tese acadêmica. O exercício de linguagem é virtuoso, sem ser pedante. Rigoroso, sem deixar de ser envolvente. Investigativo, sem ser apenas uma reportagem. Romance moderno, cimentado por ótima ficção, com referências reais gentilmente indicadas pelo uso de itálico. Um pequeno grande livro, daqueles que nos fazem refletir sobre todas as nuances da estupidez humana.

*Este parágrafo inicial está aí para justificar a ausência de textos no Fósforo nos últimos dias.

Auto-de-fé

elias-canetti

Alguns amigos reclamam que ando escrevendo pouco ultimamente. É verdade. Poderia dar as desculpas habituais de trabalho, pouco tempo, falta de assunto. Serviriam. Mas uma leitura que me absorveu as últimas semanas é a responsável pela baixa freqüência de postagens no Fósforo.

Já comentei aqui que me impus uma meta, na virada do milênio, de ler um clássico por ano. Pois ontem li a última página de Auto-de-Fé, do Elias Canetti. E creio que vou ficar impressionado por um bom tempo.

O búlgaro não é fácil. Seu único romance publicado fez com que merecesse o Nobel de Literatura de 1981. Fluente em espanhol, língua de seus ancestrais sefarditas, inglês (mudou-se para Manchester ainda menino) e alemão, transitou por vários gêneros. Parece que o cara estava disposto a esgotar toda forma de expressão, pois escrevia uma coisa definitiva e passava pra outra praia. Teatro, romance, relato de viagem (Vozes de Marrakesh), crítica literária (A Consciência das Palavras), autobiografia (Uma Luz em Meu Ouvido), ensaio (Massa e Poder, talvez sua obra mais conhecida).

Auto-de-Fé é assombroso pela ousadia estrutural, pela suprema originalidade dos personagens, pelo temerário mergulho na alma humana no que ela tem de mais mesquinho, invejoso, cruel. Lambendo as beiradas da loucura, os personagens agem de maneira que a artificialidade do intelecto embota o instinto. Um sinólogo alemão que vive no mundo dos livros, um anão que quer ser campeão de xadrez na América, uma mulher rude que almeja ficar rica, um renomado psiquiatra que tenta salvar o irmão da insanidade.

E não se trata apenas de criar tipos originais. A linguagem (o romance é de 1935!) mistura primeira com terceira pessoa, e a cada parágrafo temos que prestar atenção pra saber quem fala, o escritor ou o personagem. Olhando de longe, tinha tudo pra dar errado, pelo artificialismo da montagem. Na leitura, tudo ganha contornos de terrível realidade, quase epidérmica. Obra de gênio, leitura de marcar para sempre. Fuja, se você teme águas profundas!

Sensualismo alimentar

Sopa Camões

A primeira vez que li Gilberto Freyre me encantei com o texto fluente, saboroso,  que subvertia a idéia de que ensaios sociológicos deveriam ser pesados, acadêmicos, destituídos de qualquer concessão ao prazer. Casa Grande & Senzala é cheio de descrições eróticas, engraçadas, musicais, apaixonadas. Freyre termina seu fabuloso ensaio falando de comida, e quase sentimos o cheiro das tapiocas, dos doces, das quitandas das pretas quituteiras, dos “mocotós, vatapás, mingaus, pamonhas, canjicas, acaçás, abarás, arroz-de-coco, feijão-de-coco, angus, pão-de-ló de arroz, pão-de-ló de milho, rolete de cana, queimados, isto é, rebuçados, etc.”

Toda vez que arrumo minhas prateleiras e sopeso o alentado volume (uma edição comemorativa dos 80 anos do autor, de 1980, com poemas de Drummond, Bandeira e João Cabral, desenhos de Santa Rosa, Cícero Dias e Poty), releio alguns trechos, fruindo o delicioso estilo do pernambucano.

Ontem ganhei um inusitado presente, que me remeteu a Freyre: um opúsculo editado em 1952 pelo Ministério da Educação e Saúde do Brasil. O título: “O Sensualismo Alimentar em Portugal e no Brasil”. O autor, Dante Costa.

Confesso que nunca tinha ouvido falar do cara. Uma consulta à Estante Virtual mostra que escreveu outros títulos relacionados à alimentação, além de livros de viagem e até um  “O Socialismo”.

A tese de Costa é a de que os portugueses têm uma relação de amor com a comida, e os brasileiros, desdém. Lá pelas tantas cita Freyre, claro, mas seu método de pesquisa é baseado na literatura, não em andanças pelos tabuleiros das baianas. Começa por Camões, de onde pinça versos do canto IX dos Lusíadas:

Mil árvores estão ao céu subindo
Como pomos odoríferos e belos:
A laranjeira tem no fruto lindo
A cor que tinha Daphne nos cabelos.
Encontra-se no chão, que está caindo,
A cidreira c’os pesos amarelos;
Os formosos limões, ali cheirando
Estão virgíneas tetas imitando.”

E Camões também fala de “amoras, que o nome tem de amores” entre outras saliências, que mostram a forte relação dos portugueses com a comida desde os primórdios da língua. Nosso Dante cita Fialho D’Almeida, Eça de Queiroz (“o caráter de uma raça pode ser deduzido simplesmente do seu método de assar a carne”) e Ramalho Ortigão (“torrentes de ovos de fio brotam de rochedos de nogada, cobertos de chalets de massa, sobre tanques de torrão de Alicante, em que se abeberam pombas de rebuçado e boizinhos de pão-de-ló com chavelhas de açúcar e entranhas de creme.”).

Para ele, escritor brasileiro só fala de fome, não de comida. “A pobreza mutila-lhe muito da alegria. Com as outras, vai-se a alegria de comer”. Segundo Dante Costa, as descrições de jantares e acepipes ”são raras na literatura, porque são raras na vida mediana do povo.” Citando uma conferência de Joaquim Ribeiro, diz que “a fome, no Brasil, começou com a civilização”.

O livrinho foi publicado em 1952. Dante escreveria isso hoje? Se vivesse numa grande cidade brasileira, provavelmente não. Mas se passeasse pelo sertão mais árido, comprovaria a validade de sua tese. O que não significa que nos rincões mais desprovidos de Portugal a miséria alimentar também não exista. Afinal, Eça e seus colegas de ofício viviam na cidade, não nos campos.

Onde o sexo é só reprodução, não há sensualidade. Onde o ato de comer é somente uma questão de sobrevivência, não há como ser uma refinada fonte de prazer.

Entre os Muros da Escola

Entre os Muros da Escola

No último domingo consegui assistir, com certo atraso, o vencedor da Palma de Ouro de Cannes 2008. Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet, é realmente desconcertante.

Formalmente, consegue o feito de colocar uma câmera numa sala de aula de escola pública na periferia de Paris, apinhada de adolescentes entre 14 e 16 anos, e fazê-la parecer invisível. Os atores/ personagens são tão autênticos que nos fazem crer que estamos assistindo um documentário.

A coisa fica mais complexa quando sabemos que o professor/ ator (François Bégaudeau) é real, isto é, escreveu um livro sobre sua experiência em sala de aula, e foi convidado pelo diretor para interpretar a si próprio, recriando os conflitos que viveu (vive?).

Porém – e aí a diferença é enorme – não se trata de mais um filme do gênero professor-bonzinho-versus-juventude-transviada, que no final vira lição de vida, com direito a algumas lágrimas. O filme é cru, sem derramamentos, e mostra um professor tão angustiado e falível quanto seus alunos.

Pior: mostra o dilema universal da educação, hoje. Como ensinar literatura a jovens que mal pegam num livro, cuja informação vem de forma audiovisual, massificada e redutora? Como ensinar o futuro do pretérito a jovens que nunca ouviram alguém falar desse jeito, e que seriam ridicularizados se utilizassem esse tempo verbal? Como lidar com preconceitos, com limitações individuais, com excluídos da ordem econômica com pouquíssimas chances de ascensão social?

É comum ouvir, no Brasil, que nossa educação é um desastre, que o ensino público é um lixo, que as escolas da periferia são ninhos de delinqüentes. Sinto dizer, mas na França não é diferente. Ou melhor, no mundo não é diferente, com exceção de uma metafórica Suíça. Ou Suécia.

Dramaturgicamente, o filme foge do chavão. O personagem do qual se espera uma reviravolta de comportamento termina esvaziado. A chata com a qual antipatizamos desde o início continua chata até o final (mas é a única que declara ter lido um livro, a República de Platão). O professor humano, bonzinho e democrata perde as estribeiras e chama duas alunas de vagabundas. Os valentões da classe, machistas e grosseiros, tomam as dores das colegas, e quase escorraçam o professor. Valores toscos, como o espírito corporativo, se mostram mais determinantes que valores morais ou éticos.

Filme perturbador, capaz de abalar convicções e instaurar novos parâmetros de discussão. Sobre o que é cinema (área onde dou uns pitacos) ou o que é educação (da qual não manjo nada). E, por ser perturbador, excelente!

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