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Afinal, pra que perguntar pro Caetano?

Li a entrevista que Caetano deu ao Estadão, na última semana. Como de hábito, discute o capitalismo, o governo Lula, a indústria cultural, o desmatamento na Amazônia, o fim da história e a morte da bezerra.

Me divirto com o Caetano. Admiro sua inteligência musical, até mesmo a verve literária. Sei que a inspiração anda lhe faltando nos últimos tempos, como acontece com todos de sua geração. Também Chico, Milton ou Gil não têm criado grandes canções na última década. É normal o esgotamento, depois de brilharem por tanto tempo.

Mas, dentre os citados, Caetano é sempre o mais provocador, o que causa urticária na direita e na esquerda. Irrita os petistas por não ser petista. É visto com desconfiança pelos direitistas por nunca ter sido um deles. É acusado de ter feito pactos com ACM, mas a acusação parte de quem faz pactos com  Sarney.

O que me espanta é que ninguém perceba o papel da imprensa nesse mito construído, nesse Caetano supra-real, cujos contornos se confundem com o do poeta-compositor. O que se passa na cabeça dos editores e jornalistas quando vão entrevistar o cara? Mitificação ou malandragem? Sim, porque sabem que o velho leão não deixa pergunta sem resposta, por educação ou temperamento.

Querem levantar uma polêmica? Perguntem pro Caetano o que ele acha do xxxxxx (preencha como quiser: O papa, Lula, Getúlio Vargas, camisinha, Madonna, Cristina Kirchner, o ex-muro de Berlim, Obama, Levi Strauss…)

Não ocorre a ninguém fazer uma pergunta política ou comportamental a Jorge Benjor, Luiz Melodia, Francis Hime ou Guinga. Estes compositores – tão bons quanto Caetano – só devem falar de música, estão condenados a falar apenas disso. Talvez emitissem opiniões mais polêmicas que o baiano, mas quem se importa? A imprensa se acomoda e cutuca sempre o mesmo leão, porque o rugido é garantido.

O mais curioso é que vejo muito neguinho pontificar em boteco sobre qualquer assunto, mas não admitir que Caetano faça o mesmo. Eu, você e o taxista podemos falar de qualquer assunto, mas Caetano? Ah, não, isso é um absurdo! Ouvi literalmente de um amigo (argentino, por sinal): “Ele não pode falar sobre tudo!”

Ué, porque não? Eu posso, mesmo sabendo que falarei besteira sobre quase tudo. Você pode, ele pode, nós podemos. É proibido proibir, lembram? Não, não foi Caetano que disse isso. É uma célebre pixação dos muros de Paris, nas barricadas de 68.

Se as falas de Caetano são provocativas, ótimo. Se estão lá apenas pra vender jornal, péssimo. Sinal de que a capacidade dos jornalistas de distinguir quem realmente pode dar respostas relevantes anda abaixo da crítica. Estes energúmenos diplomados em generalidades parecem incapazes de fazer uma pergunta pertinente ao universo da criação lírica-musical do filho de dona Canô. Por exemplo:

- Você não acha uma regressão estética fazer roquinho de garagem como um adolescente retardado tardio, depois de ter criado tantas obras-primas de madura sensibilidade?

Aí veríamos o verdadeiro Caetano, falando com propriedade sobre o assunto que mais domina. Mas cadê jornalista pra isso, na imprensa brasileira?

Citação e recitação

No meio de uma conversa em torno da polêmica travada entre Caetano Veloso e Paulo Vanzolini, acerca da canção Sampa, surgiu um comentário meio depreciativo, dizendo que o baiano é o cara que mais copia na música popular brasileira.

Como sabemos, Caetano cita um verso e uma frase melódica de Ronda: ”Cena de sangue num bar da Avenida São João” vira “Só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João”.  Vanzolini odiou, resmungou que era um plágio, Caetano argumentou que era uma homenagem a duas coisas que ele identificava como essencialmente paulistanas: a famosa esquina e a canção Ronda. Na verdade, o paulista já declarou em entrevistas que não gosta desta música, considera obra de juventude, melodramática em excesso. Talvez preferisse ser lembrado por outras cancões…

A lei caracteriza o plágio pelo número de compassos idênticos, mas existem inúmeras citações, homenagens, referências, ecos de outras canções dentro das canções de nossos maiores compositores. Villa-Lobos adorava trabalhar em cima de temas populares, cirandas, cantigas de ninar. Tom Jobim foi acusado de vários “plágios”, inclusive em Chega de Saudade.

Caetano, nas suas primeiras composições, já citava sambas de roda do Recôncavo baiano: “É de manhã, vou buscar minha fulô” (É de Manhã). E fez isso a vida inteira, misturando alta poesia (Navegar é preciso…) com versos anônimos do povo. Procedimento coerente com a estética desenvolvida pelos tropicalistas, cevada por grandes poetas como Ezra Pound, que influenciou toda a arte moderna. A grande poesia é feita de referências, escreveu ele. Porque a grande música não seria?

“Tropeçavas nos livros, desastrada”, escreve Caetano, lembrando um dos mais famosos versos de nosso cancioneiro: Tu pisavas nos astros, distraída, de Orestes Barbosa. As consonâncias e ressonâncias do novo verso criam rimas internas em nossa memória, e ficamos a ruminar sílabas e aliterações. Tropeçando nesta floresta de citações que é a MPB, por vezes nos sentimos desnorteados ao ouvir um verso conhecido ou uma seqüência de notas que, como o sabor das madeleines proustianas, nos remete a outras canções, filhas e netas de remotas chiquitas bacanas.

Numa canção do Milton Nascimento emerge uma frase musical idêntica à de uma peça renascentista anônima. Intencional ou não? Terá o mineiro ouvido em alguma igreja barroca, na infância, e ali ficou adormecida por muitos anos até aflorar numa canção brasileira, sem que ele percebesse?

Chico parte de canções populares para criar suas Terezinhas, Maninhas e outras preciosidades. Claro, tem muita gente que prefere implicar com o Caetano, não com o Chico. E quando este cita a quadrilha do Drummond, como é que fica? Fica lindo, claro! Carlos amava Dora que amava Pedro… Não é à toa que o primeiro nome citado é o do poeta. Vinicius revive pontos de candomblé e chama Baden pra roda, e este convoca o garoto Paulo César Pinheiro pra lembrar o Besouro Cordão de Ouro, zum-zum-zum, zum-zum-zum, capoeira cita um!

Luiz Gonzaga deixou o rastro das alpercatas na música de muita gente. Dos reverentes nordestinos, como Alceu, Fagner ou Chico César, até um paulista como Miguel Wisnick, que cria um Assum Branco surpreendente no  CD Pérolas aos Poucos. Aliás, o trocadilho também pode entendido como citação, neste caso recriação de uma expressão popular.

Para o bem e para o mal, estamos condenados a ouvir cada vez mais repetições e citações nas canções que ouvimos. Multiplicação de repertório, acúmulo de informação, vivência de ouvinte. Saber distinguir cópia de homenagem, plágio de recriação, é um exercício de sensibilidade e cultura musical. E isso vale tanto para o compositor quanto para o ouvinte.

(Este artigo foi publicado na Officina do Pensamento, revista virtual da poeta Ana Peluso, em 2004. Estava esquecido, até que o assunto retornou no último fim de semana, num almoço com amigos. O eterno retorno de certos assuntos…).

Eu, judeu, cristão e palestino

Provavelmente por causa de meu nome e pela cara de semita, herança ibérica, muita gente já achou que eu fosse judeu. Para o bem e para o mal. Fui ameaçado, certa vez, dentro da USP, por um fascistinha da Poli: “Ainda acabo com a tua raça, não vai sobrar um da colônia!” Colônia? Demorou pra cair a ficha.

Mas também já fui confundido com  um árabe, mais de uma vez. Achei interessante. Nascido em família católica, filho de pai anarquista, e desconfiado de qualquer tipo de igreja, respeito e admiro o patrimônio cultural das grandes religiões, sem me envolver com nenhuma. Vou me emocionar do mesmo jeito no Muro das Lamentações, em Meca, num candomblé, às margens do Rio Ganges ou na Capela Sistina, se um dia puder conhecer todos. A aventura da humanidade me fascina, independente do deus do momento.

Mas comecei a escrever este post pra falar de música. E acredito, no meu humanismo rastaquera, que através da  arte podemos superar barreiras culturais, geográficas, políticas e – as mais difíceis – religiosas.

Pois bem. Imagine uma apresentação musical, onde um palestino e um israelense convocam um punhado de cristãos para, juntos, tocarem pela paz. Você não acredita? Bem, com toda minha falta de fé (?), eu acredito. Tá aqui o convite:

MúsicapelaPaz

Mulé rendeira

Como estou em fase latino-americana, não resisto em contar um causo relatado por meu velho amigo Vidotto, lá de Washington, DC.

Conversando com uma amiga americana sobre a música do continente, teve a surpresa de ouvir Juaneco e su Combo cantando Mujer Hilandera. Grande sucesso da música peruana nos anos 70/80, até hoje deixa alguns patriotas exaltados quando alguém diz que é um plágio da Mulé Rendeira  imortalizada no filme O Cangaceiro, de Lima Barreto,  premiado em Cannes em 1953.

O engraçado é assistir esta gravação de auditório, dos anos 80, e ler os comentários indignados dos hermanos andinos ofendidos com a acusação de que não é uma canção original. Tem um que afirma ter morado 4 anos no Nordeste e nunca ouviu Mulé Rendeira por aquelas bandas…

Bem, se ele passou por lá nos últimos 20 anos, é bem provável que não tenha mesmo ouvido. Nos quiosques nordestinos à beira mar só se ouve breganejo e tecnoforró, com algumas exceções pop. Esta trilha sonora faz parte da nossa riqueza/miséria cultural. É provável que a grande maioria dos jovens nordestinos não saiba mais cantar as estrofes de Mulé Rendeira. Rimos dos peruanos ou choramos juntos?

Traquitanas de Tonho Penhasco

Tonho Penhasco é um dos músicos mais versáteis e sábios que conheço. Tocou e gravou com meio mundo famoso, de Mauricio Pereira a Caetano Veloso, mas não se esquiva de tocar com o outro meio mundo anônimo. É um experimentador, meio filósofo, meio pop, que transita pelas rodas musicais mais finas de Sampa e adjacências.

Conhecido há muitos anos, acabei fazendo alguns trabalhos junto com ele. Gente finíssima. Um músico-construtor de traquitanas sonoras. Graças a ele, o mês de outubro vai ser mais interessante em São Paulo.

feitura

programação

Concerto de claviorgano

Na minha primeira noite em Erice, na Sicilia, fui convidado para um concerto de claviorgano. Um seleto grupo de físicos e amantes da música se reuniu na Chiesa di San Martino (fundada em 300 DC, reconstruída no século XII) para ouvir  peças de diversas épocas no fascinante instrumento.

Cúpula

Claviorgano 6

Nunca ouviu falar em claviorgano? Não se preocupe, eu também não fazia a mínima idéia da existência de tal geringonça até aquele momento. Sei o que é clavicórdio,  cravo,  espineta, virginal. Até mesmo escaleta, ou pianola de boca. Mas claviorgano?

O nome é exato: uma mistura de cravo com órgão.

Claviorgano 4

Claviorgano 3

Claviorgano 1

Um circunspecto claviorganista espanhol demonstrou a sonoridade mágica do instrumento, desfiando um repertório ítalo-ibérico de vários séculos. Depois de passar o dia vendo castelos, muros de pedra, ameias e vicolos cheios de sombras e mistérios, aquela era a trilha sonora ideal para ter sonhos medievais.

Felizmente Erice vive, não é um museu. Tem mais gente nas ruas à noite que durante o dia. Terminado o concerto, saímos de um cenário místico para penetrar em outro, mais mundano, mais quente, não menos fascinante. A primeira e inesquecível noite em Erice mereceu um Catarrato (Não se espante, é apenas o nome de uma uva e de um dos  mais tradicionais vinhos sicilianos!).

Erice noite

(a seguir, o Mar Tirreno).

Desde que seja Um Que Tenha!

E, para sorte de todos os amantes da música brasileira, o Um Que Tenha está de volta!

O maior acervo virtual da rede está novamente acessível, depois de resistir a pressões corporativas (& interesses comerciais) para que deixasse de divulgar a nossa música.

O acesso aos bens culturais é (ou deveria ser) direito garantido pela Constituição. E poucos bens nos fazem tão bem quanto a música brasileira. Um abraço, Fulano!

A música das ruas de Paris

Porque hoje é sábado, e amanhã é dia de concerto (no Sesc Pinheiros, com o mano Marcelo Brazil e sua partner Rosa Barros), adiei o Museu Orsay para o próximo post. Em Paris, allegro ma non troppo,  ouvi música em Montmartre, numa estação de metrô, numa ponte sobre o Sena…

Músicos

Sax no metrô cópia

Sax  na ponte

Mal comecei a escrever este post, começou a tocar no rádio a fantástica suite composta por Almeida Prado para o filme mudo Études sur Paris (1928), de André Sauvage.  Sincronicidades…

PS noturno, 4 horas depois: Fui assistir A Partida, belo filme japonês vencedor do Oscar de Melhor Estrangeiro este ano. Tem pequenos escorregões estilísticos (alguns chavões clássicos), senão seria perfeito. Nota 9. O que mais me tocou foi o papel fundamental que a música tem no filme, dentro e fora da história. Por isso ele fecha este sábado em que a música expressou mais que as palavras.

A Partida

Culinária musical

heitor-dos-prazeres

(Há algumas semanas escrevi um artigo com este nome, na Revista Música Brasileira. Algumas pessoas não lembraram das músicas citadas, outras me pediram a letra. Aproveitando o feriado frio e chuvoso,  republico. Antes que me chamem de preguiçoso, lembro que deu um trabalhão achar estes links. E ainda vão faltar alguns, porque quem quer tudo mastigadinho, vá comer mingau!)

O assunto surgiu em torno de uma peixada regada a samba, e acabou tomando conta da noite. Quando a música popular começou a falar de comida? Ou melhor, quando a comida virou tema na música popular brasileira?

Perguntinha difícil de responder. O samba nasceu dum batuque na cozinha, e o couro comia solto antes e depois do regabofe. Todos lembram de alguma referência, de alguma melodia temperada, de algum samba-receita.

Samba-receita é um gênero? Não chega a tanto, mas gerou obras primorosas de craques como Dorival Caymmi (Vatapá) e Chico Buarque (Feijoada Completa). Poucos compositores chegaram a detalhes técnicos tão explícitos quantos estes dois apreciadores de um bom prato.

Feijoada, aliás, é um clássico. Que o diga Paulinho da Viola, que provou do famoso feijão da Vicentina, no Pagode do Vavá. O grande Braguinha transmitiu a várias gerações a receita de feijoada do casamento da Baratinha, onde acabou sucumbindo o Doutor João Ratão: “Feijão, carne-seca, lingüiça mineira, orelha de porco pra dar e vender! Toucinho fresquinho, toucinho gostoso, toucinho cheiroso pra gente comer!”

Mas nem só de feijoada vive o brasileiro. O cardápio é extenso no cancioneiro pátrio. Carmen Miranda, acusada de ter voltado americanizada em 1940, se defendeu cantando que “na hora da comida, eu sou do camarão ensopadinho com chuchu”.

Carmem só confirma que frutos do mar sempre estiveram na comissão de frente da mesa brasileira. Pudera, com tanta praia, tanto peixe e tanto compositor, o negócio tinha de dar samba. Candeia mostra, em Peixeiro Granfino, que “salsa, pimenta de cheiro, faz bom tempero, azeite de dendê”. Aldir Blanc (com João Bosco) conta toda uma saga em busca de um siri recheado.

A moqueca, baiana ou capixaba (ou seja, com ou sem dendê) , foi cantada de diversas maneiras. Uma das receitas mais acabadas foi cantada por Herlon. Minas Gerais não tem mar, mas o mineiro Milton Nascimento sabe que “peixe bom dá no riacho”.  Sá e Guarabyra louvaram o Pirão de Peixe com Pimenta das margens do São Francisco, acompanhado de uma boa januária. Milton também exalta as especiarias em Cravo e Canela. Ê, morena, quem temperou?

Aliás, os doces marcam presença no repertório. Do doce de coco de Jacob do Bandolim ao alfenim de Delcio Carvalho, passando pela goiabada cascão de Wilson Moreira e Nei Lopes, tem muito doce cantado por aí. Ary Barroso elogiou os quindins de Iaiá, cozinheira tão famosa que Nei Lopes fez questão de homenagear o seu tempero. Tim Maia, como sabemos, só queria chocolate…

O tradicional churrasco, outra preferência nacional, está em tantas letras de música, principalmente sertanejas e regionais, que dá até enjôo. Entre os gaúchos, a combinação é quase obrigatória. Aliás, os caipiras de verdade sempre fizeram questão de exaltar os pratos da terra, como o Leitão à Pururuca de Lourenço e Lourival, que também prepararam um Franguinho na Panela, cantado por Tião Carreiro e Pardinho. Palmeira e Mario Zan cantaram a saudade do Arroz a Carreteiro. O grande Luiz Gonzaga, além de enumerar as delícias de Feira de Caruaru e mostrar como se faz um Baião de Dois, lembrou até da comida paraense em Tacacá.

O trivial variado está presente em todas as mesas. Martinho da Vila elogia a Comida da Filó (Vai ter bife de panela com polenta e aipim/ Quero provar o jiló e a berinjela/ Tô sem pressa, sou assim). Adoniran Barbosa e  Carlinhos Vergueiro não esqueceram da proletária marmita, que traz um Torresmo à Milanesa como “sustança”. Aliás, lá nos anos 70, Maria Creuza já cantava o Feijãozinho com Torresmo, do Walter Queiroz, com grande sucesso. Zeca Pagodinho diz que não conhece Caviar, e é mais “ovo frito, farofa e torresmo”. Cartola já reclamava que não é possível “Cozinhar sem banha, sem cebola e alho, sem vinagre e cheiro”.

Pratos menos corriqueiros foram cantados por Geraldo Pereira (Cabritada Mal Sucedida), João do Vale (Peba na Pimenta – peba é tatu, prato proibido pelo Ibama mas apreciado em todo o Brasil) e o grupo satírico Língua de Trapo, que sugere, numa cantina italiana, “filé a parmegiana com catuaba, arroz e pão”, acompanhado de ovos de codorna e sobremesa de tutano. (Tragédia Afrodisíaca). Nem a Concheta enfrentaria um cardápio desses!

Melhor ficar na Comida Mineira, de Toninho Geraes e Paulinho Rezende, um bufê completo de delícias bem brasileiras.  O bom garfo Nei Lopes, pra testar a nova cremalheira, anunciou para os amigos “carne de terceira’ e “tartaruga em fatia” (Festa da Dentadura). Aliás, o quelônio faz parte no cardápio cantado por Walter Alfaiate, no Prato do Dia (de Felipão do Quilombo): “Camarão frito na manteiga/ e tartaruga em fatia”. Nei lembra também da moqueca de fato que Idalina preparou, que mais parece um sarapatel.

Pensa que é só? Celso Viáfora e Vicente Barreto cantaram o pastel de feira, Inezita homenageou o bolinho de fubá, Rita Ribeiro fez sucesso com a cocada maranhense de Antonio Vieira, e o grande João Pacífico  imortalizou o doce de sidra paulista.

Quem mergulhou fundo no tema foi a dupla mineira  Célia & Celma. Além de escrever um livro com cheiro de fogão a lenha (A Cozinha Caipira de Célia e Celma), lançaram um CD com receitas musicadas, em vários ritmos. Vaca Atolada, Tutu de Feijão, Canjiquinha com Costelinha, Pé de Moleque…. Sim, são nomes de músicas, vale a pena conferir! Tem xote, samba, moda de viola, xaxado e até tarantela (Bolinho de Macarrão).

A dupla de artistas mineiras tem uma contrapartida maranhense: os músicos-gourmets Wellington Reis e José Ignácio, que lançaram um CD com receitas cantadas da culinária maranhense. Traz músicas-receita como Peixe ao Escabeche na Costa da Mão, Cuxá Orquestrado, Peixe Frito no Samba, Sururu Chorado no Leite de Coco, Caruru Mina-Jeje,  e Divino Doce de Calda Cacuriado no Crioula, entre outras. De dar água na boca!

Até nas capas dos discos, no tempo em que o formato LP dava espaço para a criatividade, a comida esteve presente. Quem não se lembra do disco de estréia de Luiz Melodia, cercado de feijão preto? Ou dos Secos e Molhados servidos à mesa? Ou o Banquete dos Mendigos, com Macalé recebendo os amigos para a santa ceia? Macalé, aliás, se apresentou num festival comendo rosas enquanto cantava.

Tia Ciata, cozinheira de mão cheia e primeira-madrinha do samba, inaugurou a mistura. De lá pra cá, o cardápio só ficou mais rico e substancioso. Paulo César Pinheiro, em parceria com Joyce, já havia decretado que “no samba tem que estar de olho/ É preciso dosar tempero e molho” (Receita de Samba ). Afinal, como bem disse Vinicius, para viver um grande amor é importante conhecer a harmonia das panelas:

“E o que há de melhor que ir pra cozinha
E preparar com amor uma galinha
Com uma rica e gostosa farofinha
Para o seu grande amor?”

Cat Stevens/ Yusuf Islam

Cat Stevens

Meu amigo Helion Póvoa, do Rio de Janeiro, me enviou uma interessante série de links sobre Cat Stevens. Quem?, perguntarão os mais novos.

Cat Stevens, nascido em 1948, surgiu no final dos anos 60 como uma das mais originais vozes do folk-rock britânico. Filho de grego com sueca, compôs canções confessionais, onde muitas vezes transpareceu o desconforto de se sentir semi-estrangeiro, diferente e inquieto. Emplacou sucessos como Morning Has Broken, Wild World, Moonshadow, Peace Train, Lady D’Arbanville, Oh Very Young  e Father and Son, que tocaram bem até em rádios brasileiras. Seu estilo musical tem pontos em comum com artistas como Paul Simon, James Taylor, Donovan ou Van Morrison.

Em 1977 Stevens se converteu ao islamismo. Um choque para o mundo artístico ocidental. Se afastou (e foi afastado) da mídia,  virando uma espécie de lenda. Provavelmente só Cassius Clay causou impacto maior quando anunciou ao mundo que se tornara Muhammad Ali.

Ficou 28 anos sem gravar, dedicando-se à família e a causas humanitárias, como o amparo aos órfãos atingidos pelo conflito entre palestinos e israelenses. Enfim, a vida de Yusuf Islam, ex-Cat Stevens, dará certamente um belo filme. E ele voltou a cantar, gravando um novo disco em 2006 (An Other Cup).

A viagem que Helion me propôs é a seguinte: Primeiro, assista um videoclip do início dos anos 70, com a música Father and Son.

Em seguida, num concerto de 1979, após a conversão, quando ainda não havia interrompido a carreira.

Num salto de quase 30 anos, vemos novamente o cantor se apresentando em Londres, em 2007, após longo período de afastamento.

Em seguida, um videoclipe recente, “A is for Allah”, de nítido perfil religioso.

Por fim, uma boa entrevista (em inglês), onde comenta sua trajetória, antes e depois da conversão. É longa, mas vale também por incluir duas versões de “Peace Train”, antes e depois.

Se tiver meia hora disponível, assista tudo. É uma boa ocasião para tentar entender a alma de um artista, sua transformação espiritual, o conflito Ocidente X Oriente, o estranhamento que o “outro lado” provoca em nós.

Se você não está interessado em nada disso, mas quer ouvir lindas canções, também valerá a pena!

Yusuf Islam

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