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Granita em Siracusa

Barcos Ortigia

Passamos quatro dias maravilhosos em Siracusa, a mais incrível cidade da Sicilia, em julho deste ano. Cheia de tesouros históricos, cercada pelo azul profundo e coalhada de bares, restaurantes e sorveterias. Ficamos hospedados em Ortigia, a ilha dos sonhos de qualquer boêmio, e também um sítio histórico fundamental. Tomar um gelato à meia noite na Piazza Duomo é inesquecível, nas noites quentes de verão. O de limone é, naturalmente, siciliano, com um aroma e sabor incomparáveis. No Brasil são feitos de limão galego, quando não de Tang sabor limão…

Aliás, o calor foi tanto que adotamos um curioso hábito local. De manhã cedo fomos até o bar mais próximo e pedimos uma granita, espécie de raspadinha típica, gelada. A granita de café é perfeita para acompanhar um croissant.

Granita de café

Não há muita variedade de frutas, mas em Ortigia tem uma feira de rua diária, com pêssegos, peras, maçãs, melões e até bananas. Espantosa mesmo é a quantidade de frutos do mar. Muitos peixes, barracas especializadas em mariscos, outras em polvos e calamares.

Mariscos

Lulas na feira

Aliás, na primeira noite comi o melhor pulpo de minha vida, servido inteiro, macio como manteiga quente, na simpática cantina Mastra Nostra.

Pulpo

Entusiasmado, no dia seguinte pedi uns calamari no almoço, em outro local, perto da mítica Fonte de Aretusa. Depois de meia hora, o cozinheiro em pessoa veio me servir, triunfante, uma travessa com camarões maiores que um Colt 45. Recusei polidamente, para espanto do homem (o prato era mais caro que uma escrava núbia de 17 anos no tempo de Arquimedes). Insisti que havia pedido “calamari”, não “gamberoni”. Dez minutos depois veio uma lula grelhada, meio crua, dura como as servidas habitualmente no Brasil. O cara fez de propósito, mas minha mãe me disse pra nunca discutir com um siciliano na casa dele, principalmente quando tem uma faca enorme na mão…

Brinde de água

Mas não pense que fui à Siracusa só pra comer e beber. No próximo post de viagem, um passeio pela maior cidade grega fora da Grécia!

Aretusa

Mulé rendeira

Como estou em fase latino-americana, não resisto em contar um causo relatado por meu velho amigo Vidotto, lá de Washington, DC.

Conversando com uma amiga americana sobre a música do continente, teve a surpresa de ouvir Juaneco e su Combo cantando Mujer Hilandera. Grande sucesso da música peruana nos anos 70/80, até hoje deixa alguns patriotas exaltados quando alguém diz que é um plágio da Mulé Rendeira  imortalizada no filme O Cangaceiro, de Lima Barreto,  premiado em Cannes em 1953.

O engraçado é assistir esta gravação de auditório, dos anos 80, e ler os comentários indignados dos hermanos andinos ofendidos com a acusação de que não é uma canção original. Tem um que afirma ter morado 4 anos no Nordeste e nunca ouviu Mulé Rendeira por aquelas bandas…

Bem, se ele passou por lá nos últimos 20 anos, é bem provável que não tenha mesmo ouvido. Nos quiosques nordestinos à beira mar só se ouve breganejo e tecnoforró, com algumas exceções pop. Esta trilha sonora faz parte da nossa riqueza/miséria cultural. É provável que a grande maioria dos jovens nordestinos não saiba mais cantar as estrofes de Mulé Rendeira. Rimos dos peruanos ou choramos juntos?

El Quijote se despede

Foi emocionante. Não há palavra mais precisa para definir, por mais gasta que esteja (para alguns). O ensaio geral de quinta (01/10), a apresentação na sexta no Sesc Pompéia e a apresentação final no Ventre de Lona, espaço do Pombas Urbanas em Cidade Tiradentes, foram de cortar os cabelos e arrepiar os corações.

Don Quijote, versão chilena

Don Quijote, versão chilena

Os dias de convivência com essa trupe inusitada, com mais de 80 atores, foram de encantamento e loucura (no sentido quixotesco da palavra). Não se tem notícia de uma montagem como esta, que envolva tanta gente de tantos países (veja o post anterior sobre El Quijote).

A diablada boliviana

A diablada boliviana

A última quixotada nossa foi decidida de supetão: “Vamos transmitir pela Internet!”. É possível? Não é? De Cidade Tiradentes para o mundo, ontem (03/10). Duas câmeras, uma mesinha de corte, três microfones pendurados nas gambiarras. E começaram a chegar mensagens: “Estamos assistindo, tá lindo!” De Portugal, da Argentina, de El Salvador…

O leão mexicano enfrenta o nobre cavaleiro

O leão mexicano enfrenta o nobre cavaleiro

Nós, Sanchos do vídeo, no papel de contar as aventuras e desventuras de tantos Quijotes, comemoramos junto com músicos, técnicos, atores e diretores. Beijos, abraços e lágrimas multiétnicas, multiculturais e bilíngues. Saímos com a impressão de que aquilo que nos une é muito maior que o que nos separa.

E a festa continua hoje, domingo, 04/10. Despedida de todos, com promessa de breve reencontro, em algum lugar da América Latina.

Parte do elenco, com o diretor César Badillo em primeiro plano.

Parte do elenco, com o diretor César Badillo em primeiro plano.

(As fotos de palco são do Gil Grossi, e a última do Diego Amoroso, companheiros nesta quixotada.)

Traquitanas de Tonho Penhasco

Tonho Penhasco é um dos músicos mais versáteis e sábios que conheço. Tocou e gravou com meio mundo famoso, de Mauricio Pereira a Caetano Veloso, mas não se esquiva de tocar com o outro meio mundo anônimo. É um experimentador, meio filósofo, meio pop, que transita pelas rodas musicais mais finas de Sampa e adjacências.

Conhecido há muitos anos, acabei fazendo alguns trabalhos junto com ele. Gente finíssima. Um músico-construtor de traquitanas sonoras. Graças a ele, o mês de outubro vai ser mais interessante em São Paulo.

feitura

programação

Hay que Hondurecer…

É curioso (e lamentável) ver como os três maiores jornais brasileiros  tratam a crise em Honduras. O Globo só se refere a Micheletti e seus capangas como “governo interino”. O Estadão adotou a fórmula “governo de facto”, tornando risível a reforma ortográfica. A seção de cartas, editorializada e filtrada como sempre, só publica a opinião de gente alinhada com a posição troglodita.

Nenhum dos dois jornalões usa a palavra golpe, e aproveitam a confusão para descer a lenha no governo Lula.

Resta a Folha de SP, que desta vez adotou uma linha coerente com a opinião democrática mundial. Chama de “golpistas” em manchete e coloca algumas opiniões jurídicas independentes embasando o adjetivo. Uma no cravo, outra na ferradura. Ou será na ferrabranda?

El Quijote em São Paulo

Quijote

Imagine uma montagem teatral bilíngüe, realizada por pessoas que nunca atuaram juntas. Imagine um único texto dividido em várias partes e ensaiado por doze grupos teatrais, de dez países. Agora não gaste mais a sua imaginação com essa idéia maluca, porque ela é realidade.

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Saiba que estes grupos estão reunidos, ensaiando num galpão da periferia (Cidade Tiradentes) de São Paulo , e vão se apresentar no início de outubro, dentro do II Congresso de Cultura Iberoamericana, no Sesc Pompéia e no próprio galpão.

A peça é El Quijote, na versão do colombiano Santiago Garcia. Uma livre adaptação da saga do Cavaleiro da Triste Figura. Os grupos fazem parte da Red Latinoamericana de Teatro en Comunidad, e vieram de Cuba, Argentina, Bolívia, Chile, Guatemala, El Salvador, México, Peru, Colômbia e, claro, o Brasil.

Presenciei dois dias de ensaio, gravando e entrevistando Quijotes e Sanchos de várias nacionalidades. Continuarei atrapalhando os ensaios, até a apresentação. Cada grupo faz uma cena, de aproximadamente 10 minutos. Aí entram novos atores no palco e o bastão (ou a lança quixotesca) é passada para o grupo seguinte que dá continuidade à ação. Há até Quijotas e Sanchas!

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Cada país faz uma leitura particular de sua cena. Assim, a Guatemala põe Don Quixote enfrentando um imperador maia. O grupo carioca Entrei Por Uma Porta faz o nobre cair no samba. Na maioria das cenas, prevalece a imagem do cavaleiro meio sonhador, meio doido, apaixonado por uma improvável Dulcinéia. O escudeiro Sancho é a razão descalça, o humilde escudeiro, mas também se mete em encrencas por conta própria.

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Uma cena me tocou profundamente. A atriz cubana que faz o Quijote, depois de uma discussão com Sancho, pega um xale caído no chão e lembra de Dulcinéia. Dança com o xale pelo palco, até uma zona de penumbra. Ali tira rapidamente a armadura, o bigode e o cavanhaque falsos, enrola o xale na cintura e vira… Dulcinéia! Volta dançando com a armadura do cavaleiro, rodopia pelo palco, e retorna à sombra, onde novamente se traveste, e retorna dançando com o xale.

Sem uma palavra, só com música (ao vivo, também com músicos de diferentes nacionalidades), o pequeno milagre que é encantar o público com a fantasia se materializa. Nos ensaios, assistidos apenas pelos integrantes dos outros grupos (mais de 80 pessoas), todos se emocionam.

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Seria quixotesco tentar registrar em vídeo a beleza do espetáculo. Como sou mais Sancho Pança que Quijote, conversarei com os atores, os diretores e os anfitriões do grupo Pombas Urbanas, onde tudo está sendo ensaiado, pra poder contar a história de como isso foi realizado.

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E quem quiser saber mais, entre aqui. Mas, cuidado: Você vai ter uma vontade irresistível de assistir ou participar deste sonho!

Escola (não muito) Livre de Teatro

alerta

Dentre as várias cidades em que trabalhei, tenho um carinho especial por Santo André. Ali tenho vários amigos, e vivi a experiência maravilhosa de participar de um governo democrático (gestão Celso Daniel, 1989/1993), criativo, com coragem de experimentar. Fui coordenar o Núcleo de Vídeo a convite de Celso Frateschi, então secretário da Cultura.

Acompanhei de perto as atividades da Escola Livre de Teatro, um projeto que aprendi a admirar. Gravei espetáculos, eventos, mostras, festivais. Gravei até Kazuo Ono, em 1992! E fiquei chocado com a notícia que li semana passada, do ataque à ELT realizado pelo atual governo.

Passo a palavra aos envolvidos. Este espaço estará sempre aberto a eles, por tudo de bom que me proporcionaram.

“A ELT é uma escola, pública, cujo projeto artístico-pedagógico que se firmou como referência para a formação de atores no Brasil e que se aproxima agora dos seus 20 anos de enraizamento na cidade, teve seu coordenador, o ator Edgar Castro, sumariamente demitido.

Internacionalmente conhecida por seu projeto inovador desde sua fundação, em 1990, a ELT foi idealizada pela artista-pedagoga Maria Thaís Lima Santos, (hoje professora doutora da USP e diretora do TUSP), e coerentemente transformada pela experiência e pelos diversos mestres que passaram por ela tais como: Luis Alberto de Abreu, Antonio Araújo, Tiche Vianna, Francisco Medeiros, Cacá Carvalho, Renata Zhaneta, Cibele Forjaz, Cláudia Schapira, Denise Weinberg, Sergio de Carvalho.

Da palavra “Livre” – presente no nome da Escola – emerge um campo pedagógico próprio, que pressupõe o conceito de deliberação coletiva, derivado do contínuo diálogo entre mestres, aprendizes e funcionários (constituintes legítimos da comunidade ELT), num processo de não-hierarquização, radicalmente contrário a imposições.

Desde o final do ano passado, após a eleição do atual prefeito Dr. Aidan Ravin, a comunidade da Escola Livre de Teatro tem se reunido para conhecer o projeto cultural para a cidade de Santo André. Em 28 de novembro, organizou um ato público, o Encontro Cultural da Cidade, quando se esperava como convidado principal Dr. Aidan Ravin. O então futuro prefeito não compareceu, mas fez-se presente através de seus assessores e do vereador recém eleito Gilberto do Primavera, que firmou publicamente seu compromisso com a cultura da cidade e com a manutenção do projeto original da ELT.

No entanto, como primeira medida, designaram para escola uma nova coordenadora não pertencente ao quadro de mestres e desconhecedora do projeto em curso. Em assembléia geral da escola, em 3 de fevereiro de 2009, com a presença de toda comunidade ELT e da coordenadora, o atual Secretário de Cultura, sr. Edson Salvo Melo, não só reiterou a continuidade do projeto artístico-pedagógico como também acenou a reforma física do prédio da ELT, readequando o espaço para as atuais necessidades da escola.

Passados oito meses da nova gestão, de contínuas tentativas de diálogo entre a comunidade, o coordenador Edgar Castro (mestre da escola há 11 anos), foi sumariamente demitido – pelo diretor de cultura Sr. Pedro Botaro – no dia oito de setembro. Todos os aprendizes da ELT estão alarmados. A comunidade teatral tem demonstrado forte apoio à volta do Edgar.”

Diz um velho axioma dos políticos que “cultura não dá voto”. Mas alerta outro ditado, que circula em palcos, botecos, ateliês, escolas e estúdios: Pode não dar voto, mas tira…

Que a ELT volte a se orgulhar do L de seu nome!

Cruzando a Sicilia

Horizonte

Poderia ser qualquer mar. Ou talvez não, porque alguns são verdes, outros cinzentos, outros cor-de-garapa. Mas é o Mediterrâneo, entre Trapani e Palermo.

Cruzar a Sicília de carro (ou de ônibus) é deixar pra trás este horizonte azul e mergulhar na aridez ocre da ilha. Durante algumas horas só vemos isso, mas dá pra sentir a poesia rude que emana da terra de Pirandello. Oliveiras retorcidas, carneiros, algum trigo, feno, capim, terra batida…

Montanha

Limoeiros

Carneiros

Rolos de feno

Na etapa final, a silhueta do Etna se agiganta, com seus mais de 3 km de altura. É o vulcão mais alto da Europa, e está sempre envolto numa fumacinha branca. Dizem os sicilianos que se a fumacinha ficar preta, corra!

Etna

Do outro lado, o Mar Jônico. Ou melhor, Siracusa. A maior cidade da antiguidade, maior metrópole grega fora da Grécia e mais agitado pólo turístico da Sicília. Inesquecível!

Costão Ortigia

(Senta que lá vem história, mas num próximo post…)

O design do Saci

As pessoas mais antenadas sabem que os sacis costumam aparecer em computadores. A informática se revelou um novo e surpreendente território para as traquinagens do pequeno unípede. O que some de arquivo, pasta, coisa que aparece fora de lugar ou que muda de nome, tem toda a pinta de ser arte de saci.

Observador, e eventual criador, de sacis, até já escrevi sobre eles, aqui no Fósforo. E, por honroso convite da Ethel Leon,  fui convidado a dar uns palpites sobre o insigne perneta na excelente revista de design Agitprop.

Mas, afinal, que diabos tem a ver o saci com o design? Vá lá e descubra.  E aproveite para ler ótimos artigos e ensaios sobre arquitetura e design, perto dos quais meu texto parece meio manquitola…

Jávium(saci)

O mar Tirreno

Janela

Viver no alto, vendo o Mediterrâneo de longe. Esta era a vida dos habitantes de Erice, em priscas eras. Ir à praia dava um trabalhão.

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Imagine descer uma trilha dessas, dar um mergulho, e voltar com o maiô cheio de areia. Se é que se usava maiô na Idade Média…

Como sou um ser do século XXI, a coisa ficou um pouco mais fácil. Depois de dois dias vendo o Mediterrâneo de longe, programamos um mergulho numa das praias mais badaladas da Sicília: San Vito Lo Capo.

Tá, sei que vai rolar piadinha sobre um santo siciliano ter “capo” no nome, mas a praia é realmente agradável (no verão). Água transparente, temperatura “de banho”. O diferencial para as praias brasileiras é o cenário. O recorte vulcânico das falésias, com pouquíssima vegetação, é típicamente mediterrâneo.

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Na areia, a estrutura de uma praia “urbanizada”, estilo Guarujá. Ficamos até o anoitecer, olhando pro horizonte e tentando ver as girafas no Norte da África. Não vimos nada, nem depois de várias birras. Descobri depois que só existe girafa no Sul da África…

SanVitoLoCapo

Voltar a Erice ao cair da noite, mesmo com o maiô cheio de areia, é outra experiência visual deslumbrante. Coisa de ficar sonhando. Partimos na manhã seguinte para uma travessia até o outro lado da Sicilia, passando por Palermo. Mas Erice vai ficar aqui dentro, por muito tempo…

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(Próxima parada, Siracusa!)

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