Arquivo de dezembro \26\UTC 2007

Oscar Peterson

É curioso como todo ano, na véspera do Natal, morre gente que nunca tinha morrido antes. Agora foi a vez do lendário pianista Oscar Peterson.  Tive minha fase de ouvir muito jazz, nos anos 80, e sempre impliquei com o estilo do canadense. Preferia Bill Evans, Keith Jarret e, mais que tudo, Thelonius Monk.   

Oscar soava meio artificial, nas gravações. Até que fui assisti-lo, num concerto inesquecível em São Paulo. Pirei! O homem era um gigante (literalmente!), e parecia   brincar em seu Steinway especial, com uma oitava a mais que os pianos comuns. Tinha uma técnica espetacular, vertiginosa. Aquele tipo de artista que só compreendemos totalmente quando ouvimos ao vivo, onde a performance é parte da persona. Veja isso e acredite: naquela tarde de sol, no Ibirapuera, em 1998,  foi ainda melhor!

Picasso e Portinari

Picasso e Portinari

A notícia do roubo de um Picasso e um Portinari do acervo do MASP, na madrugada de 19/12/2007, me deixa perplexo.

Primeiro, porque conheço o museu desde criança, e já passeei o olhar várias vezes sobre estes quadros. Fazem parte de minha memória afetiva, desde que pela primeira vez fui a eles apresentado, pela mão de meu pai.

Segundo, porque não consigo imaginar o que um ladrão pode fazer com isto. Quem pagaria milhões por um quadro que não pode ser exibido? Algum colecionador maluco pagaria para tê-los dentro de um porão, para o resto da vida?  Ou se trata de um sequestro, pelo qual vão pedir resgate?

O Grito, obra emblemática de Edward Munch, roubada na Noruega em 2004, até hoje não reapareceu…

Cemitério de novos autores

Um autor novo publica um livro, três mil exemplares. Noite de lançamento com amigos e parentes, vende 60 autografados. O resto vai para as livrarias, certo? Ele percorre as vitrines na semana seguinte, ansioso, e nada. Pouco tempo depois, a editora lhe comunica que  a quase totalidade dos exemplares foi devolvida. Deu prejuízo. Para onde vão os livros encalhados?

 Anna V., que trabalhou numa grande editora,  faz uma radiografia precisa da relação conflituosa entre editores e livreiros. Em texto de agosto de 2007, que continua atualíssimo, revela detalhes desta briga do rochedo com o mar, onde o escritor entra de marisco. Veja aqui.

Isto não é uma foto

Janela

Semana passada saí da  Alpharrabio em estado de encantamento. Nas paredes, uma belíssima exposição de fotos montadas em painéis em tamanho grande com alta definição, de casarões, paredes rachadas, janelas e portas descascadas. Mas, olhando melhor, não são apenas fotos! Destacam-se, saltando da superfície, maçanetas enferrujadas, pregos, fechaduras, plantas escorrendo das frestas dos tijolos. Esta grade vermelha da foto acima é real, afixada sobre a foto de uma janela.

Simulacro, reinvenção da realidade, ilusionismo 3D, trompe l’oeil pós-moderno? Tudo isso, e mais que isso. Me parece que o artista, Milton Mota, além de admirável domínio técnico da fotografia,  colocou em questão uma série de conceitos caros ao século XX, abarcando Duchamp, Benjamin, Sontag e Deleuze num só gesto. E foi além da simples polêmica, criando obras realmente belas. Recomendo com entusiasmo uma visita à exposição, no simpático sebo/ livraria/espaço cultural de Santo André.

Melhores do ano

A APCA, Associação Paulista dos Críticos de Arte, votou na sua lista de melhores do ano. Na categoria Música Popular, o resultado é este:

Disco: Onde Brilhem os Olhos Seus/Fernanda Takai
Cantora: Roberta Sá
Cantor: Paulinho da Viola
Grupo: Orquestra Imperial
Revelação Feminina: Marina de La Riva
Revelação Masculina: Edu Krieger
Grupo Revelação: Fino Coletivo

Ainda não ouvi a estreante Marina. Os outros rodam ou rodaram bastante nos meus ouvidos, em 2007.

Curioso o desequilíbrio entre cantores e cantoras nesse país. Enquanto Paulinho reina soberano, graças ao último Acústico MTV, sem nenhuma jovem sombra a lhe fazer concorrência, a deliciosa Roberta Sá enfrentou fortes concorrentes, com vozes igualmente poderosas: Virgínia Rosa, Fabiana Cozza, Célia, Ione Papas, Rosa Passos, Tereza Cristina, Mônica Salmaso, Céu e até a surpreendente Fernanda Takai, que descobriu um jeitinho Nara Leão de cantar, miúdo e gostoso de ouvir. A minha revelação seria a crooner da Orquestra Imperial, Thalma de Freitas.

Edu Krieger, filho do compositor erudito Edino Krieger, optou pela música popular e mandou bem. Aliás, tem composições gravadas no disco da Roberta Sá e no da Maria Rita, que está um pontinho abaixo na lista das cantoras.

E o Fino Coletivo? Diferente, variado, ainda desigual, mas apresenta inovações sutis e criativas.

Voltarei a eles, em breve, aqui ou na Revista Música Brasileira.

Incompletos

Acabei de ler um dos livros mais provocantes do ano. Incompletos, de Albano Martins Ribeiro, lançado através do projeto alternativo-independente Os Viralata. Bem escrito, fluente, urbano e neurótico, não padece dos males mais comuns dos jovens escritores internáuticos: o giro em torno do próprio umbigo ou de personagens superficiais e esquemáticos.  Albano, também conhecido como Brancoleone, vai fundo em poucos parágrafos,  em contos curtos e afiados. A história mais longa, com 28 páginas, revela um personagem fascinante, misto de desencantado-com-a-vida com cínico profissional,  com fissuras emocionais aqui e ali, que disseca a mundanidade de um evento social ao mesmo tempo em que persegue uma lembrança feminina. Muito bom.

 O  único conto realmente incompleto tem um final sarcástico: “nesta vida a gente encontra umas mulheres que só servem mesmo para…”. Misógino? Não confunda autor com personagem, por favor!

O livro já está rodando por aqui, e indiquei para várias pessoas. Vale a pena conhecer o site dos Viralata, um projeto muito interessante de literatura que reúne autores novos e semi-desconhecidos. Albano, por sinal, é o editor e pai da idéia.

Surpresa de terça-feira

Como alguns sabem, trabalho em um programa de TV em S. Bernardo. A produtora e o estúdio ficam juntinho do Sindicato dos Metalúrgicos, onde almoço com frequência. Pois hoje, 11 de dezembro, uma terça feira, me dirigia para lá com um amigo quando sentimos um cheirinho de churrasco, vindo da casa em frente, onde funciona um escritório. Três ex-metalúrgicos e uma secretária grelhavam uma carne, sobra do último domingo. Ofereceram, recusamos. “Uma cachacinha?” Não, obrigado. “É de Salinas”. Nem assim.

De repente, o camarada levanta a garrafa e mostra uma Anísio Santiago pela metade. “Um colega trouxe no churrasco, não é ruim!” Perguntei se sabiam quanto custava aquilo, claro que não. Trezentos reais, afirmei. “Porra, então o cara não estava mentindo!”, responderam, admirados. O peão depositou a garrafa na mesa com o maior respeito.

Tomei uma Anísio Santiago para abrir o apetite, nesta terça, com a classe operária. Pour epáter le bourgeois! Ou le prolétaire, sei lá…