Arquivo para janeiro \31\-02:00 2008

Uma mulher e uma cadela

Mulher e cadela

  Comentei há alguns dias, no post “duas Mulheres”, o fato da colunista social da Folha de SP desprezar a presença de uma trabalhadora em uma fotografia. Hoje (31/01) a mesma coluna traz outra foto, que completa o sentido da primeira.

   Desta vez, a retratada está acompanhada por sua cadelinha. Adivinhou? Está lá, na legenda: “A estilista Fulana de Tal vai ao evento com sua cadela, Fulaninha de Tal”. Muito justo. Cachorro, afinal, também é gente. Já empregada…

Delícias da Língua

 

Partenomancia (s.f.)

1. Suposta arte de adivinhar se uma mulher era ou não virgem.

2. Suposta adivinhação pela observação das virgens.

Agora eu sei o que fazem aqueles velhinhos que passam o dia na porta do bar, olhando as garotas que saem da escola. Será que algum dia dominarei tal arte? E de que me servirá, afinal de contas?


Queremos tanto a Vanessa

 

Vanessa Redgrave

O que fizeram com Vanessa? Por muito tempo colecionamos seus filmes, e a amávamos tanto que editávamos as seqüências em que maus diretores a obrigavam a cenas constrangedoras. Poucas vezes fizemos isso, é lógico, pois Vanessa tem o dom de iluminar cada plano, de encher de significado o mínimo gesto.

A londrina Vanessa Redgrave nasceu no teatro, em 1937, filha de atores shakespearianos. Bela e rebelde, era a atriz inglesa preferida de Tenessee Willians. A rebeldia se transformou em radicalismo político. Foi militante do trotskista Partido Revolucionário dos Trabalhadores, e fundou nos anos 80 o Partido Marxista. Lutou contra o Código Penal, defendeu presos políticos, apoiou a causa palestina, criou inimigos na comunidade sionista, esteve impedida de atuar na Broadway, foi presa três vezes em atos pelo desarmamento nuclear. Em 1991 organizou um concerto em prol dos órfãos da Guerra do Golfo. Levou seu grupo de teatro (The Moving Theatre Company) a Sarajevo, na Bósnia e até representou Shakespeare no Brasil (Marco Antonio e Cleópatra, 1995).

Quem a viu no teatro reconhece que é magnífica. Para nós, a um Atlântico de distância dos palcos britânicos, fica a lembrança de tantas atuações marcantes no cinema. Várias vezes premiada na Europa, foi indicada 6 vezes ao Oscar, e levou um para casa por Julia, em 1978. O filme de Fred Zinnemann, baseado no livro de memórias Pentimento, da escritora Lillian Hellman, conta a história de uma militante anti-nazista na Alemanha de Hitler (Vanessa) e sua amizade com a americana de idéias socialistas interpretada por Jane Fonda.

Mas antes, muito antes, Vanessa já nos encantava pelas mãos de Antonioni (Blow Up), em 1966. E viveu Isadora Duncan e a rainha Mary Stuart nas telas. Foi uma cantora judia em Amarga Sinfonia de Auschwitz, virou homem em Jogo Perigoso, assassina no Expresso Oriente, seduziu Arthur e Lancelot como Guinevere, em Camelot.

Agora reencontramos Vanessa, sendo entrevistada num programa de televisão. É uma senhora de cabelos brancos e rosto de pergaminho, que tenta consertar os erros do passado recontando a sua história. O que fizeram com Vanessa?

Mas não é Vanessa, pois sua história magnífica não precisa ser consertada. Trata-se de Briony Tallis, a protagonista de Desejo e Reparação (Atonement/ 2007), que revela de forma brilhante o segredo da trama, num dos monólogos mais intensos do cinema contemporâneo. E as pessoas saem impactadas pela força da revelação e pela verdade daqueles olhos cor de amianto azulado. E é comentada nos bares, nos cafés, nos escritórios, nos sindicatos, nas escolas, nas camas dos casais.

“Realmente era difícil saber, apesar da publicidade, das filas intermináveis, dos cartazes e das críticas, que éramos tantos os que queríamos a Vanessa”.

Briony Tallis

 

 

 

 

Duas mulheres

Duas mulheres

Ao folhear a Folha de SP distraidamente, neste domingo (20/01), me deparei com esta foto, na coluna da Mônica Bergamo. A matéria era sobre um desfile de modas numa casa elegante, e as duas figuras contrastantes me chamaram a atenção.

Duas mulheres, talvez da mesma idade, de mundos diferentes. A postura, olímpica de uma, submissa de outra. Os penteados, a maquiagem, as roupas, tudo demonstra existir um oceano entre elas. Mas achei notável que estivessem juntas numa coluna dita ”social” de um jornalão de domingo.

A intenção da fotógrafa talvez tenha sido a de integrar dois mundos, mostrar quanto as  mulheres podem ter em comum. Provar que, não importa onde tenham nascido, respiram o mesmo ar, freqüentam o mesmo ambiente, têm desejos semelhantes.

Fui à legenda, claro. A verdade estava lá inscrita, pétrea: “Fulana de Tal, vestindo Fórum Tufi Duek, na casa do estilista.” Só.

Apenas uma dessas mulheres existe, para o jornal. A outra pode ser confundida com um vaso ou um animal doméstico. Seu sorriso é uma miragem, seu corpo é uma abstração escondida sob o uniforme masculinizado. Talvez cozinhe melhor, cure melhor, console melhor, faça amor ou cuide dos filhos melhor que sua vizinha, mas isso não conta. Não merece ter o nome divulgado.

Aliás, não é gente. Não pode ter nome.

Reparação no cinema

 Reparação, de Ian McEwan, deve ficar como um dos mais bem sucedidos romances deste início de século, podendo ser colocado dignamente na prateleira dos grandes do século anterior. Até defensores do romance “moderninho”, desconstrutivista, sem compromisso com enredo e essas tolices de começo-meio-e-fim, hesitam em criticar o magistral drama de consciência criado pelo escritor inglês.

Pois o livro virou filme (Desejo e Reparação). Mais que isso. Uma superprodução cinematográfica, com recriações de época impecáveis e cenas impressionantes de guerra. Um elenco muito bem escolhido, bem próximo daquilo que os leitores imaginaram lendo o livro (segundo várias opiniões, com as quais concordo).

O diretor Joe Wright já havia arriscado uma adaptação ambiciosa, Orgulho e Preconceito (2005), baseado no romance clássico de Jane Austen. Recebeu algumas pauladas, principalmente em relação à falta de olhar crítico, da ironia refinada que encontramos no livro. Aqui, ele demonstra ter amadurecido e até arrisca alguma ousadia formal.

Um tour-de-force muito comentado é o plano-seqüência onde vemos a retirada das tropas aliadas na costa de Dunquerque, na França. A câmara passeia por longos minutos por um cenário devastado, com centenas de figurantes, mostrando alguns horrores da guerra, com o sentimento de derrota e desespero estampado no rosto dos atores.

Confesso que não me impressionei tanto. Desde que assisti ao plano-seqüência inicial de A Marca da Maldade (1958), de Orson Welles, nenhum outro me causou tanto impacto. O plano de Reparação me remeteu a outro, do Kenneth Branagh, no filme Henrique V (1989), onde a câmara acompanhava a caminhada do personagem principal por cavalos e homens mortos e feridos. Sem falar do russo Aleksandr Sokurov e o seu incrível A Arca Russa (2002), que é um único plano-seqüência de 97 minutos, com centenas de atores e figurantes.

Está certo que o livro de McEwan é altamente filmável, as cenas rodavam na minha cabeça durante a leitura. Mas o desafio da produção complexa e da tradução imagética das nuances psicológicas da personagem principal faziam temer pelo resultado. O filme levou o Globo de Ouro, e deve levar um punhado de Oscars em 2008. Elenco afiado, cenografia, fotografia, roteiro adaptado e, talvez, direção e melhor filme.            

Claro que Oscar não é garantia de muita coisa. Tem muito abacaxi coberto de chantilly que faturou várias estatuetas. Mas o apuro técnico da produção dá prazer de ver, e a história, bem, é puro McEwan, o que garante engenho e arte.                

FC do B

 fc-do-b.jpg 

Li muita ficção científica, até os vinte e poucos anos.  Adorava Ray Bradbury. Curti muito Asimov e Arthur Clarke, além de vários volumes da coleção portuguesa Argonautas. Gostava de coletâneas de autores desconhecidos (muitos do Leste europeu), da possibilidade de ver como a literatura podia ser um campo de invenções e hipóteses muitas vezes improváveis.

Aqui no Brasil o gênero nunca teve muita popularidade. Lembro de uma coletânea organizado por Fausto Cunha, nos anos 60, comprada em sebo.  Li algumas histórias do Bráulio Tavares, mais recentes.

Pois acaba de ser lançada a coletânea FC do B – Ficção Científica Brasileira -, com 27 contos selecionados  através de um concurso, realizado em 2007. Autores novos, acho, muitos nomes desconhecidos. Está lá uma colega de faculdade, a Dóris Fleury, que fez jornalismo. E um conto deste acendedor de fósforos, que um dia começou a escrever uma historinha motivado pela insuportável musiquinha do caminhão de gás. Olha só onde foi parar!

Uma dúvida: FC do B será uma dissidência, um racha da Ficção Científica Brasileira? Mal posso esperar o momento de por as mãos no volume, para saber se traz uma resposta para esta candente questão!

Anti epigramático

Retalhos da verde censura azul clara. As luzes tortas do labirinto são como o epicentro desfocado da antimorte. Um pedaço de carne seca no testamento da velha sereia. Navego na ciclópica bacia de meus sonhos, e os respingos escorrem como larvas inumeráveis.

Tem gente que escreve assim e se acha genial, moderno, criativo. Mexer no caleidoscópio das palavras e se encantar com combinações aleatórias é prazer infantil, e só uma criança suporta perder horas nessa diversão tola.

Não uma criança qualquer, claro.

A vida imita a arte

Cabrochas

Há uns quatro ou cinco anos Iara Teixeira, artista curitibana de fino traço, grande conhecedora de música brasileira, pintou uma série de cabrochas maravilhosas. Sou o feliz possuidor de uma camiseta onde essas mulatas rebolam sobre meu peito, causando inveja a muita gente.

Pois não é que o Jornal da Tarde e o Estadão de SP, em janeiro de 2008,  resolveram plagiar a minha amiga? Vejam só, se (apesar do chavão) a vida não imita a arte! Com mais plumas e paetês, nesse caso…

Musas do Carnaval

Tim Maia

Tim Maia

Terminei de ler a biografia do síndico do Brasil, Tim Maia, presente do mano Martelo. Conhecido como o criador do soul brasileiro, rei do baile esquenta-sovaco e mela-cueca, campeão de atrasos e sumiços em shows, doidão em tempo integral e consumidor inveterado de tudo que fosse imoral, ilegal ou engordativo, o velho Tim era também uma figura simpática, um canalha querido e um tremendo cantor.

O texto de Nelson Motta flui fácil, e se aproveita bem da amizade de muitos anos para contar casos saborosos e revelar intimidades do “descobridor dos Sete Mares”. Lá pelas tantas, comete um erro engraçado. Tim Maia, numa fase de dureza, dormia no apartamento de um amigo, num sofá que tinha duas corcovas, apelidado de “dromedário”. Motta cai na pegadinha, e dá até nome ao capítulo: “Um dromedário em Botafogo”. Só que quem tem duas corcovas é o camelo, dromedário tem uma…

É o de menos, numa história tão mirabolante quanto a do menino Sebastião, que virou Tim Maia. Enquanto lia, vários sucessos me vinham à cabeça, e acabei com vontade de ouvir o inesquecível disco “Ao Vivo”, de 1992. Pena que meus LPs estejam todos encaixotados, esperando o término da reforma de casa. Em vez disso vou ouvir o impagável Tim Racional, presenteado por minha filha, que está aqui no HD, em MP3. “No caminho do bem…”

Jogo de Cena

   Apenas agora, início de 2008, consegui assistir ao melhor filme brasileiro de 2007. E confesso que poucas vezes vi na tela uma gama tão rica de significados, uma obra tão perturbadora quanto a mais recente realização do maior cineasta brasileiro em atividade, Eduardo Coutinho.           

A mistura de documentário e ficção não é, em si, uma novidade. Desde Verdades e Mentiras (1973), o último de Orson Welles, ou Triste Trópico (1974), do brasileiro Arthur Omar, as fronteiras entre os gêneros vêm sendo destruídas, com maior ou menor ímpeto. Lembro-me de um famoso documentário sobre mulheres vietnamitas, onde os horrores da guerra eram narrado por… atrizes (mas só percebíamos isso no final).           

O surpreendente é a capacidade de questionamento de Coutinho, que mistura depoimentos reais de mulheres com reinterpretações encenadas, de uma tal maneira que no meio do filme estamos perplexos e maravilhados. Quem está falando a verdade? Que verdade, aliás? A atriz que chora ao repetir o texto, dito um pouco antes por uma depoente contida, está sendo menos verdadeira? O sentimento de dor e perda expressado pelas lágrimas de Andréa Beltrão é tão real que percebemos, de repente, que estamos em frente a uma emoção profundamente vivenciada.            

Quando Fernanda Torres trava, não conseguindo falar seu texto, deixa de ser a atriz, e passa a ser objeto do documentário. Estamos vendo uma mulher perante um problema real, tentando explicar ao diretor porque aquilo é tão difícil. Nesses momentos sentimos que estamos na frente de uma experiência cinematográfica nova, revolucionária até.            E que atrizes! Principalmente as de rosto ainda pouco conhecido, que nos iludem com magníficas atuações. Débora Almeida, espetacular. Lana Guelero e  Claudiléa Lemos interpretam o mesmo texto com tal veracidade que não sabemos mais quem é a atriz, quem é a mulher que simplesmente atendeu ao anúncio de jornal pago pela produção do filme, com uma história para contar. E realmente não importa, naquele palco de teatro vazio onde todas são gravadas, pois é tudo um fantástico jogo de cena. Aliás, poucas vezes vi um título de filme tão adequado!           

Ao mestre Coutinho, que um dia me premiou por um pequeno documentário que fiz, lá pelos idos de 1989, mando um abraço agradecido por ainda hoje apontar novos caminhos.           


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