Reparação no cinema

 Reparação, de Ian McEwan, deve ficar como um dos mais bem sucedidos romances deste início de século, podendo ser colocado dignamente na prateleira dos grandes do século anterior. Até defensores do romance “moderninho”, desconstrutivista, sem compromisso com enredo e essas tolices de começo-meio-e-fim, hesitam em criticar o magistral drama de consciência criado pelo escritor inglês.

Pois o livro virou filme (Desejo e Reparação). Mais que isso. Uma superprodução cinematográfica, com recriações de época impecáveis e cenas impressionantes de guerra. Um elenco muito bem escolhido, bem próximo daquilo que os leitores imaginaram lendo o livro (segundo várias opiniões, com as quais concordo).

O diretor Joe Wright já havia arriscado uma adaptação ambiciosa, Orgulho e Preconceito (2005), baseado no romance clássico de Jane Austen. Recebeu algumas pauladas, principalmente em relação à falta de olhar crítico, da ironia refinada que encontramos no livro. Aqui, ele demonstra ter amadurecido e até arrisca alguma ousadia formal.

Um tour-de-force muito comentado é o plano-seqüência onde vemos a retirada das tropas aliadas na costa de Dunquerque, na França. A câmara passeia por longos minutos por um cenário devastado, com centenas de figurantes, mostrando alguns horrores da guerra, com o sentimento de derrota e desespero estampado no rosto dos atores.

Confesso que não me impressionei tanto. Desde que assisti ao plano-seqüência inicial de A Marca da Maldade (1958), de Orson Welles, nenhum outro me causou tanto impacto. O plano de Reparação me remeteu a outro, do Kenneth Branagh, no filme Henrique V (1989), onde a câmara acompanhava a caminhada do personagem principal por cavalos e homens mortos e feridos. Sem falar do russo Aleksandr Sokurov e o seu incrível A Arca Russa (2002), que é um único plano-seqüência de 97 minutos, com centenas de atores e figurantes.

Está certo que o livro de McEwan é altamente filmável, as cenas rodavam na minha cabeça durante a leitura. Mas o desafio da produção complexa e da tradução imagética das nuances psicológicas da personagem principal faziam temer pelo resultado. O filme levou o Globo de Ouro, e deve levar um punhado de Oscars em 2008. Elenco afiado, cenografia, fotografia, roteiro adaptado e, talvez, direção e melhor filme.            

Claro que Oscar não é garantia de muita coisa. Tem muito abacaxi coberto de chantilly que faturou várias estatuetas. Mas o apuro técnico da produção dá prazer de ver, e a história, bem, é puro McEwan, o que garante engenho e arte.                

2 Responses to “Reparação no cinema”


  1. 1 Marcelo Brazil 24/01/2008 às 2:09 am

    Mano, acabo de chegar do cinema e realmente me impressionei muito com a beleza do filme. A cena citada por você foi, para mim (que tenho uma bagagem cinematográfica bem inferior à sua), uma das coisas mais chapantes!! O sincronismo de cena e música neste trecho é demais! E todas as inclusões de sons durante as cenas, principalmente da trilha montada sobre o som de uma máquina de escrever ficou muito interessante. Não chega a ser uma novidade criar música com máquina de escrever mas confesso que ganhou outra dimensão dentro do filme.
    Valeu a noite, valeu a dica!!!

    Abração!!

    Mano Martelo

  2. 2 Daniel Brazil 24/01/2008 às 2:26 pm

    Músico falando é outra coisa! Realmente, a trilha sonora é muito bem elaborada, e desde o início indica para o final, para tudo o que estamos vendo. E mais não posso falar pra não estragar a surpresa, certo?


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