Queremos tanto a Vanessa

 

Vanessa Redgrave

O que fizeram com Vanessa? Por muito tempo colecionamos seus filmes, e a amávamos tanto que editávamos as seqüências em que maus diretores a obrigavam a cenas constrangedoras. Poucas vezes fizemos isso, é lógico, pois Vanessa tem o dom de iluminar cada plano, de encher de significado o mínimo gesto.

A londrina Vanessa Redgrave nasceu no teatro, em 1937, filha de atores shakespearianos. Bela e rebelde, era a atriz inglesa preferida de Tenessee Willians. A rebeldia se transformou em radicalismo político. Foi militante do trotskista Partido Revolucionário dos Trabalhadores, e fundou nos anos 80 o Partido Marxista. Lutou contra o Código Penal, defendeu presos políticos, apoiou a causa palestina, criou inimigos na comunidade sionista, esteve impedida de atuar na Broadway, foi presa três vezes em atos pelo desarmamento nuclear. Em 1991 organizou um concerto em prol dos órfãos da Guerra do Golfo. Levou seu grupo de teatro (The Moving Theatre Company) a Sarajevo, na Bósnia e até representou Shakespeare no Brasil (Marco Antonio e Cleópatra, 1995).

Quem a viu no teatro reconhece que é magnífica. Para nós, a um Atlântico de distância dos palcos britânicos, fica a lembrança de tantas atuações marcantes no cinema. Várias vezes premiada na Europa, foi indicada 6 vezes ao Oscar, e levou um para casa por Julia, em 1978. O filme de Fred Zinnemann, baseado no livro de memórias Pentimento, da escritora Lillian Hellman, conta a história de uma militante anti-nazista na Alemanha de Hitler (Vanessa) e sua amizade com a americana de idéias socialistas interpretada por Jane Fonda.

Mas antes, muito antes, Vanessa já nos encantava pelas mãos de Antonioni (Blow Up), em 1966. E viveu Isadora Duncan e a rainha Mary Stuart nas telas. Foi uma cantora judia em Amarga Sinfonia de Auschwitz, virou homem em Jogo Perigoso, assassina no Expresso Oriente, seduziu Arthur e Lancelot como Guinevere, em Camelot.

Agora reencontramos Vanessa, sendo entrevistada num programa de televisão. É uma senhora de cabelos brancos e rosto de pergaminho, que tenta consertar os erros do passado recontando a sua história. O que fizeram com Vanessa?

Mas não é Vanessa, pois sua história magnífica não precisa ser consertada. Trata-se de Briony Tallis, a protagonista de Desejo e Reparação (Atonement/ 2007), que revela de forma brilhante o segredo da trama, num dos monólogos mais intensos do cinema contemporâneo. E as pessoas saem impactadas pela força da revelação e pela verdade daqueles olhos cor de amianto azulado. E é comentada nos bares, nos cafés, nos escritórios, nos sindicatos, nas escolas, nas camas dos casais.

“Realmente era difícil saber, apesar da publicidade, das filas intermináveis, dos cartazes e das críticas, que éramos tantos os que queríamos a Vanessa”.

Briony Tallis

 

 

 

 

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5 Responses to “Queremos tanto a Vanessa”


  1. 1 ita 25/01/2008 às 2:37 pm

    Queremos Tanto a Glenda…

  2. 2 Daniel Brazil 25/01/2008 às 2:39 pm

    Grande Ita, matando a charada.
    Abraço!

  3. 3 Helion 26/01/2008 às 2:39 am

    Segundão! também gosto do conto do Cortazar. E daquele outro, no mesmo livro (Orientação dos gatos), sobre a paranóia de um empregado do metrô portenho quanto à contagem de passageiros? Não dava um filme interessante, tambem? Esqueci agora o nome exato do conto.

  4. 4 Daniel Brazil 26/01/2008 às 5:49 pm

    É isso aí, Itamar em Sampa e Helion no Rio acertaram.

    O primeiro e o último parágrafo do post são copiados do conto “Queremos tanto a Glenda”, onde Cortázar descreve o comportamento de um estranho grupo de admiradores da atriz Glenda, nos anos 60/70.
    Dizem que foi inspirado pela também inglesa, talentosa e multi-premiada Glenda Jackson, de quem Cortázar era fã.

  5. 5 Daniel Brazil 26/01/2008 às 9:03 pm

    Aliás, o filme Blow Up, do Antonioni (Depois Daquele Beijo, por aqui) é baseado num conto do Cortázar (Las Babas del Diablo).


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