Arquivo para janeiro \10\-02:00 2008



A vida imita a arte

Cabrochas

Há uns quatro ou cinco anos Iara Teixeira, artista curitibana de fino traço, grande conhecedora de música brasileira, pintou uma série de cabrochas maravilhosas. Sou o feliz possuidor de uma camiseta onde essas mulatas rebolam sobre meu peito, causando inveja a muita gente.

Pois não é que o Jornal da Tarde e o Estadão de SP, em janeiro de 2008,  resolveram plagiar a minha amiga? Vejam só, se (apesar do chavão) a vida não imita a arte! Com mais plumas e paetês, nesse caso…

Musas do Carnaval

Tim Maia

Tim Maia

Terminei de ler a biografia do síndico do Brasil, Tim Maia, presente do mano Martelo. Conhecido como o criador do soul brasileiro, rei do baile esquenta-sovaco e mela-cueca, campeão de atrasos e sumiços em shows, doidão em tempo integral e consumidor inveterado de tudo que fosse imoral, ilegal ou engordativo, o velho Tim era também uma figura simpática, um canalha querido e um tremendo cantor.

O texto de Nelson Motta flui fácil, e se aproveita bem da amizade de muitos anos para contar casos saborosos e revelar intimidades do “descobridor dos Sete Mares”. Lá pelas tantas, comete um erro engraçado. Tim Maia, numa fase de dureza, dormia no apartamento de um amigo, num sofá que tinha duas corcovas, apelidado de “dromedário”. Motta cai na pegadinha, e dá até nome ao capítulo: “Um dromedário em Botafogo”. Só que quem tem duas corcovas é o camelo, dromedário tem uma…

É o de menos, numa história tão mirabolante quanto a do menino Sebastião, que virou Tim Maia. Enquanto lia, vários sucessos me vinham à cabeça, e acabei com vontade de ouvir o inesquecível disco “Ao Vivo”, de 1992. Pena que meus LPs estejam todos encaixotados, esperando o término da reforma de casa. Em vez disso vou ouvir o impagável Tim Racional, presenteado por minha filha, que está aqui no HD, em MP3. “No caminho do bem…”

Jogo de Cena

   Apenas agora, início de 2008, consegui assistir ao melhor filme brasileiro de 2007. E confesso que poucas vezes vi na tela uma gama tão rica de significados, uma obra tão perturbadora quanto a mais recente realização do maior cineasta brasileiro em atividade, Eduardo Coutinho.           

A mistura de documentário e ficção não é, em si, uma novidade. Desde Verdades e Mentiras (1973), o último de Orson Welles, ou Triste Trópico (1974), do brasileiro Arthur Omar, as fronteiras entre os gêneros vêm sendo destruídas, com maior ou menor ímpeto. Lembro-me de um famoso documentário sobre mulheres vietnamitas, onde os horrores da guerra eram narrado por… atrizes (mas só percebíamos isso no final).           

O surpreendente é a capacidade de questionamento de Coutinho, que mistura depoimentos reais de mulheres com reinterpretações encenadas, de uma tal maneira que no meio do filme estamos perplexos e maravilhados. Quem está falando a verdade? Que verdade, aliás? A atriz que chora ao repetir o texto, dito um pouco antes por uma depoente contida, está sendo menos verdadeira? O sentimento de dor e perda expressado pelas lágrimas de Andréa Beltrão é tão real que percebemos, de repente, que estamos em frente a uma emoção profundamente vivenciada.            

Quando Fernanda Torres trava, não conseguindo falar seu texto, deixa de ser a atriz, e passa a ser objeto do documentário. Estamos vendo uma mulher perante um problema real, tentando explicar ao diretor porque aquilo é tão difícil. Nesses momentos sentimos que estamos na frente de uma experiência cinematográfica nova, revolucionária até.            E que atrizes! Principalmente as de rosto ainda pouco conhecido, que nos iludem com magníficas atuações. Débora Almeida, espetacular. Lana Guelero e  Claudiléa Lemos interpretam o mesmo texto com tal veracidade que não sabemos mais quem é a atriz, quem é a mulher que simplesmente atendeu ao anúncio de jornal pago pela produção do filme, com uma história para contar. E realmente não importa, naquele palco de teatro vazio onde todas são gravadas, pois é tudo um fantástico jogo de cena. Aliás, poucas vezes vi um título de filme tão adequado!           

Ao mestre Coutinho, que um dia me premiou por um pequeno documentário que fiz, lá pelos idos de 1989, mando um abraço agradecido por ainda hoje apontar novos caminhos.           

Piores de 2007

Peixe natalino

Existe coisa mais brega que decoração de Natal? Raríssimas são aquelas que conseguem unir bom gosto e originalidade, sem descambar para o exagero, o carnavalesco ou o sem-noção.

Embora aquele cone gigante erguido no Ibirapuera, em São Paulo, tenha feito um esforço enorme para levar o prêmio de pior do ano, minha escolha recai sobre os inacreditáveis peixes de plástico com chapéu de Papai Noel (de cetim!) que tornaram as ruas de São Sebastião (SP) uma espécie de pesadelo pós-ressaca. Feliz 2008!


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