Arquivo para fevereiro \26\-02:00 2008

Tropas de Elite

 

Assisti Tropa de Elite em 2007, antes mesmo de inaugurar este blog. Daí me deu certa preguiça de comentar o filme, num ano que teve Jogo de Cena como um belo exemplo de cinema de invenção, feito com mãos de mestre e sentimento de sábio por Eduardo Coutinho.

Mas pintou Berlim e o Urso de Ouro, e há sempre amigos lembrando que me formei em Cinema na USP, e cobrando que eu fale mais da sétima arte aqui neste minifúndio.

            Duas idéias me ocorrem (e não precisava ter estudado Cinema para isso). Primeiro, que é um filme bem feito, muito bem dirigido, montado e interpretado. Segundo, que tem um conteúdo fascista.

            Curiosamente, os fãs do filme esperneiam, reclamando que “não é fascista”. Bem, gosto de alguns filmes fascistas, e assumo. Aqueles filmes da Leni Riefenstahl mostrando a supremacia nazista são lindos, embora tenham servido a uma causa grotesca. Intolerância, do Griffith, é uma obra-prima, mesmo sendo racista. Por que negar o óbvio?

            Parece que a dimensão histórica dá certo grau de isenção para a obra de arte. O problema é quando a coisa está quente, falando do momento em que vivemos. Difícil enxergar sem o filtro ideológico, não é mesmo? Vamos a uma analogia didática.

            Lembram dos filmes e reportagens encomendados pelo governo dos EUA para justificar o bombardeio ao Iraque? Ocultavam a morte de mulheres e crianças (“danos colaterais inevitáveis”) e mostravam só os “bandidos” sendo mortos. Qualquer pessoa minimamente dotada de senso crítico via a manipulação, mas serviu para que milhões de americanos votassem novamente em Bush Jr.

O que é o estilo “Tropa de Elite” de mostrar a realidade, senão ocultar as mulheres e crianças baleadas pelos Rambos brasileiros do Bope? Gostaria de perguntar ao Padilha, diretor inegavelmente talentoso na manipulação de imagens, se ele considera correta a “direção” do Pentágono. A tropa de elite, aqui como lá, não erra. Só mata os malvados traficantes/iraquianos e seus colaboracionistas.

E ainda há quem defenda o filme brasileiro dizendo que é a  “realidade”…

Uma lagoa de domingo

Bares da Lagoa

Numa das ilhas mais belas do litoral brasileiro, há uma lagoa. Esta lagoa tem parte da orla cercada por ruas que ficam absolutamente lotadas no verão, nos feriados e fins de semana.

Mas a Lagoa da Conceição, em Florianópolis, tem alguns segredos. Um deles consiste em largar o carro, ali perto da ponte, e pegar um barco. Você paga como um ônibus urbano, e tem várias paradas como esta, com bares encantadores. Anchovetas, tainhotas, camarões, ostras, cervejinhas. O sol vai se pondo na terra de Cruz e Souza, e você percebe que não há trânsito, buzina, alarme, congestionamento. “Descem do ocaso as sombras harmoniosas, sombras veladas e musselinosas. Os céus resplendem de sidéreas rosas…”

Só não perca o último barco de volta, que passa quando a lua está alta. E a noite é tão linda que dá vontade de ficar…

Delícias da Língua 3

Danofalante

(adj e s.m.)

1    que ou aquele que fala o dinamarquês, como primeira língua ou não.
2    que tem o dinamarquês como língua oficial ou dominante.

Se você, caro petista/prezado tucano,  pensou que danofalante era o Zé Dirceu ou o FHC, esqueça.

Um Shopping

Shopping

Detesto shopping centers, de maneira geral. Até a expressão “shopping center”, tortuosa adaptação do “mall”, que acabou virando apenas “shopping” na estranha língua brasileira.

Mas não resisti e tirei uma foto deste shopping que encontrei em Palmares, interior de Pernambuco. Antropofagia total, como queria o Oswald. E como anotou o Brancoleone, onde publiquei pela primeira vez essa imagem, em 2006, a ortografia é perfeita. Não há erros de português. Ou melhor, inglês.

Diria Euclides, hoje: O sertanejo é antes de tudo um gozador.

Livro novo do Pimentel

livro-pimentel.gif 

O Luís Pimentel é um baiano-carioca que trabalha mais que muito paulista. O homem é jornalista, editor, professor, cronista, escritor e bom contador de causos. Uma de suas paixões é a Revista Música Brasileira, que já andou pelas bancas em versão impressa e hoje é virtual (mas voltará, não é, Pimentel?)

A outra paixão é a literatura. Com mais de de 20 títulos publicados, lança agora uma coletânea de contos, finalista do prêmio Cruz e Souza, pela Bertrand Brasil. Só pra dar uma idéia do naipe, o primeiro conto, “A Viagem”, foi vencedor do 14. Concurso de Contos Luiz Vilela. Quando crescer, quero escrever igual ao Pimentel!

Delícias da Língua (2)

Todos já ouvimos aquela história, muito citada pelos lingüistas, de que os esquimós têm dezenas de palavras para designar a cor branca. Ou melhor, as cores brancas, pois enxergam nuances que não percebemos.

Questão de sobrevivência (“aquele branquinho ali indica que o gelo está quebradiço, cara-pálida”), adaptação ao meio ambiente, relação vital com aquilo que os cerca, com que convivem diariamente.

Os dicionários da língua portuguesa apontam que as três palavras com maior número de sinônimos são cachaça, puta e dinheiro. Por que será?


PS (em 16/04): O Idelber Avelar, do excelente blog “O Biscoito Fino e a Massa”, o primeiro linkado ali na lista, levantou a lebre, e vários leitores observaram corretamente que o Tinhoso não poderia estar fora da lista.
Fui à contagem, tomando por base o Houaiss. Aí vai o ranking:

Dinheiro: 134 sinônimos.
Diabo, 137.
Puta, 164. (Sem contar a acepção usual de “legal, bacana, excelente”)
e a campeoníssima:
Cachaça, 430 sinônimos!

Um lugar pro domingo

Lanche do Nildo

Porque hoje é domingo. E porque revirei algumas fotos, e vi que tem muito lugar que pisei, deste Brasil, esparramado no mapa. E porque hoje é domingo, resolvi que nos próximos domingos dividirei algumas histórias e lugares com você. Vou começar por um bar, porque é um dos bons lugares para começar uma história. Este ficava em Santarém, esquina do Tapajós com o Amazonas, no ano de 2006. Sei lá onde estará agora. Cerpa gelada, mapará frito, bolinho de piracuí. Porque hoje é domingo.

Vanguardas 2

   A música tem a saborosa propriedade de ser uma das mais maleáveis formas de arte, possibilitando o convívio de presente e passado de forma complementar e harmônica. Um músico moderno não é aquele que toca apenas as formas de vanguarda, mas aquele que também conhece e executa com destreza as formas tradicionais incorporadas ao repertório coletivo.

Muitas vezes o trabalho dos “vanguardistas” se inclina para as formas mais primitivas, retomando procedimentos, recuperando nuances e criando novas conexões. As últimas composições do genial Stravinski eram colagens de cantatas medievais e renascentistas, em linguagem tonal e conservadora. No Brasil, compositores eruditos, como Marlos Nobre, revisitam sonoridades indígenas, do mesmo modo que artistas mais “populares”, como Egberto Gismonti ou o grupo Uakti. Hermeto Paschoal, inventor sem limites, volta e meia retorna ao baião, ao forró, ao choro, matérias-primas sempre presentes nas suas elaborações. Os novos grupos instrumentais de música popular brasileira tendem à mistura de gêneros, retomando formas cristalizadas, misturando procedimentos jazzísticos dos anos 40 e 50 com as sonoridades típicas dos primeiros chorões.

Em outras artes, como a literatura, o mesmo fenômeno ocorre. Não é sintomático que um Haroldo de Campos tenha se debruçado sobre textos bíblicos e mitológicos, na última fase de sua produção? Não se trata de volta ao passado, mas de um mergulho à outra metade do universo, à outra ponta da vanguarda.

Enfim, criação e tradição são conceitos interligados em todos os campos do conhecimento. É um erro primário colocar estas categorias em campos opostos. Podemos dizer que existe uma “tradição criativa” na música, na literatura ou nas artes plásticas, com marés de maior ou menor intensidade. E é desse movimento contínuo que emergem, mesmo sem ter total consciência disso, os nossos melhores poetas e compositores.

(Este post, assim como anterior, com ligeiras modificações, foi publicado originalmente no site Officina do Pensamento, da poeta Ana Peluso, em meados de 2005).

Vanguardas

Certos movimentos artísticos costumam enxergar a história como uma linha reta, uma seqüência evolutiva, do qual eles são o ápice, e o que virá em seguida é conseqüência. Muitos militantes das correntes estéticas contemporâneas parecem ter essa visão.
Se adotarmos outra concepção, antilinear, tomando emprestado um conceito da Física astronômica, desmontamos aquela idéia: a cultura é um universo tridimensional, em permanente expansão. O fato de um grupo estar na vanguarda, na ponta de uma certa direção, não significa que outros também não estejam. Pelo contrário, até um grupo diametralmente oposto pode estar também na vanguarda. Na prática, podemos imaginar um grupo (ou indivíduo) que pesquisa música medieval experimentando uma abordagem diferente, uma criativa leitura histórica, e propondo inovações na área, enquanto outro grupo (ou indivíduo) que pesquisa música eletroacústica pode estar repetindo procedimentos atrasados em 50 anos, sem acrescentar novos dados. Este pensa que é vanguarda, enquanto aqueles, que nem almejam esta condição, podem estar sendo.
Essa grande massa tridimensional, cujas bordas se movem continuamente, contém um universo de contradições que se comprimem e se aglutinam, formando correntes, núcleos e corpúsculos.

Ao colocar alguns pontos desse universo em evidência, a mídia se comporta como uma luneta, que só enxerga uma direção de cada vez, eliminando o restante. E alguns grupos se aproveitam disso, claro, fazendo com que a luneta esteja sempre apontada para eles. De certo modo, aplica-se também aqui outro conceito da Física: o da indeterminação, de Heisenberg. Nenhuma partícula é descrita, analisada, avaliada, sem que sofra influência do observador, sem que o instrumento de observação acabe exercendo um papel transformador no objeto de estudo. Einstein disse, em 1926, que “Observar significa que construímos alguma conexão entre um fenômeno e a nossa concepção do fenômeno”. Ou seja, a interação entre observador e observado altera os modos de percepção do mundo, sendo impossível a isenção absoluta de julgamento.
Todas as vanguardas estéticas interagem com os meios de comunicação, para o bem ou para o mal. Sem a repercussão midiática se cristalizam, tornando-se estéreis. Com a propaganda, diluem-se em pouco tempo, incorporando-se ao repertório comum. Um dilema surgido no século XX, dito das comunicações, que projeta a sombra de seu rosto de esfinge no novo século, tornando-se uma questão inseparável do futuro das artes e das vanguardas.

Os Nomes das Cores

Estou em reforma há dois meses. Ou melhor, a minha casa está. Isso significa um pequeno calvário, que vai desde dormir fora até participar de animados entreveros com encanadores e pedreiros sobre gastos, desperdícios e a minha conjuntura econômica.

Mas de tudo é possível tirar um pouco de poesia. Não falo de poesia concreta, mas de poesia-tinta, poesia-lajota, poesia-pastilha. Chegue numa loja de tintas e peça para espiar o catálogo de cores de uma grande marca. Ou entre no portal da empresa, já que está aí na frente do computador.

Imagine o trabalho do sujeito responsável por dar nomes a 3450 cores produzidas pela empresa. Uma hora ele pira. Ou vira poeta. Aí surgem coisas como Musgo Cáqui. Ou Tesouro Descoberto. Ou Branco Estivador. Hein?

Quero pintar o escritório com a cor Flauta de Madeira, uma espécie de amarelo. A Carmen prefere Conto Nostálgico, ainda estamos em dúvida. Me apaixonei por um bege chamado Dias de Preguiça. Iria para a varanda, sem dúvida, se eu tivesse uma varanda.

E os azuis? Ondas da Lua, à primeira vista, é igual ao Crescente Cósmico, mas deve haver alguma diferença que meus olhos saturados já não permitem distinguir. Parada de Trem é um cinza-azulado bem simpático, embora pareça com outros 30 tipos de cinza, como o Escultura em Pedra e o Navegação Tranqüila.

Os vermelhos têm nomes quentes, claro, se bem que Sombra Mística ou Gaita Francesa não me pareçam muito quentes. Mas Primeiro Rubor é sugestivo, assim como o clássico Amor. Estou entre Melancia Doce e Baile de Máscaras, para os rodapés. Ou será que Flor de Medronheira fica melhor? Talvez Sorriso Jamaicano ou Caminho de Aceráceas…

O poeta Murilo Mendes achava lindos os nomes criados pelos pescadores: Peixe-Lua, Peixe-Espada, Peixe-Anjo. Para ele, a banca de peixe na feira era um mundo de revelações. Se estivesse vivo, certamente entraria em êxtase ao entrar numa loja de materiais de construção.


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