Arquivo para fevereiro \08\-02:00 2008



Vanguardas 2

   A música tem a saborosa propriedade de ser uma das mais maleáveis formas de arte, possibilitando o convívio de presente e passado de forma complementar e harmônica. Um músico moderno não é aquele que toca apenas as formas de vanguarda, mas aquele que também conhece e executa com destreza as formas tradicionais incorporadas ao repertório coletivo.

Muitas vezes o trabalho dos “vanguardistas” se inclina para as formas mais primitivas, retomando procedimentos, recuperando nuances e criando novas conexões. As últimas composições do genial Stravinski eram colagens de cantatas medievais e renascentistas, em linguagem tonal e conservadora. No Brasil, compositores eruditos, como Marlos Nobre, revisitam sonoridades indígenas, do mesmo modo que artistas mais “populares”, como Egberto Gismonti ou o grupo Uakti. Hermeto Paschoal, inventor sem limites, volta e meia retorna ao baião, ao forró, ao choro, matérias-primas sempre presentes nas suas elaborações. Os novos grupos instrumentais de música popular brasileira tendem à mistura de gêneros, retomando formas cristalizadas, misturando procedimentos jazzísticos dos anos 40 e 50 com as sonoridades típicas dos primeiros chorões.

Em outras artes, como a literatura, o mesmo fenômeno ocorre. Não é sintomático que um Haroldo de Campos tenha se debruçado sobre textos bíblicos e mitológicos, na última fase de sua produção? Não se trata de volta ao passado, mas de um mergulho à outra metade do universo, à outra ponta da vanguarda.

Enfim, criação e tradição são conceitos interligados em todos os campos do conhecimento. É um erro primário colocar estas categorias em campos opostos. Podemos dizer que existe uma “tradição criativa” na música, na literatura ou nas artes plásticas, com marés de maior ou menor intensidade. E é desse movimento contínuo que emergem, mesmo sem ter total consciência disso, os nossos melhores poetas e compositores.

(Este post, assim como anterior, com ligeiras modificações, foi publicado originalmente no site Officina do Pensamento, da poeta Ana Peluso, em meados de 2005).

Vanguardas

Certos movimentos artísticos costumam enxergar a história como uma linha reta, uma seqüência evolutiva, do qual eles são o ápice, e o que virá em seguida é conseqüência. Muitos militantes das correntes estéticas contemporâneas parecem ter essa visão.
Se adotarmos outra concepção, antilinear, tomando emprestado um conceito da Física astronômica, desmontamos aquela idéia: a cultura é um universo tridimensional, em permanente expansão. O fato de um grupo estar na vanguarda, na ponta de uma certa direção, não significa que outros também não estejam. Pelo contrário, até um grupo diametralmente oposto pode estar também na vanguarda. Na prática, podemos imaginar um grupo (ou indivíduo) que pesquisa música medieval experimentando uma abordagem diferente, uma criativa leitura histórica, e propondo inovações na área, enquanto outro grupo (ou indivíduo) que pesquisa música eletroacústica pode estar repetindo procedimentos atrasados em 50 anos, sem acrescentar novos dados. Este pensa que é vanguarda, enquanto aqueles, que nem almejam esta condição, podem estar sendo.
Essa grande massa tridimensional, cujas bordas se movem continuamente, contém um universo de contradições que se comprimem e se aglutinam, formando correntes, núcleos e corpúsculos.

Ao colocar alguns pontos desse universo em evidência, a mídia se comporta como uma luneta, que só enxerga uma direção de cada vez, eliminando o restante. E alguns grupos se aproveitam disso, claro, fazendo com que a luneta esteja sempre apontada para eles. De certo modo, aplica-se também aqui outro conceito da Física: o da indeterminação, de Heisenberg. Nenhuma partícula é descrita, analisada, avaliada, sem que sofra influência do observador, sem que o instrumento de observação acabe exercendo um papel transformador no objeto de estudo. Einstein disse, em 1926, que “Observar significa que construímos alguma conexão entre um fenômeno e a nossa concepção do fenômeno”. Ou seja, a interação entre observador e observado altera os modos de percepção do mundo, sendo impossível a isenção absoluta de julgamento.
Todas as vanguardas estéticas interagem com os meios de comunicação, para o bem ou para o mal. Sem a repercussão midiática se cristalizam, tornando-se estéreis. Com a propaganda, diluem-se em pouco tempo, incorporando-se ao repertório comum. Um dilema surgido no século XX, dito das comunicações, que projeta a sombra de seu rosto de esfinge no novo século, tornando-se uma questão inseparável do futuro das artes e das vanguardas.

Os Nomes das Cores

Estou em reforma há dois meses. Ou melhor, a minha casa está. Isso significa um pequeno calvário, que vai desde dormir fora até participar de animados entreveros com encanadores e pedreiros sobre gastos, desperdícios e a minha conjuntura econômica.

Mas de tudo é possível tirar um pouco de poesia. Não falo de poesia concreta, mas de poesia-tinta, poesia-lajota, poesia-pastilha. Chegue numa loja de tintas e peça para espiar o catálogo de cores de uma grande marca. Ou entre no portal da empresa, já que está aí na frente do computador.

Imagine o trabalho do sujeito responsável por dar nomes a 3450 cores produzidas pela empresa. Uma hora ele pira. Ou vira poeta. Aí surgem coisas como Musgo Cáqui. Ou Tesouro Descoberto. Ou Branco Estivador. Hein?

Quero pintar o escritório com a cor Flauta de Madeira, uma espécie de amarelo. A Carmen prefere Conto Nostálgico, ainda estamos em dúvida. Me apaixonei por um bege chamado Dias de Preguiça. Iria para a varanda, sem dúvida, se eu tivesse uma varanda.

E os azuis? Ondas da Lua, à primeira vista, é igual ao Crescente Cósmico, mas deve haver alguma diferença que meus olhos saturados já não permitem distinguir. Parada de Trem é um cinza-azulado bem simpático, embora pareça com outros 30 tipos de cinza, como o Escultura em Pedra e o Navegação Tranqüila.

Os vermelhos têm nomes quentes, claro, se bem que Sombra Mística ou Gaita Francesa não me pareçam muito quentes. Mas Primeiro Rubor é sugestivo, assim como o clássico Amor. Estou entre Melancia Doce e Baile de Máscaras, para os rodapés. Ou será que Flor de Medronheira fica melhor? Talvez Sorriso Jamaicano ou Caminho de Aceráceas…

O poeta Murilo Mendes achava lindos os nomes criados pelos pescadores: Peixe-Lua, Peixe-Espada, Peixe-Anjo. Para ele, a banca de peixe na feira era um mundo de revelações. Se estivesse vivo, certamente entraria em êxtase ao entrar numa loja de materiais de construção.


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