Sarau no Butantã

Alguns amigos estranharam a ausência de notícias nos últimos dias. Na verdade, há duas semanas escrevo apenas nas noites de domingo, por pura estafa. Saí do programa de TV em S. Bernardo – os 70 km diários de percurso significavam 3 horas improdutivas no trânsito – e mergulhei na reforma de casa, que já entrou no quarto mês consumindo grana, cabelos e energia.

Ontem, sábado, fui salvo pelo simpático convite de minha amiga Artemiza, que ano passado também reformou sua casa no Butantã, e promoveu um sarau de 8 de março. Coisa mais primitiva, um grupo de pessoas que se juntam para tocar, cantar e falar coisas sem muito lógica. Pitecantropos devem ter feito isso nas noites ancestrais em volta da fogueira, não?

Coisa boa e eterna, exemplo de civilidade. Reunir pessoas para trocar generosamente valores não materiais, como música e poesia. E eu, que moro e circulo no Butantã há quase trinta anos, sinto que pertenço a um grupo que ainda canta em volta da fogueira de vez em quando.

Confesso que conhecia poucos presentes. Mas que diferença isso fazia, se estávamos ali irmanados pela música, pela mesa farta e, mais que tudo, pela ação de congraçamento de Artemiza? E a roda de violões, capitaneada pelo craque João Macacão, era de babar. A ponto de causar certa inquietação o momento em que uma das convidadas se levantou e disse que ia recitar uma poesia. Receio geral, aquele friozinho na barriga. Que se transformou em encantamento quando os versos de Mario Benedetti encheram a sala, com perfeito sotaque platino:

tus ojos son mi conjuro
contra la mala jornada
te quiero por tu mirada
que mira y siembra futuro
tu boca que es tuya y mía
tu boca no se equivoca
te quiero porque tu boca
sabe gritar rebeldía
si te quiero es porque sos
mi amor mi ccómplice y todo
y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.”

Pouco depois chegou outro ilustre morador do Butantã, mestre Toninho Carrasqueira, e sua flauta tornou o encantamento da noite quase palpável. A “Rosa” que ele tocou com o 7 cordas de João foi coisa de antologia. E voltei pra casa de madrugada, feliz como um pitecantropo que viu as estrelas antes de dormir.

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2 Responses to “Sarau no Butantã”


  1. 1 Flor 11/03/2008 às 2:43 am

    Ai, como eu queria!

  2. 2 Daniel Brazil 12/03/2008 às 2:12 am

    Iria gostar, Flor!
    Aliás, esqueci de dizer o nome da bela recitante de Benedetti (que é formada em letras hispânicas, claro): Raquel Lacorte.
    E não citei o nome de outros músicos por desconhecimento, mas não posso deixar de registrar a presença do grande cavaquinhista Marcel, que me deu a honra de acompanhá-lo, ao violão, no Choro Negro do Paulinho da Viola. Até o Carrasqueira, que já tinha guardado a flauta, fez questão de reabrir o estojo e nos brindar com a saideira.


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