Arquivo para março \17\UTC 2008



Um beco de domingo

Beco

São Paulo é grande demais para ser definida por uma foto. Os cartões postais tradicionais elegem a Avenida Paulista, o Anhangabaú ou o Parque Ibirapuera como símbolo, mas cada bairro, cada vila, cada rua tem um canto onde podemos ver algo que não estava nos guias turísticos.

A Vila Madalena ganhou fama nacional, primeiro como bairro universitário, reduto de artistas. Depois pela proliferação de bares e restaurantes. Hoje é um lugar de trânsito complicado, cheio de prédios, cada vez mais caro. Virou novela da Globo, a pá de cal no espírito ripongo dos anos 70/80.

Mas quem viveu por lá conhece o Beco.Tem nome de gente, mas ninguém lembra. Será sempre o Beco da Vila Madalena, galeria a céu aberto que grafiteiros e cineastas consagraram.

Passear pelo Beco num domingo de manhã é sempre agradável. Principalmente se a amoreira (a maior que já vi) estiver carregada.

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Veja: Leia o blog do Nassif!

Impossível deixar de recomendar, com veemência, a leitura do blog do Luis Nassif, que revela a decadência corrompida da revista que mais vende no país. Um jornalista com posições claras, conhecido por suas análises econômicas (e, cá entre nós, também pela paixão pela música brasileira) , desmascara a impostura da revista (in)Veja e seus medíocres colunistas de aluguel.

Aliás, a revista Caros Amigos traz boa entrevista com o Nassif, neste mês. Uma leitura capaz de fazer março bem melhor que abril.

Ignorância biológica

Hoje abro um jornalão de S. Paulo e vejo um anúncio imobiliário de página inteira, anunciando as vantagens de um prédio vizinho a um parque. Sob a foto de um picapau, a frase publicitária lapidar: “Seu futuro vizinho já está em obras.”

Nunca fui aluno exemplar. Sempre beirei o desastre nas matérias exatas, e até hoje sou péssimo em contas, principalmente as bancárias. Nas humanas até que me virava bem, gostava de mapas, de estórias e de História. Tinha uma inexplicável queda por Biologia, que se manifestava muito mais através da infantil atração por bichos, sem muita preocupação com taxonomia ou genética.

Não me tornei biólogo, mas um curioso por histórias (e estórias). E nas minhas leituras cotidianas, de jornais, revistas e até folhetos de propaganda, sempre me espanto com a profunda ignorância que a maioria dos redatores e jornalistas nutrem sobre a tal da Biologia.

Rara é a semana em que não leio alguém chamando aranha de inseto, ostra de crustáceo ou gênero de espécie. Essas caneladas doem, mas inúmeros chutes na trave passam despercebidos para a maioria dos mortais.

O redator do citado anúncio deve pensar que um picapau bate o bico em troncos para abrir um buraco que lhe servirá de morada. Assistiu muito desenho animado na infância, mas não teve a menor curiosidade de conferir se o que escreveu era correto. Aprenderia que todo picapau procura insetos para se alimentar, em troncos velhos e secos. Se a foto fosse de um joão-de-barro fazendo o ninho, a legenda estaria adequada.

Nunca esqueci do texto de um célebre jornalista carioca, intelectual respeitado, que escreveu certa vez sobre o suicídio coletivo dos lêmures. Pobres lêmures! Pequenos primatas confinados na ilha de Madagascar, nem sequer suspeitam da lenda acerca dos lemingues, roedores escandinavos suspeitos de se atirar ao mar em bandos, em crise existencial bergmaniana coletiva.

Na verdade, o jornalista cometeu dois erros, porque essa história de suicídio em massa é um mito criado pela vontade tão humana de atribuir motivações psicológicas aos animais.

Quando a população cresce muito, os bichinhos migram em busca de alimento. Como aquela terra é estreita e cheia de fiordes (o mapa da Escandinávia era o mais difícil de desenhar, lembro bem!) os primeiros da tropa chegavam à beira do precipício e eram empurrados pelos seguintes. O resto é lenda, criada por nada menos que Walt Disney.

Mas vamos a exemplos brasileiros, antes que a Amazônia acabe. Aliás, o Estadão lançou um belo caderno especial sobre o tema, com poucos erros biológicos, mesmo esquecendo que a anta é o maior animal da região. Claro, lá está a clássica confusão de “ascendente” por “descendente”, num artigo que fala de ancestrais indígenas. Mas essa já saiu dos domínios da biologia, e multiplicou-se como praga por todas as áreas do conhecimento. O jovem e celebrado romancista Daniel Galera tascou, em Mãos de Cavalo, uma enfermeira gaúcha que tem “descendência” européia. Terá a moça emigrado para ter filhos na Europa, voltando a Porto Alegre para servir num posto de saúde da periferia? Pouco provável. Mas o xará apenas incorre num erro generalizado, quase um vício de linguagem. O romance tem bons momentos, não é má leitura. Faltou revisão.

Os poetas são perdoados, normalmente, porque não se cobra lógica de poesia. Letrista de música então, nem se fala. Mesmo quando Djavan diz que “O amor (…) é um lobo correndo em círculos pra alimentar a matilha”, relevamos o fato de que o coletivo de lobo é alcatéia. Matilha é de cães de caça, ensina o Houaiss. Talvez o amor djavaniano seja tão louco que alimente os inimigos, e estejamos portanto diante de uma concepção revolucionária e aterradora de amor. Gênio!

Mas Djavan nasceu em Alagoas, e falta de proteína na infância pode causar seqüelas irreversíveis. A ignorância biológica é mais inexplicável quando falamos de pessoas cultas, nascidas ou criadas em metrópoles como New York ou São Paulo. Que dizer de Cole Porter e seu tradutor brasileiro, Carlos Rennó?

A canção Let’s Do It (Let’s Fall In Love), do grande compositor americano, é um primor de ignorância biológica. A esmerada versão de Rennó também sacrificou a biologia pela graça e beleza das rimas. Aos poetas, tudo é permitido. Tudo?

Façamos (vamos amar) é um belo achado para o título da canção, gravada por Chico Buarque e Elza Soares. Há idéias engraçadas, como no verso “tico-ticos no fubá fazem” (amor), e não vamos implicar por causa disso. O sentido aí é brincar com o clássico choro de Zequinha de Abreu, não com o lugar onde tico-ticos fazem amor (provavelmente em qualquer lugar).

A coisa começa a complicar quando “dourados no Solimões fazem”. Dourados são peixes típicos da bacia do Prata e do São Francisco. Informação restrita a pescadores, vamos conceder. Criaturas escamosas são pouco amigáveis, e refratárias ao contato humano. Talvez por isso causem confusões como no verso “Salmões no sal, em geral, fazem”. Os deliciosos salmonídeos saem dos oceanos e migram para as águas doces para procriar. Portanto, no sal, não fazem…

O ápice desta letra, para mim, é “as taturanas também fazem”. Será que o criativo letrista esqueceu que taturanas, lagartas e manduruvás são filhotes de borboletas e mariposas? As inocentes criaturas rastejam, comendo suas folhinhas, sem ter a menor idéia de que um dia voarão e farão amor. Enfim, a não ser que sejam pervertidas ou afetadas pelo aquecimento global e a poluição, taturanas não fazem, e nem têm o equipamento necessário para isso.

Chico Buarque, que não costuma dizer besteira, cantarolou essas. Que dizer às crianças, depois disso?

PS: Os links sobre lemingues foram copiados do Paraíba, que está ali na lista de favoritos!

Sarau no Butantã

Alguns amigos estranharam a ausência de notícias nos últimos dias. Na verdade, há duas semanas escrevo apenas nas noites de domingo, por pura estafa. Saí do programa de TV em S. Bernardo – os 70 km diários de percurso significavam 3 horas improdutivas no trânsito – e mergulhei na reforma de casa, que já entrou no quarto mês consumindo grana, cabelos e energia.

Ontem, sábado, fui salvo pelo simpático convite de minha amiga Artemiza, que ano passado também reformou sua casa no Butantã, e promoveu um sarau de 8 de março. Coisa mais primitiva, um grupo de pessoas que se juntam para tocar, cantar e falar coisas sem muito lógica. Pitecantropos devem ter feito isso nas noites ancestrais em volta da fogueira, não?

Coisa boa e eterna, exemplo de civilidade. Reunir pessoas para trocar generosamente valores não materiais, como música e poesia. E eu, que moro e circulo no Butantã há quase trinta anos, sinto que pertenço a um grupo que ainda canta em volta da fogueira de vez em quando.

Confesso que conhecia poucos presentes. Mas que diferença isso fazia, se estávamos ali irmanados pela música, pela mesa farta e, mais que tudo, pela ação de congraçamento de Artemiza? E a roda de violões, capitaneada pelo craque João Macacão, era de babar. A ponto de causar certa inquietação o momento em que uma das convidadas se levantou e disse que ia recitar uma poesia. Receio geral, aquele friozinho na barriga. Que se transformou em encantamento quando os versos de Mario Benedetti encheram a sala, com perfeito sotaque platino:

tus ojos son mi conjuro
contra la mala jornada
te quiero por tu mirada
que mira y siembra futuro
tu boca que es tuya y mía
tu boca no se equivoca
te quiero porque tu boca
sabe gritar rebeldía
si te quiero es porque sos
mi amor mi ccómplice y todo
y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.”

Pouco depois chegou outro ilustre morador do Butantã, mestre Toninho Carrasqueira, e sua flauta tornou o encantamento da noite quase palpável. A “Rosa” que ele tocou com o 7 cordas de João foi coisa de antologia. E voltei pra casa de madrugada, feliz como um pitecantropo que viu as estrelas antes de dormir.

Bethânia e Portuondo

O novo disco de Maria Bethânia, um dueto com a cubana Omara Portuondo, é mais um passo na direção do ideal estético perseguido pela baiana. Não é um disco de invenção, mas de tradição. É incrível como cada vez mais Bethânia soa refinada e elegante, sabendo utilizar recursos musicais quase minimalistas com sabedoria e densidade, fruto da perfeita parceria com o arranjador Jayme Além.

            Omara, grande dama da canção cubana, confessa ser fã da música brasileira, desde o início da carreira, nos anos 50. Embora seja mais conhecida como cantora de boleros (e o filme Buena Vista Social Club ajudou a difundir esta idéia), é muito mais que isso. Intérprete sutil, colore seu timbre maternal com nuances bossanovísticas de fina extração. Ostenta o violonista brasileiro Swami Jr. como arranjador de seus últimos trabalhos, o que elimina qualquer dúvida sobre sua identificação.

            O CD “Omara Portuondo e Maria Bethânia” é o encontro de dois rios musicais carregados de história e memória. Um encontro sereno, em que as águas vão se misturando com suavidade, até que não percebamos mais o que é cubano e o que é brasileiro. Duas das maiores potências musicais do continente (a outra é a norte-americana, claro) são exploradas dentro de um período específico, que é a década de 1950.

            O disco abre com duas canções de ninar (uma delas de Antonio Maria, Menino Grande) e alterna faixas solo e em dueto. Os sotaques dão um tempero divertido, quando as cantoras arriscam além da língua natal, mas é um detalhe que logo submerge perante a grandeza emocional do encontro.

            Se ainda for possível, nestes tempos tão saturados de sentidos e significados, tão cheio de hostilidades entre  latinoamericanos, tão sem respeito pela riqueza da tradição cultural que nos irmana, gostaria de roubar um tiquinho da elegância sintética das duas cantoras e dizer apenas… “que beleza!”.

ABC do Vinho

 

 

Pisa do Vinho

 

Finalmente o caminhão de uvas chegou. Seu Almeida lava os lagares, convoca os amigos, prepara a tina onde todos lavarão os pés antes de iniciar a pisa. O ritual envolve a comunidade, e todos chegam com algum petisco para acompanhar o generoso vinho da vindima anterior. Sobre a mesa vão sendo colocados os acepipes, que vão de um simples pão caseiro até iguarias como lingüiça de javali.

Esta cena poderia acontecer no Douro ou no Dão, certamente. Na verdade, se passa em S. Bernardo do Campo, no bairro do Taboão, quase na divisa com São Paulo. As uvas vieram do Rio Grande do Sul, e os participantes da pisa são membros da comunidade lusitana da região. O vinho é servido sem cerimônia e os participantes vão ficando alegres, até que um escorrega e afunda no lagar, entre risadas gerais.

Seu Almeida é apenas um dos mais de 60 produtores de vinho de S. Bernardo. Vem gente de longe comprar seu vinho do Porto. Boa parte dos vinicultores são italianos, que ali plantaram muita uva até a década de 30. Com a criação da represa Billings, o clima da região mudou e o plantio deixou de ser compensador. Hoje importam uvas do Sul, e muitas vezes dividem os custos do transporte, em esquema cooperativo. Promovem animados encontros mensais nas suas adegas e cantinas.

E quer saber? Tomei uns 5 copos, semana passada, quando fui ver a pisa, pela primeira vez. O vinho, feito com a uva Isabel, passou no melhor dos testes: acordei ótimo no dia seguinte!

 

Pisa

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