Arquivo de maio \26\UTC 2008

Cap. 6 – Saudades do Piauí!

Talvez tenha sido muito cruel com o Piauí, no último post. Na verdade, vou guardar uma ótima lembrança de lá: o melhor capote que já comi! O quê? Não sabe o que é capote? Guiné, tô-fraco, galinha d’angola. O mais saboroso bicho de pena da face da terra! Melhor que pato, marreco, faisão, galinha, codorna, perdiz, peru e outros bípedes emplumados. Gentileza da Mercês, do Sebrae, que encomendou o prato, por telefone, e nos levou ao Caseiro, um lugar que tínhamos evitado na véspera por causa dos urubus andando no meio fio, feito galinhas. Graças à experiência com as abelhas, consegui abstrair a presença das moscas, uma praga onipresente no Piauí em qualquer época do ano.

Aliás, visitar o Piauí na época das chuvas pode dar uma falsa impressão. Reparando bem, em cada paisagem bucólica e verdejante, está lá, firme, a presença da morte.

E por falar na Indesejada, lá pelas tantas paramos em frente ao cemitério de Picos. Uma espiada e um espanto: nunca vi tanto gato junto! Em cada túmulo um gato te fita, com olhos de guardião egípcio. Lugar estranho…

Uma boa surpresa foi o estado das estradas. Melhorou muito de 2006 pra cá. Na partida, caimos na real. Pegamos a BR-020 rumo ao Ceará, com asfalto bom até a divisa. Um palmo pra dentro do território cearense e voilá!, uma das piores estradas do país (tá no ranking das 10 mais esburacadas). Levamos três horas pra rodar 60 km, e realmente a estrada parecia um tapete. Aquele do muquifo onde nos hospedamos, em S. José do Egito.

Foi assim, um minuto depois de atravessar a divisa, que comecei a sentir saudades do Piauí…

Cap. 5 – Picos, a cidade do mel

Não se animem com o doce título. Picos (PI), é uma das cidades mais feias do mundo. Cheguei ao Piauí disposto a mudar uma opinião formada em 2006, quando atravessei o Estado e odiei. Sinto, picoenses, mas não mudei de idéia.

A primeira surpresa é o número de motociclistas nas ruas. Picos é a cidade com maior números de motos per capita do Brasil. Claro que ninguém anda com capacete nem tira habilitação. Fiscalização não existe. Ocorrem 3 ou 4 mortes por semana em acidentes. Famílias inteiras aposentaram o jegue, e vão às compras, à feira, ao cabelereiro, ao forró, ao raio que o parta, de moto. Não há dúvida, o Nordeste está mudando!

O prato típico é… adivinhem? Bode assado, claro. Felizmente alguns projetos de piscicultura deram certo, e encontramos um restaurante que servia umas tilápias bem razoáveis. Tucunaré “tem, mas acabou”, no dois dias em que fomos lá tomar umas brejas.

As chuvas de abril transformaram a paisagem rural, pintando os morros de verde e enchendo os baixios de água. Tivemos de cancelar duas cidades que estavam em nosso roteiro por estarem isoladas. Estas carnaúbas, na beira da estrada, não se lembram de terem ficado tanto tempo com os pés dentro dágua. Estavam todas resfriadas.

Mas nosso foco era a Casa Apis, ambicioso entreposto de mel que envolve várias cooperativas do Piauí e Ceará. Ali inspecionam, padronizam, corrigem e embalam mel em grandes quantidades. Como tem abelha no semi-árido! Só para os EUA a Casa exportou 6 toneladas em 2007. E a maior parte vai para o sul do país, meu chapa. Pode crer, há algo de piauiense dentro de você! Assim como o sal de Mossoró (RN), mas isso é outra história.

Já tentou filmar abelhas com uma câmera profissional de 13 kg, monitor e cabos? Lá nos informaram que as bichinhas ficam nervosas com as cores preta e vermelha (por isso o traje de apicultor é sempre branco). Bem, alguém mande a Sony ou a JVC fabricar uma câmera que não seja preta. Esquadrilhas se lançavam contra a lente com furor kamikase. E vestir aquelas roupas, numa temperatura de 38 graus, foi uma espécie de purgatório. Escapei da gravação, mas fotografei os bravos camaradas (e tomei uma bela ferroada).

E como fazem no tempo da seca? Migrações de abelhas. Neguinho cobre as colméias, num fim de tarde, com telas. Coloca todas em cima de um caminhão, também coberto com uma tela, e parte para o Maranhão, onde tem a florada X na beira do Parnaíba. Três meses depois migra para o Ceará, onde a florada Y vai começar. Aluga terras, cantos de fazenda, para colocar suas abelhas. E retorna para o Piauí quando começam as chuvas, no começo do ano. Mais de 600 km rodados, pra garantir a produção. Filmamos uma dessas migratórias, ou melhor, a partida de uma. O caminhão inteiro zumbe assustadoramente. Duvido que algum guarda rodoviário ouse inspecionar a carga!

Migratória

Na última vez que cruzei o sertão piauiense, há quase 3 anos,me deparei na beira da estrada com uma assombração chamada cobra voadora, que o borracheiro matou com uma chave de roda. Desta vez, encontrei essa fofurinha, que media mais de um palmo de envergadura. Adeus, Piauí!

Notícias do Sul

Sei que a intermitência dos posts deve ter afastado a maioria dos leitores, mas prometo recuperar o tempo perdido a partir desta semana. Estou em Porto Alegre, véspera de feriado, depois de passar 4 dias fascinantes no interior do estado. Pouca gente sabe o que é passear na Festa do Arroz de S. João do Polêsine, bravo município da Quarta Colônia, formado basicamente por descendentes de italianos. Até num vaneirão fui, além de participar da Feira do Livro de Santa Maria!

Sexta à noite volto à Sampa, se o ciclone subtropical que a tevê prenuncia não me alcançar antes. Devo ficar alguns dias, o suficiente para encerrar a saga nordestina e começar a Centro-Sul. Não agüento mais viajar com blusas e meias de lã socadas no fundo da mala, enfrentando o tal de veranico de maio e dormindo com o ar condicionado ligado (nos Pampas!). Quero vinho e queijo, chega de cerveja e batata frita!

Cap. 4 – No Pajeú

Tabira, 35 mil habitantes, centro regional que tem a maior feira de Pernambuco, depois de Caruaru. Feira de gado, de ovinos e caprinos, porcos, galinhas e perus.  Feira de horti-fruti que se estende por vários quarteirões. Feira de roupas e calçados, maior que qualquer feira livre de São Paulo. Tem até provador no meio da rua! Sem falar da invenção genial do jumentáxi, claro.

Em Tabira fica a sede da Ecosol-Pajeú, uma cooperativa de crédito agrícola, voltada para os pequenos produtores da região. Nascida dentro do Sindicato de Trabalhadores Rurais, tem associados em 4 municípios, que percorremos por seis dias. Afogados de Ingazeira, cidade grande, tem a última sala de cinema do Pajeú. Pegamos lá o maior temporal, e aproveitei pra fazer esta foto. Nordestino não pode ver água que fica doidinho…

Num domingo ensolarado, visitamos a encantadora cidade de Solidão. Pequenina, cercada de morros verdejantes (pelo menos nessa época do ano). Igreja dominando a paisagem, meia dúzia de ruas, cabras e carneiros passeando na praça. Zé Márcio, nosso câmera, resolveu dialogar com um carneiro, e acabou tomando uma carreira do ovino injuriado. Um berrava “Zéééé!”, o outro respondia “Béééé!”. Problema de sotaque.

O trabalho desenvolvido pela Ecosol-Pajeú, com poucos recursos, é exemplar. Financia pequenos agricultores e vem mudando a realidade econômica da região. Foi emocionante gravar o depoimento da agricultora Maria de Fátima, que depois de anos sustentada pelo marido Adalberto, vivendo mal de agricultura de subsistência (feijão, mandioca)  fez um empréstimo de 700 reais e realizou o sonho de criar galinhas. Comprou alguns metros de tela, umas poedeiras e um galo. Em dois anos, pagou o empréstimo, tem mais de 100 galinhas, ampliou e melhorou o espaço, vende ovos e frangos (“orgânicos!”, faz questão de frisar) na feira e hoje ganha mais que o marido. Auto-estima lá em cima, conta com os olhos brilhando que comprou um computador de segunda mão para a filha, só com o dinheiro das galinhas. Tomar um café na casa dela fez bem pra alma!

(Na foto acima, a sede da Ecosol-Pajeú, no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Tabira e região).

Cap. 3 – S. José do Egito

Depois de um pit-stop em Recife, trocamos de produtora. Sai Bombom e entra Edu, ou seja, a equipe agora é só de homens, para o bem e para o mal. Rumo ao vale do Pajeú, região do semi-árido pernambucano. Aquele mesmo, celebrizado por Luiz Gonzaga e Zé Dantas, que desagua no S. Francisco!

 

 A ocasião não era das mais propícias. Muita chuva, acessos interditados, lama, pontes caídas, comunidades isoladas. Por outro lado, paisagem verde, florida, gado gordo, povo feliz. Um Nordeste diferente do clichê conhecido pela maioria dos brasileiros. E portugueses, chineses, etc.

Chegamos numa sexta-feira em S. José do Egito, terra de cantadores e poetas, como o famoso Louro do Pajeú. Infelizmente, o melhor hotel da cidade estava lotado por duas bandas de forró que tocariam naquele fim de semana. O segundo melhor era um muquifo. O chuveiro era um cano saindo da parede. Frio, claro. Aliás, só veríamos água quente em hotel 25 dias depois, em Fortaleza.

Levantei às 5 da manhã de uma noite mal dormida, e perambulei pela cidade. Conheci o famoso Beco de Laura, com poemas inscritos na parede. Pouco depois, deparei com uma academia(!), que fiz questão de registrar. Achei o macximo!

 

Felizmente no dia seguinte conhecemos Cláudia, a presidente da cooperativa Ecosol Pajeú, pessoa extraordinária de quem falarei no próximo post. Ela nos salvou, indicando uma opção de pousada em Tabira, cidade a 35 km dali, importante centro regional. Naquela noite, na mesa de um boteco, incorporei o espírito do Pajeú e rabisquei um guardanapo para a produção, em São Paulo.

Das coisas em que acredito,
Trabalho, cachaça e pão,
uma que eu sempre repito
é viajar no sertão.
Fui pra S. José do Egito,
Pra quatro dias de agito,
Com três camarada bão.
 
Comemos muita poeira
Mas o hotel era um cu.
Fomos de manhã pra feira,
De tarde, pro Pajeú.
E tanta coisa bonita,
Nós gravamos nesta fita,
Dá pra encher um baú.
 
A Cláudia, muito porreta,
Pra Tabira nos levou.
Livrou-nos daquela treta
Que a produção colocou.
Depois disso, não arrisco
Pois a história desse disco
Ainda não terminou.
S. José do Egito, 05/04/2008.

Cap. 2 – Nem todo açúcar é doce

A usina Catende faz parte da história econômica de Pernambuco e do Brasil. Centenária, passou por diversas mãos durante sua existência. Nos momentos de esplendor, seu poderio econômico era tal que motivou a construção de uma linha de trem, só para transportar o açúcar até o porto de Recife. “Vou danado pra Catende, com vontade de chegar”, cantou o poeta Solano Trindade.

A usina era dona de vários engenhos, que se estendiam pelos municípios vizinhos. Visitei vários deles, entrevistando seus moradores, alguns de 3 ou 4 gerações ali nascidas. Quando estive lá a primeira vez, em 2006, aprendi que engenho é uma fazenda. Sei lá, na infância achava que era uma engenhoca, um maquinário de moer cana, e nem a leitura de Zé Lins do Rego me convenceu do contrário.

Durante quatro dias gravamos engenhos, canaviais e depoimentos. Os trabalhadores que hoje fazem parte da cooperativa que administra a usina demonstram orgulho por não terem patrão. É como se o fim da escravidão tivesse acontecido nos anos 90 do século XX, ou seja, anteontem. Não podiam plantar, criar ou estudar, no regime anterior. Seu Davi me disse que a plantação de cana ia até a janela da casinha dele (de taipa). Se cortasse um pé, havia punição.  Hoje ele cria galinhas, porcos, tem uma horta, um pomar com manga, cajá, banana, azeitona.

Azeitona?!? Me mostrou o pé, me fez provar. É como os nordestinos chamam aquela frutinha roxa-quase-negra que no Sul se chama jambolão…

 No segundo dia, acordamos às 4:30 h para acompanhar um corte de cana. A peãozada acorda cedo, almoça às 9 h, vai pra casa ao meio dia, pois ninguém agüenta trabalhar debaixo do sol pernambucano depois disso. Quer dizer, no tempo da escravatura (1980?) trabalhavam. E morriam cedo.

Hoje voltam pra casa, cuidam da horta, da criação, pescam um peixinho. Os mais jovens estudam, freqüentam lan-houses, usam Internet. A Cooperativa promove cursos profissionalizantes, estimula a produção diversificada (apicultura, piscicultura, floricultura, etc.).

No terceiro dia, gravamos a velha usina (veja foto no post “Uma Usina de Domingo”). Máquinas antiquíssimas, lembram cenários da Revolução Industrial na Inglaterra. Tudo funciona, graças à dedicação dos ex-empregados (hoje, “donos”, associados da Cooperativa Catende-Harmonia).

Hospedados na antiga “casa-grande”, sentávamos à noite na varanda e enfrentávamos com bravura os sapos gigantescos que subiam as escadas, atraídos pela luz e pelas muriçocas do tamanho de um beija-flor. Cururus de quase 1 kg, que fizeram a produtora jogar a toalha e abandonar a equipe quando voltamos a Recife.

(Tá, eu sei que a proposta de trabalhar no programa do Rappin’Hood na TV Cultura deve ter pesado na decisão da Bombom, mas os sapos tiveram forte influência.)

Cap. 1 – Chegada a Catende

O surgimento deste trabalho foi inusitado. Havia me desligado há três semanas do programa de TV, no inicio de março, e mergulhado na reforma da casa. Tudo deveria estar pronto para finalmente juntar os CEPs com a namorada, a quem vinha enrolando por 9 anos.

 

            Uma semana antes da mudança, toca o telefone. Quando desliguei, sabia que iria provocar uma crise conjugal. Voaria dali a 5 dias pra Recife, iniciando um périplo por mais de 4 mil quilômetros de sertão, com término em Fortaleza. Carmen fez a mudança sozinha, e nossa programada primeira noite sob o novo teto foi adiada por um mês…

            Pouso em Recife às 16 h do dia 30/03, aquela solidão no estômago provocada pela nutritiva ingestão de uma amostra de maxi-goiabinha e um Q-suco durante a viagem. Tente achar um restaurante aberto, às 5 da tarde, em Recife, e você perceberá que a herança cultural holandesa não permite tais liberalidades. Alugamos uma Dobló por trinta dias e pusemos o pé na estrada, rumo a Catende, depois de uma porção de batata frita no Centro Velho. A promessa de um jantar nos esperando no alojamento da Usina Catende, por telefone, nos animou a deitar o cabelo.*

            Claro que nos perdemos, e chegamos lá às 21 h. Antes, por infelicidade, atropelamos um tatu. Todos compungidos, certos de que o Ibama havia anotado a placa e nos intimaria a dar explicações no dia seguinte. Ao chegar na Usina, somente nós no tal alojamento. Quatro pratos no centro da mesa, cobertos com guardanapos, revelavam o golpe quase mortal: batata doce cozida, inhame cozido, banana da terra cozida e 4 ovos fritos. Há várias horas, claro. E moscas.

            Foi quando sugeri que voltássemos para a estrada e trouxéssemos o tatu para a janta. Se não fosse a falta de um bom cozinheiro, tenho certeza de que todos topariam a proposta.

           Fomos dormir com fome. Da próxima vez, levo um livro de receitas típicas no kit de sobrevivência!

*NA: expressão popular nos anos 70. Sempre quis usar num texto, mas quando eu tinha cabelo ainda não havia blogs…