Cap. 2 – Nem todo açúcar é doce

A usina Catende faz parte da história econômica de Pernambuco e do Brasil. Centenária, passou por diversas mãos durante sua existência. Nos momentos de esplendor, seu poderio econômico era tal que motivou a construção de uma linha de trem, só para transportar o açúcar até o porto de Recife. “Vou danado pra Catende, com vontade de chegar”, cantou o poeta Solano Trindade.

A usina era dona de vários engenhos, que se estendiam pelos municípios vizinhos. Visitei vários deles, entrevistando seus moradores, alguns de 3 ou 4 gerações ali nascidas. Quando estive lá a primeira vez, em 2006, aprendi que engenho é uma fazenda. Sei lá, na infância achava que era uma engenhoca, um maquinário de moer cana, e nem a leitura de Zé Lins do Rego me convenceu do contrário.

Durante quatro dias gravamos engenhos, canaviais e depoimentos. Os trabalhadores que hoje fazem parte da cooperativa que administra a usina demonstram orgulho por não terem patrão. É como se o fim da escravidão tivesse acontecido nos anos 90 do século XX, ou seja, anteontem. Não podiam plantar, criar ou estudar, no regime anterior. Seu Davi me disse que a plantação de cana ia até a janela da casinha dele (de taipa). Se cortasse um pé, havia punição.  Hoje ele cria galinhas, porcos, tem uma horta, um pomar com manga, cajá, banana, azeitona.

Azeitona?!? Me mostrou o pé, me fez provar. É como os nordestinos chamam aquela frutinha roxa-quase-negra que no Sul se chama jambolão…

 No segundo dia, acordamos às 4:30 h para acompanhar um corte de cana. A peãozada acorda cedo, almoça às 9 h, vai pra casa ao meio dia, pois ninguém agüenta trabalhar debaixo do sol pernambucano depois disso. Quer dizer, no tempo da escravatura (1980?) trabalhavam. E morriam cedo.

Hoje voltam pra casa, cuidam da horta, da criação, pescam um peixinho. Os mais jovens estudam, freqüentam lan-houses, usam Internet. A Cooperativa promove cursos profissionalizantes, estimula a produção diversificada (apicultura, piscicultura, floricultura, etc.).

No terceiro dia, gravamos a velha usina (veja foto no post “Uma Usina de Domingo”). Máquinas antiquíssimas, lembram cenários da Revolução Industrial na Inglaterra. Tudo funciona, graças à dedicação dos ex-empregados (hoje, “donos”, associados da Cooperativa Catende-Harmonia).

Hospedados na antiga “casa-grande”, sentávamos à noite na varanda e enfrentávamos com bravura os sapos gigantescos que subiam as escadas, atraídos pela luz e pelas muriçocas do tamanho de um beija-flor. Cururus de quase 1 kg, que fizeram a produtora jogar a toalha e abandonar a equipe quando voltamos a Recife.

(Tá, eu sei que a proposta de trabalhar no programa do Rappin’Hood na TV Cultura deve ter pesado na decisão da Bombom, mas os sapos tiveram forte influência.)

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4 Responses to “Cap. 2 – Nem todo açúcar é doce”


  1. 1 m sueli alves 18/01/2013 às 2:37 pm

    catende,minha cidade natal que saudade parabens pela matèria

  2. 2 Daniel Brazil 18/01/2013 às 4:17 pm

    Obrigado pelo comentário, Sueli! Estive duas vezes em Catende, gosto muito daquele lugar.

  3. 3 JOSE GERALDO PEREIRA DOS SANTOS 26/07/2013 às 9:26 pm

    EU JOSE GERALDO PEREIRA DOS SANTOS [TIBILIU] LI OS COMENTARIOS E FIQUEI MUITO EMOCIONADO,ES CORTADOR DE CANA DA DECLA 70 PARABENS PELO SEU TRABALHO,DO HENGENH0 NITEROI

  4. 4 Ayrton dias da paz 18/08/2015 às 12:55 pm

    Quando menino ,aos nove anos ,morava em Recife e o padrinho de um meu irmão Zé Ferreira , me levou para passar uns dias em sua casa ,que ficava num alto e de la eu ficava admirando os gansos voarem baixo na flor da água da lagoa que separava as casas da Usina . Pelo vídeo do Ultimo Vapor,deve ter sido gravado dessa casa ou de alguma casa vizinha ,pois é essa a posição aproximada da casa .Zé Ferreira era Chofer de um caminhão Ford,e viajava constantemente ao Recife para trazer óleo,gasolina e outros produtos necessários à usina,para manutenção da mesma ,Sinto saudades daquele tempo e de minha infância ,pois foi muito boa.Desejo muito sucesso para a cooperativa e seus compomentes .Que Deus ajude e os abençoe junto às suas famílias .
    .


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