Arquivo para junho \30\UTC 2008

Cap. 8 – Na terra de Iracema

Crepúsculo

O sertão do Ceará não é para amadores. Há mistérios em cada curva de estrada, em cada algodão refletido no céu, em cada decote de montanha. De vez em quando topamos com coisas que parecem impossíveis, mas que para os nativos são tão normais que ninguém liga, ninguém explora, ninguém transforma em cartão postal. Como estas pedras entre Tauá e Canindé. Quem empilhou essa porra? A física ou a metafísica?

Mas chegamos a Fortaleza, depois de 27 dias pelo sertão. Nosso tema aqui foram os bancos comunitários de micro-crédito, instigante experiência que fez um economista de Bangladesh, Muhammad Yunus, ganhar o Prêmio Nobel da Paz.

Banco Palmas

No Brasil, a coisa começou na periferia de Fortaleza, há dez anos, com o Banco Palmas. Emprestando pequenas quantias para comerciantes locais, formais ou informais, aqueceu a economia de um bairro carente, que hoje tem até moeda circulante local. É comum ver, em vários estabelecimentos, a placa “aceitamos palmas”. E não se trata de aplausos, mas da tal moeda.

No município vizinho de Maracanaú, conhecemos o Banco Paju, criado há apenas 15 meses. Também com moeda própria, o maracanã, já começa a transformar a vida do bairro, num trabalho de formiguinha. Como diz um ditado africano, “muita gente pequena, em muitos lugares pequenos, fazendo coisas pequenas, mudarão a face da terra”.

papel moeda

Mas a vida não é só ralação. Flanei por duas noites pelo Dragão do Mar, centro cultural de Fortaleza, lugar de barzinhos, cinema, teatro, música e atividades afins. Numa morna noite de sábado, acabei assistindo ao surpreendente show de uma cantora holandesa, Josee Koning, que num português perfeito cantou Jobim, Chico, Djavan, Bosco, Benjor et alia, acompanhada pelo ótimo violonista João Gaspar. Comprei o disco da moça, Bem Brasileiro, e recomendo!

Josee Koning

No domingo cedo, horas antes da partida, fazendo minha última caminhada pelo bairro de Iracema, conheci o encantador Mercado dos Pinhões, onde estava acontecendo um encontro de fotografia estenopeica, mais conhecida como pinhole. Crianças, adultos e malucos em geral se divertindo com as caixinhas mágicas de imagens. Que, no fundo, é o que fui fazer lá no Ceará, e reparto aqui com vocês.

mercado dos Pinhões

A cientista social(ite)

Às vezes lemos coisas brilhantes por aí, e dá vontade de divulgar. Bom, blog também serve pra isso! Quem escreve é o professor e lingüista Sírio Possenti, da Unicamp.

QUE ANALOGIA!

No sistema Lattes eu não achei nada sobre ela, mas o Google informa que Lúcia Hippólito é cientista política, historiadora e jornalista. Eu a ouvi bastante na véspera das eleições de 2006. Salvo engano, uma vez por semana, Jô Soares a levava, com mais três outras jornalistas, a seu programa de entrevistas para debater os fatos políticos. O quarteto tinha um nome, esqueci qual, mas sei que não era elogioso. Era discretamente machista. Agora, ela deita falação diária na CBN. É difícil encontrar “especialista” que insista tanto em lugares comuns.
Em geral, fica no seu tema. Mas, depois de algum tempo, deve sentir-se suficientemente à vontade para dar pitacos em áreas nas quais não se especializou, digamos assim. No dia 17/06/2008, falando com Heródoto Barbeiro, decidiu comentar seu estado de espírito durante o jogo Brasil X Paraguai: informou que esteve muito nervosa, que saiu de frente da TV, que não suportou ver o jogo da medíocre seleção do Dunga.
E, de repente, engatou um raciocínio que nem Freud explicaria. Decidiu que a escolha de Dunga para técnico da seleção brasileira se deve ao fato de Lula ter sido eleito presidente “sem nunca ter feito nada antes”! (Parênteses: se Lula não fez nada, como se poderia qualificar o que fez Lúcia Hippólito? Se ela tivesse feito na área dela o que Lula fez na dele, ela seria a principal historiadora, cientista política e jornalista brasileira hoje, reconhecida no mundo inteiro por seus pares).
O raciocínio dela é “brilhante”: Lula é presidente sem ter feito nada, e isso se traduz em decisões ruins em outras áreas: por exemplo, Dunga se torna técnico da seleção sem nunca ter treinado nenhum time, nem na sua rua. E Lúcia Hippólito, claro, pode tornar-se comentarista política, opinando sobre tudo, tudo, tudo – até sobre futebol.
Não sei bem o que ela sabe de política, dado que mais opina do que analisa, mas de futebol ela entende pouco. Poderia saber, por exemplo, que houve outros ex-jogadores que se tornaram técnicos das seleções de seus países sem antes (nem depois) treinarem time algum. Por exemplo, Beckenbauer só treinou a seleção alemã até hoje (e foi campeão do mundo em 90). E o treinador da mesma Alemanha na Copa de 2006, Jürgen Klinsmann, teve carreira parecida (só não foi campeão).
Pensando melhor, em política ela também comete erros banais. Desconheceu, em seu comentário, que Lula foi eleito e reeleito (pelo menos, sua reeleição se deu depois de ele ter sido presidente, salvo engano…). Em regimes democráticos, ser eleito deveria ser a principal credencial, para qualquer político. Ou será que ela também acha que o povo não sabe votar? A chegada de Lula à presidência não tem nada a ver com a de Dunga à seleção.
Ela também disse que a Dilma está no mesmo caminho: só dirigiu a Casa Civil e agora quer ser candidata a Presidente. Mas, dona Lúcia, ela não foi ministra de Minas e Energia no próprio governo Lula, antes de ir para a Casa Civil? E antes disso, não foi Secretária de Minas e Energia no Rio Grande do Sul? Foi, dona Lúcia, foi. E em dois governos: no de Alceu Collares e, depois, no de Olívio Dutra.
É claro que estudar é importante. Mas, como se pode ver, às vezes, não adianta nada.

(Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Lingüística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua e de Os limites do discurso.)

 

 

Cap. 7 – Nos Campos de Algodão

 

 

 

 

 

Casas Tauá

Tauá, sudoeste do Ceará. Bela região, com muita água, verde e montanhas. A cidade fica aos pés do Serrote do Quinamuiú, maciço de pedra que lembra as costas de um lagarto pré-histórico. Um baita calangão, como eles dizem…

Tauá

Além de sítios arqueológicos, com inscrições rupestres pré-colombianas, o lugar é conhecido também pela produção do algodão agro-ecológico. É essa atividade, de características familiares e artesanais, que fomos registrar, durante 5 dias.

 

O prato típico, como não poderia deixar de ser, é o carneiro assado. O mais famoso da cidade é o do Bar do Corintiano, cujo dono é um palmeirense. O cara voltou de São Paulo chamando todo mundo de “corintiano”, e o apelido acabou colando nele. Estivemos lá quando o Palmeiras ganhou campeonato paulista, e o local estava em festa. Porção dobrada de carneiro assado para todos! Na foto, um cidadão levando o almoço pra casa…

 

Visitamos várias plantações de algodão onde não é permitido o uso de nenhum tipo de defensivo químico ou agrotóxico. Isso significa que esquadrilhas de piuns, carapanãs, maruins, muriçocas, pernilongos, borrachudos e mutucas voam livremente, deixando marcas profundas em toda a equipe durante as gravações. Tomei uma ferroada de mangangá que me deixou com o braço doendo por 3 dias!

Nos Campos de Algodão

 

 

Em Tauá se inicia um dos mais ambiciosos projetos sociais de economia solidária do país: a Justa Trama. Uma cadeia produtiva formada por trabalhadores em empresas cooperativas e de auto-gestão, que prioriza a questão ambiental e a geração de emprego e renda.

Algodão em Tauá

O algodão produzido é enviado para o interior de São Paulo (Nova Odessa) onde vira fio.

Fiação

 

Depois passa por uma tecelagem em Santo André, e vai para duas cooperativas de costura, a Fio Nobre (Itajaí-SC) e a Univens (Porto Alegre-RS).

Costureiras

 

Além disso, há peças produzidas com sementes e tinturas artesanais produzidas por uma cooperativa de coletores de Rondônia! Um novo tipo de cadeia econômica, dedicada ao comércio justo, voltada para um público diferenciado, atenta às questões sociais e ambientais envolvidas. E as peças produzidas são lindas!

Modelos

Despedimo-nos de Tauá, rumo a Fortaleza. Em Canindé conhecemos aquele que, por unanimidade, foi escolhido como o boteco mais sórdido do planeta. Pense na coisa mais nojenta que você conhece, e parecerá limpinha perto daquilo! Não tirei fotos porque saímos correndo deixando cerveja em cima da mesa, coisa inédita nesta viagem!

 

Batizado do Boi

Escrevi sobre a Festa do Boi do Morro do Querosene aqui, e algumas pessoas ficaram curiosas sobre as datas do evento. Como expliquei, são festas móveis, relacionadas com datas cristãs.

Agora é vez do batizado do Boi, sempre realizado nas proximidades do São João. É a maior festa maranhense, e São Luiz fica lindamente enfeitada nesse período, marcado pelo som das matracas e dos pandeirões.

Em São Paulo a festa rola neste sábado,  21/06, das 14 horas às 24 h, aqui no Butantã. Se apresentam grupos de maracatu, ciranda, boizinho-de-cofo, o boizinho das crianças e, claro, o Boi do Morro do Querosene, capitaneado pelo cantor e compositor Tião Carvalho. O tempo está firme, e a festa promete. Estarei lá, claro. Enquanto isso, aprecie as lindas fotos do Tiago Silva!

Delícias da Língua 6

O governo tenta criar um novo imposto, o CSS (Contribuição Social da Saúde). Menos voraz que o antigo CPMF, morde apenas 0,1 % de cada cheque emitido, e ajuda a COAF a manter um certo controle sobre operações financeiras.

O interessante é que os governistas dizem:

– Trata-se de apenas zero vírgula um por cento!

William Bonner e a oposição esbravejam:

– São zero vírgula dez por cento!

0,10 % parece bem mais assustador que 0,1%, embora sejam exatamente a mesma coisa. Como 0,100 ou 0,1000 e assim por diante. Um pequeno truque lingüístico, que deve impressionar muitos incautos por este Brasil afora…

Pra não dizer que não falei de música!

De volta a São Paulo, corro para a banca de revistas do aeroporto, com crise de abstinência de cultura impressa. Um número especial da revista Bravo! me chama a atenção: “100 Canções Essenciais da Música Popular Brasileira”.

Não sou fã de listas nem da revista, mas de música brasileira. Gosto de ouvir, tocar e conversar sobre nosso maior patrimônio cultural. Sei que qualquer lista é uma escolha arbitrária, e provavelmente metade de uma lista deste porte poderia ser substituída por canções tão boas quanto. Mas arrisquei.

E fiquei indignado, claro. Tudo que é óbvio está lá, de Asa Branca a Chega de Saudade, passando por Carinhoso. O problema são as ausências e alguns desequilíbrios de escolha, que privilegia certos nichos da MPB e ignora outros.

Só pra ficar no samba, fica difícil engulir que Geraldo Pereira e Wilson Batista não estejam na lista. Como João Nogueira cantou certa vez, os três maiorais do gênero são Wilson, Geraldo e Noel. Só discordo da ordem, pois coloco Geraldo em primeiro. Estranhamente, o autor de Falsa Baiana, Escurinho e Escurinha não foi sequer lembrado.

Há quem suspeite de certo racismo no fato de que o branquinho aí de cima ser sempre mais lembrado que os dois crioulos. Mas Noel era bamba, sem dúvida, embora um samba meio repetitivo como Com Que Roupa – que está na tal lista – não chegue aos pés de um Pra Que Mentir (parceria com Vadico), que não está.

Outro craque, Ataulfo Alves, entra só com a famosa Amélia. A suspeita de branqueamento surge quando vemos a foto de Mário Lago encabeçando o comentário, que se refere muito mais à letra que à música.

Dois dos meus sambas preferidos, Antonico (de Ismael Silva) e Chuvas de Verão (Fernando Lobo), não mereceram lembrança. Assis Valente, imortal autor de Camisa Listrada e Brasil Pandeiro, só foi considerado essencial por causa de O Mundo Não Se Acabou. Paulinho da Viola comparece com duas unanimidades, mas uma é seu mais famoso não-samba, Sinal Fechado. Wilson Moreira, Nei Lopes, Elton Medeiros ou Candeia não fizeram nada de essencial, pelo jeito.

Mas samba é coisa de preto, mesmo. A revista anuncia uma lista de MPB, aquela coisa meio indefinida, mais intelectual, mais cult, certo? Pois Milton Nascimento, autor de obras primas como Travessia, San Vicente e Saudade dos Aviões da Panair, só entra na lista por uma parceria com Chico Buarque (O Que Será?). Benjor não é essencial. Tim Maia, só como cantor. E Luiz Melodia ficou de fora! Hummm…

Chico tem dez indicações, e é o recordista, ao lado de Tom Jobim. Caetano tem quatro, Gil duas, e ambos tem uma parceria (Panis et Circensis). É duro destacar as dez melhores do Chico, reconheço, mas deixar Gota Dágua, Geni e Atrás da Porta de fora para a entrada de Todo o Sentimento, Leve (parceria com Carlinhos Vergueiro) e A Banda deve gerar muita briga no boteco. Convenhamos, a Banda tem um valor histórico inestimável, mas Chico evoluiu muito depois disso, e fez canções bem mais elaboradas.

Ah, mas todo mundo sabe cantar a Banda, podem argumentar alguns. Então, porque Aurora, A Jardineira e Mamãe Eu Quero não estão na lista? O que é ser “essencial”, afinal?

As canções contemporâneas, de caráter mais pop, devem causar arrepios nos tradicionalistas. Claro que é muito mais fácil escolher canções consagradas pelo tempo que as que estão em processo de sedimentação na cultura brasileira. Sou menos chato com estas escolhas, e acho mesmo que Lulu Santos, Blitz e Herbert Vianna fizeram canções memoráveis. Sim, são aquelas mesmas que você está pensando nesse momento: Como Uma Onda, Você Não Soube Me Amar e Óculos. Mas porque o Vira, dos Secos e Molhados, é mais essencial que Sangue Latino ou Rosa de Hiroshima?

E o sertão, o imenso latifúndio musical que está impregnado na alma de milhões de brasileiros, no campo ou na cidade? Bem, está lá o Luar do Sertão. Assum Preto marca a influência nordestina. No Rancho Fundo mescla viola e MPB. Surpresa tive com o Drama de Angélica, deliciosa canção satírica de Alvarenga e Ranchinho. Creio que Romance de Duas Caveiras é bem mais conhecido, não? E outros essenciais não foram nem lembrados, como Angelino de Oliveira ou Renato Teixeira. Dos modernos, Almir Sater, mas só como intérprete da canção Cruzada, de Tavinho Moura e Márcio Borges.

Aliás, Zezé de Camargo não é essencial pra entender um certo Brasil? Registro que não curto as músicas do cara, assim como não suporto pagode, axé ou funk carioca, mas é inegável que ele faz parte da trilha musical brasileira nos últimos 20 anos. Afinal, não se trata de uma lista das minhas preferidas, certamente.

Diz o Houaiss que essencial é o “que constitui o mais básico ou o mais importante em algo; fundamental”. Pensando bem, nenhuma lista é, no fundo, essencial.