Cap. 8 – Na terra de Iracema

Crepúsculo

O sertão do Ceará não é para amadores. Há mistérios em cada curva de estrada, em cada algodão refletido no céu, em cada decote de montanha. De vez em quando topamos com coisas que parecem impossíveis, mas que para os nativos são tão normais que ninguém liga, ninguém explora, ninguém transforma em cartão postal. Como estas pedras entre Tauá e Canindé. Quem empilhou essa porra? A física ou a metafísica?

Mas chegamos a Fortaleza, depois de 27 dias pelo sertão. Nosso tema aqui foram os bancos comunitários de micro-crédito, instigante experiência que fez um economista de Bangladesh, Muhammad Yunus, ganhar o Prêmio Nobel da Paz.

Banco Palmas

No Brasil, a coisa começou na periferia de Fortaleza, há dez anos, com o Banco Palmas. Emprestando pequenas quantias para comerciantes locais, formais ou informais, aqueceu a economia de um bairro carente, que hoje tem até moeda circulante local. É comum ver, em vários estabelecimentos, a placa “aceitamos palmas”. E não se trata de aplausos, mas da tal moeda.

No município vizinho de Maracanaú, conhecemos o Banco Paju, criado há apenas 15 meses. Também com moeda própria, o maracanã, já começa a transformar a vida do bairro, num trabalho de formiguinha. Como diz um ditado africano, “muita gente pequena, em muitos lugares pequenos, fazendo coisas pequenas, mudarão a face da terra”.

papel moeda

Mas a vida não é só ralação. Flanei por duas noites pelo Dragão do Mar, centro cultural de Fortaleza, lugar de barzinhos, cinema, teatro, música e atividades afins. Numa morna noite de sábado, acabei assistindo ao surpreendente show de uma cantora holandesa, Josee Koning, que num português perfeito cantou Jobim, Chico, Djavan, Bosco, Benjor et alia, acompanhada pelo ótimo violonista João Gaspar. Comprei o disco da moça, Bem Brasileiro, e recomendo!

Josee Koning

No domingo cedo, horas antes da partida, fazendo minha última caminhada pelo bairro de Iracema, conheci o encantador Mercado dos Pinhões, onde estava acontecendo um encontro de fotografia estenopeica, mais conhecida como pinhole. Crianças, adultos e malucos em geral se divertindo com as caixinhas mágicas de imagens. Que, no fundo, é o que fui fazer lá no Ceará, e reparto aqui com vocês.

mercado dos Pinhões

Anúncios

10 Responses to “Cap. 8 – Na terra de Iracema”


  1. 1 Vidotto 05/07/2008 às 2:25 am

    Daniel,
    Sua falta de erudição impressiona. Quem empilhou as pedras foi um pessoal que fugiu nadando pelo Canal do Paraná e se amontoou mais tarde na Ilha da Páscoa, onde verticalizaram e antropomorfizaram as pedrinhas.
    Mas o assunto é outro. Como professor de Economia Monetária (veja lá na Plataforma Lattes meu magro currículo – aquilo serve para se ver titulação, atividade docente, produção técnica, artística e científica de qualquer um, essas coisas) me interessei pelas moedas que você mencionou, a palma e o maracanã. Queria mais detalhes: quem emite, quais as regras de emissão, qual volume, onde circula e por quem é aceita, se a emissão é perpétua, essas coisinhas. Tendo como encaminhar para a fonte apropriada, agradeço.
    Aquele abraço!

  2. 2 Daniel Brazil 06/07/2008 às 11:49 pm

    No próprio site do Banco Palmas há uma boa explicação sobre o funcionamento da moeda local circulante.
    Vá direto aqui:
    http://www.bancopalmas.org.br/oktiva.net/1235/secao/10043%5D

    Esse pessoal que você se refere aí devia ser louco de pedra, não?

  3. 3 Cristina 07/07/2008 às 10:45 pm

    Agora que você falou dessa pedras empilhadas é que me dei conta. Acho que os ancestrais cearenses eram dados a empilhar pedras. No sertão da minha família, existem cachoeiras e “piscinas” feitas de pedras empilhadas. Como eu cresci vendo isso… Numa das últimas vezes que lá estive, encontrei umas escrituras nas pedras, desenhos, até fotografei. Fiquei até nervosa porque eu nunca pensei que no meu sertão tinha havido pessoas mais antigas do que meus velhos parentes. 🙂

    Da próxima vez que for à Fortaleza e for no Dragão do Mar, conheça o samba que acontece lá, dentro do restaurante chamado Amici’s (eu acho que é assim que escreve). Lá nada há de morno. Aliás, morno que você disse foi de calor ou de desânimo?

    Beijo,

  4. 4 Daniel Brazil 08/07/2008 às 3:23 am

    Minina, eu estive lá na noite anterior (não disse que foram duas?). Tava morno porque, sei lá, era final de abril, pouca gente, uma sexta feira estranha. Uma cantora com bom repertório e ótima voz, cantando standards da MPB, para um público mais interessado em conversar e mastigar batatas fritas. Nada muito diferente de dezenas de outros bares por este Brasil, acho. Bati no dia errado.
    Os bêbados do Isaac Cândido e do Marcus Dias, estes sim, fazem a diferença. Pena que não estavam lá, naquela noite… Gostei de ver a letra de “Bêbados” no teu blog. Tenho o CD, é ótimo!

  5. 5 Cristina 09/07/2008 às 1:24 am

    eu digo, menino, sábado de noite, no dragão, tem samba, não sexta. sexta é dia de botequins no bairro do benfica, que é o que você iria apreciar. morro de gastura de quem vai pra Fortaleza sem antes falar com um nativo que se preze, no caso, eu. 🙂 porque as melhores coisas das cidades são as coisas apreciadas por nativos que se prezem, que não são muitos, mas bons. 😛

  6. 6 Daniel Brazil 09/07/2008 às 1:48 am

    Pois é, acho que falei com um nativo que não se prezava. Patriotas equivocados existem em todas as latitudes…

  7. 7 antonia 01/10/2008 às 12:33 am

    olá, adorei ler sobre a cidade em que nasci…Tauá!!!

    O corintiano é uma figura!
    Eu o conehço, sou sobrinha da cunhada dele!!!!!
    As pedras empilhadas também são bem conhecidas…deveria ter conhecido um local chamado porão, é uma espécie de cachoreira. Existem várias lendas sobre o local!

    Ah também conheço do Centro cultural Dragão do Mar, acho q não teve sorte mesmo…no único dia em que fui estava super animado!

    um abraço!!!

  8. 8 Daniel Brazil 01/10/2008 às 12:45 am

    É, Antonia, Tauá é bem simpática. E o Serrote é incrível, impressionante!

  9. 9 Francisca 01/10/2008 às 12:49 am

    Oi tudo bem? eu conheço o corintiano ele é irmão do meu cunhado.
    Em dezembro eu vo la comer um baião de dois com carneiro assado.
    Um abraço.

  10. 10 Daniel Brazil 01/10/2008 às 4:54 pm

    Que beleza! Coma um pedaço por mim, Francisca.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s




Arquivos

Anúncios

%d blogueiros gostam disto: