Arquivo para outubro \16\UTC 2008



As hortas circulares de Muqui

Um dos lugares mais curiosos por onde passei este ano foi a cidade de Muqui, no Espírito Santo, vizinha de Cachoeiro do Itapemirim. Pequena estação de trem (desativada) encravada na região montanhosa que separa o ES de MG, tem bela arquitetura do começo do século XX. Muita fazenda de café nas redondezas, gado, belas montanhas.

Programa de índio feliz: acordar bem cedo, pegar a estradinha de terra que vai dar no Vale da Aliança e deparar com essa paisagem.

No vale conheci uma comunidade de assentados do MST. Tomei café com mandioca frita na casa do Nô, conheci Dona Lourdes e seu “filho adotivo”, um bezerro órfão que a segue por toda parte.

Foi lá que conheci hortas em forma de mandala, projeto agroecológico familiar desenvolvido pelo agrônomo senegalês radicado no Brasil Aly N’Diaye. No meio tem um galinheiro, e os restos de horta alimentam as galinhas, cujo esterco aduba a horta. A irrigação por gotejamento é o jeito mais econômico de uso da água, e o projeto (financiado pelo Sebrae e Fundação Banco do Brasil) é um sucesso em todo lugar onde foi implantado. A própria Prefeitura compra a produção das hortas e distribui na merenda escolar.

Garotada comendo verduras orgânicas, produtores diversificando sua produção e com o retorno garantido. É tão simples que não dá pra entender como não se pensou nisso antes. Einstein está certo, confira!

Depois de 5 dias, nos despedimos de nosso cicerone, o agrônomo Luis Bettero (grande figura!) e pegamos a estrada para o outro lado da divisa. Minas Gerais, próxima etapa!

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Rato ou artista?

Isso aí apareceu grafitado num muro do Butantã, por onde passo diariamente. Na primeira vez, ri. Na segunda, fiquei pensando de onde conhecia essa frase. Na terceira, lembrei do verso de Chico Science: “computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro”.

Ratos é mais provocativo. Lembrei de John Steinbeck, Ratos e Homens, leitura de adolescência. Parece que ninguém mais lê Steinbeck, hoje em dia. Me veio Maus, do Art Spiegelman. Art de artista, claro. O homem se olha no espelho e vê um artista. Como ninguém é obrigado a saber alemão, explico que spiegel é espelho na língua de Goethe e Beckenbauer.

Remy, protagonista do Ratatouille, aprovaria a primeira sentença grafitada.

Um artista pobre é um homem ou um rato? Van Gogh nunca vendeu um quadro na vida. No mundo midiático moderno, não seria um artista. Artista é quem tem o nome no jornal, aparece na TV, dá entrevistas, expõe em galerias, faz vernissages…

Pra ostentar o título de “artista” o sujeito precisa viver de arte? Se ele for bancário, dentista ou zelador e tira seus rendimentos da profissão, não é artista? Um mero diletante? Ou pior, aspirante?

O grafiteiro se considera um rato ou um artista?

O guarda-noturno me surpreende com nova leitura: “Rato é muito arteiro, sim senhor! Tem cada um de noite, precisa ver o que eles fazem!”

Quase pergunto pra ele se grafitam muros. Voltei pra casa com mais essa interrogação.

Mas tem gente que passa todo dia por aquele muro e não enxerga. E deve ter menos dúvidas que eu.

Einstein e a política

Fui ver a exposição do Einstein, no Ibirapuera, que recomendo até pra quem tem pavor de Física.Tem coisas fascinantes, que até um ignorante como eu consegue apreciar.

No meio, uma frase me chamou a atenção: “Não há absolutamente nenhuma boa idéia na política. As idéias são todas óbvias; o único problema é fazer com que as pessoas as coloquem em prática.” (A. Einstein).

O cientista, pacifista, pensador e quase-músico Albert pode parecer ingênuo, mas bobo não era.

Cartola, 100 anos

Cartola

Neste ano de tantos centenários, este me toca particularmente. Cartola faria 100 anos, se vivo estivesse. Hoje, 11 de outubro, em muitas rodas de samba seu nome será lembrado, suas canções entoadas. Em muitas rádios, lares, bares, restaurantes e hotéis finos também, pois sua música esbanja elegância, e vai do terreiro ao Municipal dissolvendo limites e preconceitos.

Era estudante secundarista quando tive a oportunidade de ver e ouvir Cartola, no velho colégio Equipe, em São Paulo. O teatro era pequeno para tão grande figura, e o palco foi armado na quadra, a céu aberto. Além de um grupo de bambas da Mangueira, outro nome dividia o palco naquela noite: Nelson Cavaquinho. As Rosas Não Falam, na época trilha de novela, foi cantada com intensidade pela jovem platéia, emocionando o velho compositor.

Nunca mais vi os dois gênios, mas me acompanham até hoje, fazem parte da trilha sonora de minha vida. E se pudesse voltar no tempo e rever um único show, dos tantos que presenciei, escolheria esse.

Muitos anos depois, em 2002, participei de um projeto com um grupo de adolescentes da periferia de São Paulo. O grupo Teatro de Sombras, dirigido por minha amiga Rita Coelho, montou um lindo espetáculo chamado A Luz de Cartola. Vários amigos ajudaram, desde ótimos músicos que tocaram de graça, até o pessoal da ViaTV, que cedeu o espaço e montou um circo com arquibancadas no seu próprio quintal, no Butantã. Ver aqueles garotos encenando e cantando a vida de Cartola foi um sinal de que nem tudo estava perdido.

E cada vez que ouço um samba de Cartola, até hoje, surge a alvorada.

As pernas de Solidão

O real às vezes é surreal. Espie só a crise econômica e compare com a situação de um mês atrás.  Em que mundo vivíamos mesmo?

O velho Mark Twain já se perguntava  “Por que a verdade não seria mais estranha que a ficção? A ficção, afinal, tem que fazer sentido.”

Suponha que eu escrevesse a história de um sujeito que se perde no sertão de Pernambuco e vai parar numa cidade chamada Solidão. São 7 horas da manhã de domingo, e apenas algumas cabras passeiam em frente à igrejinha. De repente ele se arrepia ao ver um par de pernas, desacompanhadas de qualquer corpo, no meio da praça.

Se fosse ficção, pareceria inverossímil. Mas a verdade existe para ser provada. Aqui está Solidão:

E aqui estão elas. Não as cabras (que já mostrei num post de maio de 2008), mas as pernas..

Pernas

Balanço

Depois de votar, dia 5 de outubro, fechei o boteco pra balanço. Meu ano termina aqui, e outro se inicia. Não sigo o calendário gregoriano, muito menos o juliano. É o meu próprio, intransferível e inutilizável por outras pessoas.

Passei por dez estados. Dormi mais de 130 dias fora de casa. Voei e transitei um monte. Rodei mais de 4 mil quilômetros por pampas, serras e sertões. Conheci cidades estranhas, gente esquisita, lugares apaixonantes. Sem contar as que apenas atravessei, posso dizer que respirei fundo, tomei uma cerveja, espiei o movimento, fiz xixi, tirei fotos, almocei, comprei alguma coisinha e eventualmente dormi algumas noites em São José do Egito (PE), Santa Maria (RS), Picos (PI), Muqui (ES), São Roque de Minas (MG), Tabira (PE), Itajaí (SC), São José dos Campos (SP), Tombos (MG), Solidão (PE), Tauá (CE), Joinville (SC), Porto Alegre (RS), Ilhabela (SP), Catende (PE), Campos do Jordão (SP), Maracanaú (CE), São João do Polêsine (RS), Palmares (PE), S. João Del Rey (MG), Cachoeiro do Itapemirim (ES), Fortaleza (CE), Jacareí (SP), Porciúncula (RJ), Laguna (SC), Canoas (RS), Canindé (CE), Piunhy (MG), Afogados do Ingazeira (PE), Recife (PE), São Sebastião (SP), Vitória (ES), etc. Este ano não visitei ainda a Bahia e o Rio de Janeiro, como em 2007. Não respirei ares amazônicos. Faz falta.

Deixei de citar algumas cidades óbvias da Grande São Paulo, principalmente na região do ABC, onde trabalhei no primeiro semestre. Faz tanto tempo! Foi no ano passado, antes de 5 de outubro…

Amigos dizem que eu devia escrever mais. De que jeito? Comprei até um notebook, depois de muita resistência, mas o coitado acabou entupido de trabalho. Porém tomei uma resolução de ano novo: Nos próximos dias farei um resumo das últimas viagens. Não será um resumo comum, claro. Aquele jovem anarquista ainda vive e esperneia dentro deste velho anarquista!

Fotografando varais

O bom de rodar pelo mundo é que você sempre encontra uns malucos que valem a pena conhecer. Mês passado, em São José dos Campos, encontrei o Lucas Lacaz Ruiz, ótimo fotógrafo.

Em plena campanha eleitoral, equipe correndo pra gravar evento com candidato, e ele: “Pára o carro! Preciso fazer uma foto!”. E clic! num varal de roupa da periferia. Todo mundo xingando o cara.

Lucas tem várias fotos de varais. Conversando, lembrei de um varal que fotografei, em 2005, às margens do rio Tapajós. Ele adorou. “Posso mandar pro Cláudio Versiani?” Versiani mora em Nova York, e tem um monte de prêmios no currículo. E também curte varais.

Foi aí que descobri que existe um clube de fotógrafos do mundo inteiro que fotografa, coleciona e publica fotos de varais. E, pasmem, tem cada foto de cair o queixo. Lindíssimas! De Portugal, do Panamá, do Everest, do Saara, de Salvador, do Oriente, de praia, de montanha, de metrópole, de cortiço, de presídio…

Confira algumas aqui, na revista PicturaPixel. E tem mais no Varal de Idéias. Dá até pra cantarolar os versos de Orestes Barbosa, enquanto espia:

“Nossas roupas comuns dependuradas/na corda, qual bandeiras agitadas,/ parecia um estranho festival/ festa de nossos trapos coloridos/ a lembrar que nos morros mal vestidos/ era sempre feriado nacional.”

Ah, a minha foto, feita com máquina amadora por fotógrafo idem, é esta aqui. A natureza ajudou, felizmente.

Paisagem com Varal

Paisagem com Varal


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