Arquivo para novembro \30\-02:00 2008

Uma casa de domingo

Uma casa feita de milhares de pedacinhos de louça, de cerâmica, de vidro, de plástico, de metal, de materiais encontrados no lixo. Uma casas feita de curvas, degraus, cavidades,  abóbadas, colunas e clarabóias, que é também coberta de plantas que se entremeiam com as linhas orgânicas da arquitetura. São oito metros de altura, distribuídos por 75 metros de terreno em aclive.

Casa Enfeitada

“Parece Gaudí!”, dizem os estudantes de arquitetura. Mas Estevão, o morador-construtor-artista, nordestino que veio para São Paulo tentar a vida em 1985, nunca ouvira falar do genial catalão.

Quando conseguiu um canto na favela de Paraisópolis, começou a construir a casa de seus sonhos. Chamada pelos vizinhos de “Castelo do Estevão” ou “Casa Enfeitada”, virou atração turística. O discreto Estevão, que é zelador e jardineiro, hoje recebe visitas de gente de todo mundo. Só foi entender realmente a comparação com Gaudí quando uma fundação espanhola o convidou para visitar as obras do mestre, em Barcelona. No Parque Güell, lhe perguntaram: “Não é parecido?” Estevão coçou a cabeça e disse, com seu sotaque do interior da Bahia: “Rapaz, num é que é mesmo?”

Casa Paraisópolis

A obra nunca parou, em mais de 20 anos. Está sendo sempre retocada, ampliada, burilada. Estevão continua morando lá, com a mulher Edilene e dois filhos, e cobra 5 reais pela visitação. Trabalha num prédio chique do vizinho Morumbi, igual a centenas de outros. mas dorme toda noite com certeza de que a casa que construiu é única. O teto de seu quarto é estrelado. Como serão os sonhos um homem que constrói uma casa assim?

Casa Estevão

Santa Katrina

Joinville

Dói o coração ver as imagens do dilúvio em Santa Catarina, principalmente Joinville e Itajaí, cidades onde estive em 2008. Às cenas de destruição, surpresa e dor dos primeiros dias, somam-se agora as de desespero, fome e saque em supermercados. Começam as acusações de praxe entre políticos, no momento em que deveriam unir esforços.

Para a oposição, a culpa é de Lula, claro. Não duvido que a revista (In)Veja faça matéria de capa acusando Brasília de todos os males causados aos catarinenses. A falta de seriedade e o denuncismo vazio do decadente semanário, infelizmente, mais contribuem para a confusão geral do que para esclarecer qualquer coisa.

Há poucos dias falei aqui de Itajaí, antes da tragédia. Mostro agora uma imagem de Joinville, esparramada à beira da baía da Babitonga. É fácil notar que esta planície à beira dágua, cortada por rios, pode ser facilmente invadida pelas águas. Não entendo de engenharia, mas os governos locais deveriam procurar soluções “holandesas”, não? Os chamados Países Baixos tem vasto know-how no assunto, e desde que me conheço por gente ouço falar do problema das enchentes em Santa Catarina. Que tal – todos os governos! – investirem nisso antes que passe a se chamar Santa Katrina?

Na Quarta Colônia

A penúltima etapa de minha viagem pelo Brasil, visitando cooperativas e experiências de agricultura familiar, foi no interior do Rio Grande do Sul. Ficamos em Santa Maria, centro geográfico do estado, que tem ótima infra-estrutura e bons hotéis. Ali perto fica a chamada região da Quarta Colônia, última das terras devolutas do Império onde se fixaram os imigrantes italianos, em 1877. Hoje está dividida em sete municípios, cuja economia é essencialmente agrícola, com forte potencial turístico.

Diferente da Serra Gaúcha, aqui predominam os vales, propícios ao plantio do arroz.

Arrozal

De Santa Maria em 30 minutos chegamos em São João do Polêsine, onde visitamos o Empório Giacometti, cooperativa familiar que fabrica embutidos, doces e biscoitos maravilhosos.

Confeiteiras

Cruzar as estradas da Quarta Colônia, no mês de maio, é parar o carro a cada quilômetro, deslumbrado com as paisagens. Um Brasil que poucos conhecem, e confundem com paisagens européias. Mas é aqui mesmo, ali pertinho (bem… pertinho dos gaúchos!). Recomendo uma visita ao Vale Vêneto, lindo.

Paisagem com plumas

Boi pastando

Campo Amarelo

Carroça de Arroz

Ponte

Rodamos na região por quatro dias. Em pleno sábado, na estradinha que leva ao distrito de Arroio Grande, topamos com uma cantina, aparentemente vazia. Hora do almoço, tocamos a campainha. Quando a porta se abriu, vimos um salão lotado e uma italianinha passando com uma polenta fumegante desse tamanho debaixo de nosso nariz. Parecia cenário de filme!

Cantina Pozzobon

Frontispicio

Ainda participamos da Festa do Arroz, em São João do Polêsine, em comemoração ao fim da colheita, com comes, bebes e eleição da Rainha e da Princesa do Arroz. Haja risoto!

Encontros com Einstein

Este sábado fui ao Ibirapuera. Não para passear no parque, lugar que conheço bem pois, além de freqüentar desde a infância, trabalhei lá durante alguns anos.

Na verdade fui pela segunda vez à bela exposição dedicada a Einstein, que acompanhei desde o início. A mulher que namoro há dez anos, Carmen Prado, é consultora científica do evento, e mesmo eu estando distante a maior parte do tempo (relativo, como diria doutor Albert), me punha a par do planejamento, execução e montagem da exposição.

No meio do caminho, um fato surpreendente. Um venerável professor do Instituto de Física da USP, Walter Wrezinski, se aposentou e em 2008 voltou para a Europa. Ao partir, doou algumas coisas para o Instituto. Entre elas um retrato de Einstein, que ficou jogado num canto por um bom tempo. Quando abriram o pacote, tentaram descobrir a origem.

Wrezinski contou que um tio-avô foi amigo de Einstein, e o retrato lhe foi presenteado pelo próprio. Quando chegou ao Brasil, fugindo do nazismo, trouxe a lembrança na bagagem.

Esse tio é Ernst Mehlich, que se tornou o primeiro diretor da Orquestra Sinfônica de S Paulo, e foi professor de muita gente no meio musical, entre 1930 e 1950.

O retrato, um bico-de-pena, tem essa assinatura…

jahn…que reproduzo com esperança de que alguém descubra de quem se trata. Fará parte agora da exposição brasileira do Einstein. Este blog, por uma feliz conjunção de acasos (“Deus não joga dados!”) mostra ao mundo um retrato inédito do maior cientista do século XX.

Einstein

Mas falava de Carmen, e ela palestrou sobre movimento browniano, fractais e caos. Eu, pobre estudante de Humanas, pela primeira vez, tive uma percepção do que são aquelas fascinantes formas geométricas que nos encantam quando vemos reproduzidas em livros ou na Internet. São fórmulas matemáticas representadas graficamente! E na representação, como acontece com geógrafos, astrônomos ou biólogos, as cores são arbitrárias, definidas pelo cientista-artista.

fractal

Eu, ignorante confesso das coisas da Física (apesar do esforço de minha mulher em tentar me desenburrecer), declaro-me abismado perante tantas maravilhas. E modestamente orgulhoso por publicar, em primeira mão, o retrato do pacifista, humanista e cientista, Dr. Albert Einstein.

Art-déco no sertão

Meu amigo Helion Póvoa envia um link muito interessante, de uma revista de arquitetura, meio ambiente e políticas públicas, a Vivercidades.

Geógrafo e profundamente interessado em deslocamentos humanos e seus desdobramentos culturais, me chama a atenção para uma reportagem sobre o art-déco nordestino. No final da matéria, me deparo com essa foto surpreendente, dos anos 40.

Cine Pajeú

Surpreendente pra mim, claro. Em abril deste ano estive em Afogados do Ingazeiras, na região do Pajeú, e fiquei apaixonado pelo único cinema da região, o São José. Confesso que não me lembro se me impressionou mais a arquitetura ou o fato de encontrar ainda um cinema em atividade no meio do sertão. De qualquer modo, registrei a fachada do prédio.

Cine São José

A cultura, este quase indefinível patrimônio universal dos povos, permite que construamos pontes e passagens em cenários que passam inadvertidos para muita gente. E o carioca Helion nunca imaginou que seu amigo sotero-paulistano iria encontrar na matéria francesa-pernambucana uma janela aberta na memória recente, misturada com lembranças de uma vila paulistana projetada por Flávio de Carvalho na década de 30…

Vila Flávio de Carvalho

…onde Mário Kuperman, cineasta-escritor que merece ser mais lembrado, abriu as portas, na década de 80,  para um grupo de jovens que sonhava em fazer cinema, do qual eu fazia parte.

E, como as janelas da alma são mais que duas, me lembrei também de um número da excelente revista espanhola El Paseante, também dos anos 80, onde fotografias de Anna Mariani, com texto de Caetano Veloso, retratavam casas populares nordestinas de composição geométrica absolutamente… art-déco! Um número dedicado ao Brasil, que tenho guardado em alguma caixa, sob o telhado da memória e também no sótão real, aqui em cima de onde escrevo, no Butantã.

Obrigado pela viagem, Helion!

O dicionário do mestre Cascudo

Dicionario

Aproveitei uma feira de livros na Usp, semana passada, e realizei um pequeno sonho de muitos anos, um presente de Natal antecipado. O Dicionário do Folclore Brasileiro, do Câmara Cascudo.

Sopeso o volume de 770 páginas e folheio, aspirando o cheiro de livro novo, como se pudesse assim absorver as sabedorias que existem ali dentro. Mas não teria graça saber tudo de uma vez, claro. O barato é ler aos poucos, saboreando os detalhes, uma palavra puxando outra. Não consigo buscar algo num dicionário sem, depois de satisfazer a dúvida, ler as palavras vizinhas, acima e abaixo. Se me impusessem o exílio numa ilha deserta, e pudesse levar só um livro, seria um dicionário. Como dizia Borges, toda literatura do mundo está ali.

Abro o livro ao acaso, caio na letra L, de Longuinho (São). Aquele dos três pulinhos. Sinto o delicioso arrepio das coincidências. Desde julho deste ano, quando fiz várias viagens entre São Paulo e São José dos Campos, toda vez que passava em Guararema tinha vontade de desviar e procurar a Igreja de Nossa Senhora da Escada. Ali se encontra a única imagem brasileira do venerado santo dos objetos perdidos. Preciso ver isso de perto!

Tenho vontade de escrever um manual turístico só de lugares estranhos, exóticos, quase inverossímeis: A igreja de São Longuinho; a cidade dos lobisomens (Jordanópolis, SP); a Casa Enfeitada na favela de Paraisópolis, em São Paulo; a mina de cristal, em Juqueí; os aquários naturais dos afluentes dos Tapajós; as inscrições rupestres do Serrote Quinamuiú, em Tauá, CE; a caverna sem eco, no Vale do Ribeira; a ladeira que desafia a gravidade, em Belo Horizonte; a cidade dos Recordes Ao Contrário, na Bahia; a Fonte que Assobia, no sertão de Goiás; a estrada onde os viajantes são atacados por um galo gigante, no Mato Grosso; o Festival do Saci, em Botucatu (e também em S. Luiz do Paraitinga); a gruta que liga Machu Picchu a São Tomé das Letras, em Minas Gerais; as traíras gigantes que atacam os fumantes, na beira do Tocantins; as dunas que engolem casas, em Florianópolis; a cidade gaúcha de Não-Me-Toques; aquele riacho em Maromba, onde você fica com um pé em Minas e outro no Estado do Rio; a fábrica de pios de Cachoeiro do Itapemirim, ES; Faxinal do Soturno (RS); Santana da Ponte Pensa (SP); Solidão (PE)…

Desvio do assunto, efeito colateral que os dicionários sempre me causam. Interrompo o delírio e volto ao Dicionário do mestre Cascudo. Louva-a-Deus. “O mesmo que põe-mesa (!). Inseto montóide muito comum, semelhante ao grilo, porém muito magro e estético: traz sempre as mãos postas, juntas, os joelhos dobrados, e os olhos levantados para o céu; por esta razão, chamam-no louva-deus.”

Muito magro e estético. Não é uma delícia?

Uma fruta de domingo

Cabeludinha

No meu pequeno jardim, no Butantã, o espaço é ferrenhamente disputado por coqueiro, um pé de laranja seleta (laranjeira, eu sei), um pé de acerola (aceroleira?) e um pé de cabeludinha (nem arrisco sugerir!).

Árvore bonita, com belas folhas lanceoladas e frutos com sabor de infância, a tal da cabeludinha. O nome vem da penugem da casca, semelhante a um pêssego. Da mesma família da goiaba e da jabuticaba, não tem o valor comercial das primas. Ninguém cultiva pra consumo.

Carrega em outubro e novembro, e atrai a curiosidade da vizinhança e das visitas. Fruta de moleque e passarinho, ou de adulto com alma de moleque (ou de passarinho). É daquelas frutinhas cheirosas e inconfundíveis, de nome tão improvável quanto cagaita, abiu ou melão-de-são-caetano, que nunca vamos encontrar em supermercados e feiras.

Sei lá se está em extinção. Pesquisando um pouco, descobri que existem colecionadores de árvores raras e frutas nativas. Não chego a tanto, até por falta de área agricultável, mas guardei algumas sementes para os amigos. Taí um presente original: um pé de cabeludinha. Vai junto um pouquinho de cultura caipira brasileira.

Justa Trama, Itajaí

Santa Catarina tem várias cidades turísticas badaladas, a começar por sua capital, Florianópolis. A colonização alemã é o atrativo de Joinville e Blumenau, e as belas praias fazem sucesso em todo o litoral. Mas hoje o assunto é Itajaí.

Porto Itajai

Simpática, moderna e charmosa, a cidade tem vários encantos a descobrir. Fui parar lá por causa de um projeto cooperativo incrível chamado Justa Trama.

Justa Trama

Uma cadeia de produção que começa em Tauá, no sertão do Ceará, com a plantação de algodão sem agrotóxicos, passa por uma fiação no interior de São Paulo,  vai para cooperativas de costureiras no Rio Grande do Sul e na própria Itajaí, e é comercializada por uma loja no centro da cidade.

Costureiras

Uma ONG empenhada em mudar as relações de consumo, oferecendo produtos feitos em condições diferenciadas para um novo público.Não é pouco, nestes dias de concorrência tão predatória e de consumo tão irresponsável. Vestir uma blusa de algodão orgãnico faz bem pro coração… e pra pele! (Aprendi ali que o algodão convencional leva mais de seis tipos de venenos na sua produção.)

Artesanato Mais que as belezas da região, o artesanato, os bons restaurantes de frutos do mar e a simpatia das pessoas, encontrei em Itajaí o resultado do sonho de pessoas que acreditam em criar novos caminhos, em construir relações de trabalho mais justas e saudáveis. É uma das boas lembranças deste ano de 2008!

Itajai Matriz

Da arte de comer alcachofras

Alcachofras

Primeiro, pegue uma por uma, sopese-as, aprecie o tom arroxeado das pétalas. A alcachofra vem do Oriente Médio, como o próprio nome denuncia, e atravessou mares e continentes para chegar até tuas mãos. Os gregos já a representavam em ânforas e mosaicos, e certos capitéis romanos foram certamente inspirados em sua forma elegante.

Em seguida, coloque-as numa panela de pressão, pois a modernidade permite este progresso, e deite água até que as alcachofras estejam quase submersas. Aprecie pela última vez o violeta das pétalas, pois dali sairão esmaecidas após os suficientes 12 minutos de cozimento depois do início da fervura.

Enquanto espera, ponha pra tocar uma boa gravação de Mozart, de preferência o Concerto para Clarineta K.622, e prepare o mais clássico dos acompanhamentos. Existem outros, mais elaborados, mas estamos saboreando a História sob a graciosa forma de alcachofra, e não convém atropelar os fatos. Em suma, pegue três colheres de sopa de bom azeite, ibérico ou mediterrâneo, junte sal e pimenta do reino moída na hora, duas gotas de limão, misture numa molheira baixa e voilá!

Abra a panela com cuidado e escorra uma alcachofra, ainda fervente. Se fores realmente sabido, estarás acompanhado, portanto escorra duas e coloque-as em pratos individuais, numa mesa previamente arrumada, onde não deverão faltar um garfo e uma faca afiada, além de guardanapos. Lembra de que as brácteas da alcachofra depois de saboreadas são como páginas arrancadas de um caderno e ocuparão um espaço muito maior do que imaginas, portanto providencia uma vasilha ou travessa suficiente para acolher os restos de tua volúpia.

Se cumprires com afinco estes procedimentos, podes então sentar e iniciar o ritual, após mirar fundo os olhos da companheira. Um pequeno riso nervoso geralmente antecede o primeiro gesto, o de arrancar a primeira pétala. Comece pelas maiores, mas não confunda jamais este ato com os malmequeres de tua infância, pois certamente te atrapalharás na contagem. Uma vez destacada, você deve umedecer a base carnuda e tenra no molho, introduzi-la na boca, cerrando os dentes sem violência. Puxe então, raspando-a, e saboreie o que restou na tua língua, exótica iguaria com longínquo travo amargo de noites montanhosas do Mediterrâneo.

Por estranho capricho, esta planta da família das compostas não aceita a companhia do venerável vinho. Os aromas e sabores brigam entre si, sabotam-se, estiolam-se. Dizem que há um lendário vinho grego que realizou o nobre pacto, mas pode ser apenas uma lenda. Prefira a generosa e espumante cerveja, combinação perfeita de amaros que se completam amorosamente.

Acabaram-se as brácteas, cada vez mais finas, quase transparentes. A vasilha está cheia, e convém esvaziá-la se pretendes repetir o prato. Descarte as últimas pétalas, assim como aquelas pequenas e duras próximas ao caule, e sobrará na tua mão um pequeno disco acinzentado, com a superfície coberta de finos e pontiagudos pelos. Não ponha-os na boca, de jeito nenhum, pois são ásperos e cruéis! Lembra-te dos girassóis? Pois são da mesma família, e se acaso um dia tiveres a felicidade de ver uma alcachofra em plena florada, verás que esta corola se tinge de um certo roxo-violáceo luminoso, aquele tom que o povo houve por bem chamar de cor-de-maravilha.

Contenha a ansiedade, respire fundo e comece a tirar com os dedos pequenas porções dos estames. Cuidado, pois se tentares arrancar um feixe muito grande terás o desgosto de ver a base se partir. A operação requer certa arte, aquela à qual se refere o título destas instruções. Há quem use nesse momento a faca que colocamos à disposição, mas em mãos inexperientes o resultado pode ser decepcionante.

Porém és uma pessoa hábil, e tens agora nas mãos, intacto, um coração de alcachofra nu e tenro, oferecendo-se ao paladar. Corte e dispense a base do caule, fibrosa e amarga em demasia, e divida o círculo macio em quatro partes.

Agora toma o garfo, espeta um pedaço com a firmeza que a emoção lho permitir e mergulha-o na molheira, que deverá ter sido reabastecida. Saboreie de olhos fechados, ouvindo o último movimento do divino Concerto. Toma de outro pedaço, e mais outro e, quando chegares ao fim, estarás mais sábio, mais consciente dos sabores do universo e, certamente, mais feliz.

Músico de padrão internacional

macaco-guitarrista

Acabo de ouvir o trabalho de um guitarrista razoavelmente conhecido, gravado com muito sacrifício de tempo e dinheiro. Competente, bom músico, mas enveredou por um caminho que é a perdição de inúmeros músicos no Brasil: fazer um som “internacional”, parecido com milhares de outros, num país onde qualquer FM vagabunda prefere comprar este som importado, baratíssimo, e às pencas.

Conheço algumas dezenas de bons músicos como o Zé (vamos chamá-lo assim), tocando em barzinhos aqui em Sampa ou em outra grande cidade. Tocam também em churrascarias, em casamentos, em praças de alimentação de shopping centers, mas sonham com um reconhecimento imaginário. Tudo que fazem é um som estandardizado, padrão “classe A” (ou o que eles julgam ser), geralmente sem um pingo de originalidade. Pensam em tocar na Europa, nos EUA, pois “lá a qualidade do meu som será reconhecida”. Mal sabem que qualquer college tem centenas de estudantes tocando as mesmas coisas, geralmente melhor, e que menos de 0,0001% terão algum brilho próprio, depois de anos de escola.

O problema é cultural, e o Zé não percebe isso. Nasceu no Brasil, ouviu todo o riquíssimo arsenal rítmico e musical de  nosso país, mas na hora em que foi estudar música, comprou um método americano e copiou riffs e solos de Wes Montgomery ou George Benson. Acabou soando como um sub-produto da música mainstream americana, um dos muitos que há espalhados pelo mundo (acontece também na Ásia, Europa, Oceania, etc.)

O pior é que o Zé não percebe o que faz de errado, acha que é um injustiçado, que boicotam o trabalho dele. Conhece todas as inversões de escala, todos os modos e pentatônicas, sabe distinguir um mixolídio de um frígio, um si bemol de um tilenol. “O cara manja!”, dizem os amigos. Confesso que vou guardar o CD que me presenteou por causa da dedicatória, mas só serve pra fazer fundo de conversa, em noite de coquetel. “Instrumental chique”, sem sal até o limite do insípido.

Os Zés mais bem sucedidos tocam em estúdios profissionais, fazem jingles, dão aulas. E só. Nunca vão tocar no rádio, vender milhares de discos ou fazer shows-solo patrocinados. Quando se metem a compor, não querem sujar as mãos no samba, no choro, na viola caipira, nos batuques, nos baiões e cirandas, porque isto não está nos manuais de escola americana onde estudaram. Até conhecem, mas “estão em outro nível”. Quando tocam um hit de Jobim, é dentro do padrão internacional, ou seja, americano.

Zé não percebe que uma noite de porre de Vinicius e Baden Powell rendeu mais para a cultura musical do Brasil (e do mundo!) que as milhares de horas que gastou decorando as escalas do Joe Pass. É uma pena. Quantos talentos nascido aqui, como ele, desperdiçados por falta de uma direção musical menos colonizada nos anos de formação!




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