Nas minas de carvão

Cooperminas

Há três anos, quando acompanhei a jornada dos cortadores de cana, em Pernambuco, achei que era o pior trabalho do mundo. Como outras certezas que já tive na vida, essa também virou pó em pouco tempo. No caso, pó de carvão, pois alguns meses depois fui gravar as minas de Criciúma (SC).

Mineiros

A gravação durou cerca de cinco horas. Subterrâneas, pareceram dez. Primeiro descemos 300 metros, por um precário elevador, daqueles de construção. A ida até a frente de mineração (3,5 km!) é feita parcialmente por uma marinete puxada por um tratorzinho. Um labirinto de túneis, mais escuros que a alma de George Bush, muitos deles alagados. Os trechos abandonados servem também de privada para os mineiros…

Entrada da Mina

Os quinhentos metros finais são feitos a pé mesmo. Carregando câmera, equipamento de luz, fitas, baterias, deu pra perder algumas calorias. À medida que nos aproximamos da frente de trabalho, o ruído aumenta. Britadeiras, máquinas, carregadeiras, pequenos bulldozers e, de vez em quando, explosões de dinamite.

Na Esteira

O túnel tem de ser permanentemente molhado, para que a poeira mortal em suspensão diminua. As doenças pulmonares são muito freqüentes na categoria, e só têm diminuído por causa das campanhas constantes e da implantação das CIPA’s. A Cooperminas, primeira cooperativa de mineradores da região, foi a primeira da região a implantar uma série de medidas visando a recuperação ambiental e a saúde dos trabalhadores.

Mineiro

A cooperativa, aliás, tem uma história fantástica, daquelas que dariam um filme ou romance, continuação do Germinal, de Zola, com final feliz. A empresa faliu, deixando dívidas trabalhistas. Para receber o devido, os trabalhadores invadiram a mina. A polícia foi chamada para desocupar, atendendo prontamente ao pedido dos patrões. O líder amarrou meia dúzia de bananas de dinamite na cintura e foi negociar com um isqueiro na mão. “Se passarem deste portão, vão todos pelos ares”.

Greve - 1987

Greve - 1987

Nada como um discurso direto, sem rodeios. A polícia recuou. Os trabalhadores venceram na Justiça, tomaram posse da mina e assumiram sua direção de forma cooperada. Hoje vivem melhor que os outros mineiros da região, têm os melhores salários, ganharam o respeito da cidade. Elegeram vereadores e deputados, e nenhum prefeito se elege em Criciúma sem o apoio da categoria.

Operador na mina

Bem, de volta ao mundo subterrâneo. Saí daquele pesadelo jurando nunca mais pisar naquela ante-sala do reino de Hades. E, como outras certezas que já tive na vida, essa também virou pó. De carvão. (Engraçado, acho que já disse isso antes…).

Cooperminas 2

Estamos em 2008. E estou de volta, mais uma vez. Tudo parece igual, durante a descida. Mas a frente de trabalho ficou mais distante: agora são 5 km até chegar lá, trafegando por labirintos que nenhum fauno ousaria habitar.

Mando aqui um abraço para os bravos companheiros que fazem da Cooperminas um exemplo de superação, mas, confesso: Prefiro cortar cana!

Na rampa

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8 Responses to “Nas minas de carvão”


  1. 1 jose eduardo ronchi 22/01/2009 às 6:21 pm

    É muito bom trabalhar na cooperminas,
    e muito bem administrada pelos seus colaboradores!
    abraços a todos..

  2. 2 Maia 01/07/2009 às 4:43 pm

    Essa gravação ou documentário sobre as minas de carvão, é possível ser encontrado? Gostaria de assistir.
    Aliás, gostaria de trocar um email com você. Cheguei até o seu blog por uma pesquisa no google.

    É possível?

  3. 3 Daniel Brazil 01/07/2009 às 6:36 pm

    O vídeo foi produzido para a Unisol, entidade que representa nacionalmente várias cooperativas, Maia. Vou escrever diretamente pra você, aguarde!

  4. 4 gleyce 20/03/2010 às 1:23 pm

    ola!! Nossa se vc conseguise este video p mim!!Vai me ajudar muito estou cursanso tecnico em segurança do trabalho, estou fazendo um trabalho sobre minas de carvao. Se tiver como enviar p mim agradeço desde ja!!

  5. 5 Daniel Brazil 20/03/2010 às 2:26 pm

    Vale a resposta anterior, Gleyce. Quem tem cópias do vídeo é a Unisol (http://www.unisolbrasil.org.br), cuja sede é em S. Bernardo do Campo, SP. Tente um contato direto com eles!

  6. 6 Dejair 13/06/2011 às 3:45 pm

    Olá, boa tarde.
    Meu nome é Dejair, e fiquei surpreso em ver a minha imagem como operador de MT
    nesta sessão. gostaria de ter este video, para que eu pudesse guarda-lô e no futuro poder mostrar a meus descendentes…
    Att: Dejair. ( Operador de MT) Cooperminas.

  7. 7 Daniel Brazil 13/06/2011 às 7:54 pm

    Vale a resposta acima, Dejair! Eu não trabalho na Unisol, apenas fiz o vídeo para eles. A direção da Cooperminas deve ter uma cópia, fale com eles! É uma série de videos sobre cooperativas, feita em parceria com o Sebrae e fundação Banco do Brasil.

  8. 8 Tadeu Santos 31/10/2011 às 12:06 pm

    CARVÃO: O MINEIRO E A ESCRAVIDÃO
    O trabalho de mineiro carbonífero no Sul de Santa Catarina tem semelhanças com escravidão, talvez em alguns aspectos seja até pior ou mais ultrajante, pois os coitados precisam trabalhar perigosamente embaixo da terra, num ambiente inóspito, deprimente e insalubre, para sobreviver sobre a mesma, sem qualidade de vida, com doenças pulmonares como por exemplo a incurável doença do ‘’pulmão negro’’, cientificamente denominada de pneumonoconiose. A aposentadoria aos 15 anos de serviço é o reconhecimento do estado para com esta maldita servidão, uma verdadeira injustiça social e ambiental em nome de um questionável desenvolvimento. A atividade é comprovadamente insustentável desde a sua fase inicial, quando de forma brutal agride os recursos naturais para a exploração do minério, finalizando com a famigerada queima do combustível fóssil – considerado o mais poluente de todos, além de ser também a energia elétrica mais cara para o consumidor.

    A REGIÃO SUL DE SC É CONSIDERADA UMA DAS 14 MAIS CRÍTICAS DO PAÍS, DE ACORDO COM O DECRETO FEDERAL 85.206/80. ALÉM DESTE CENÁRIO DE DEGRADAÇÃO AMBIENTAL, COINCIDENTEMENTE NESTA REGIÃO ONDE ESTÁ LOCALIZADA A TERMELÉTRICA JORGE LACERDA 856MW – A MAIOR EMISSORA DE CO² DA AMÉRICA LATINA PELA QUEIMA DE COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS, OCORREM DE FORMA INÉDITA A VIOLÊNCIA DAS ÁGUAS E DOS VENTOS, TANTO QUE AS MAIORES ENCHENTES DO BRASIL ACONTECERAM NA FAIXA LITORÂNEA ENTRE ARARANGUÁ, TUBARÃO E BLUMENAU. NESTA REGIÃO TAMBÉM OCORREM CICLONES EXTRATROPICAIS E TORNADOS, ALÉM DE SER O EPICENTRO DO VIOLENTO FURACÃO CATARINA – O PRIMEIRO DO ATLÂNTICO SUL.


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