O dicionário do mestre Cascudo

Dicionario

Aproveitei uma feira de livros na Usp, semana passada, e realizei um pequeno sonho de muitos anos, um presente de Natal antecipado. O Dicionário do Folclore Brasileiro, do Câmara Cascudo.

Sopeso o volume de 770 páginas e folheio, aspirando o cheiro de livro novo, como se pudesse assim absorver as sabedorias que existem ali dentro. Mas não teria graça saber tudo de uma vez, claro. O barato é ler aos poucos, saboreando os detalhes, uma palavra puxando outra. Não consigo buscar algo num dicionário sem, depois de satisfazer a dúvida, ler as palavras vizinhas, acima e abaixo. Se me impusessem o exílio numa ilha deserta, e pudesse levar só um livro, seria um dicionário. Como dizia Borges, toda literatura do mundo está ali.

Abro o livro ao acaso, caio na letra L, de Longuinho (São). Aquele dos três pulinhos. Sinto o delicioso arrepio das coincidências. Desde julho deste ano, quando fiz várias viagens entre São Paulo e São José dos Campos, toda vez que passava em Guararema tinha vontade de desviar e procurar a Igreja de Nossa Senhora da Escada. Ali se encontra a única imagem brasileira do venerado santo dos objetos perdidos. Preciso ver isso de perto!

Tenho vontade de escrever um manual turístico só de lugares estranhos, exóticos, quase inverossímeis: A igreja de São Longuinho; a cidade dos lobisomens (Jordanópolis, SP); a Casa Enfeitada na favela de Paraisópolis, em São Paulo; a mina de cristal, em Juqueí; os aquários naturais dos afluentes dos Tapajós; as inscrições rupestres do Serrote Quinamuiú, em Tauá, CE; a caverna sem eco, no Vale do Ribeira; a ladeira que desafia a gravidade, em Belo Horizonte; a cidade dos Recordes Ao Contrário, na Bahia; a Fonte que Assobia, no sertão de Goiás; a estrada onde os viajantes são atacados por um galo gigante, no Mato Grosso; o Festival do Saci, em Botucatu (e também em S. Luiz do Paraitinga); a gruta que liga Machu Picchu a São Tomé das Letras, em Minas Gerais; as traíras gigantes que atacam os fumantes, na beira do Tocantins; as dunas que engolem casas, em Florianópolis; a cidade gaúcha de Não-Me-Toques; aquele riacho em Maromba, onde você fica com um pé em Minas e outro no Estado do Rio; a fábrica de pios de Cachoeiro do Itapemirim, ES; Faxinal do Soturno (RS); Santana da Ponte Pensa (SP); Solidão (PE)…

Desvio do assunto, efeito colateral que os dicionários sempre me causam. Interrompo o delírio e volto ao Dicionário do mestre Cascudo. Louva-a-Deus. “O mesmo que põe-mesa (!). Inseto montóide muito comum, semelhante ao grilo, porém muito magro e estético: traz sempre as mãos postas, juntas, os joelhos dobrados, e os olhos levantados para o céu; por esta razão, chamam-no louva-deus.”

Muito magro e estético. Não é uma delícia?

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