Uma casa de domingo

Uma casa feita de milhares de pedacinhos de louça, de cerâmica, de vidro, de plástico, de metal, de materiais encontrados no lixo. Uma casas feita de curvas, degraus, cavidades,  abóbadas, colunas e clarabóias, que é também coberta de plantas que se entremeiam com as linhas orgânicas da arquitetura. São oito metros de altura, distribuídos por 75 metros de terreno em aclive.

Casa Enfeitada

“Parece Gaudí!”, dizem os estudantes de arquitetura. Mas Estevão, o morador-construtor-artista, nordestino que veio para São Paulo tentar a vida em 1985, nunca ouvira falar do genial catalão.

Quando conseguiu um canto na favela de Paraisópolis, começou a construir a casa de seus sonhos. Chamada pelos vizinhos de “Castelo do Estevão” ou “Casa Enfeitada”, virou atração turística. O discreto Estevão, que é zelador e jardineiro, hoje recebe visitas de gente de todo mundo. Só foi entender realmente a comparação com Gaudí quando uma fundação espanhola o convidou para visitar as obras do mestre, em Barcelona. No Parque Güell, lhe perguntaram: “Não é parecido?” Estevão coçou a cabeça e disse, com seu sotaque do interior da Bahia: “Rapaz, num é que é mesmo?”

Casa Paraisópolis

A obra nunca parou, em mais de 20 anos. Está sendo sempre retocada, ampliada, burilada. Estevão continua morando lá, com a mulher Edilene e dois filhos, e cobra 5 reais pela visitação. Trabalha num prédio chique do vizinho Morumbi, igual a centenas de outros. mas dorme toda noite com certeza de que a casa que construiu é única. O teto de seu quarto é estrelado. Como serão os sonhos um homem que constrói uma casa assim?

Casa Estevão

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6 Responses to “Uma casa de domingo”


  1. 1 vidotto 01/12/2008 às 11:43 am

    Daniel, de onde veio essa lembrança? Você foi trabalhar por lá?
    Em agosto assisti uma palestra (“aula”) de Ariano Suassuna aqui no Rio, num evento chamado Embaixada Pernambucana, onde ele sentava a ripa no Niemeyer, punha Brasília abaixo de zero (ontem ouvi, de outro cara, “cidade sem esquinas”) e colocava aí o Estevão no pedestal. Loooongos elogios.
    O engraçado era ouvir Suassuna “desconstruindo” Brasília por conta de sua diatribe contra a modernidade, sem saber (?) que nos idos dos oitenta passou pelo Rio o Marshall Berman (Tudo que é sólido desmancha no ar) espinafrando a … modernidade de Brasília, pq seria um versão conservadora de modernidade, que já vem acabada, não inclui as pessoas na sua construção (fora os candangos no concreto, diríamos os cínicos).
    Desse ãngulo, o jardineiro Estevão é mais moderno que Gaudi.
    Forte abraço,
    vidotto

  2. 2 Daniel Brazil 01/12/2008 às 1:21 pm

    Há alguns anos, acompanhei a construção de uma quadra de tênis dentro da favela de Paraisópolis. Muitos moleques trabalham como apanhadores de bola, nas academias e clubes do Morumbi, e acabam se tornando bons jogadores! Deve ser a única favela do Brasil com quadra de tênis…
    foi quando conheci o Castelinho (em 2002), e passei a levar outras pessoas lá. Estive lá com minha filha, há cerca de 3 anos. As fotos não ficaram boas, mas ela adorou!

  3. 3 Helion 11/12/2008 às 11:25 pm

    Um cara fez uma casa dessas, também gaudiesca, e já faz bastante tempo, na cidade fluminense de São Pedro de Aldeia. Visitei uma vez, é impressionante.

  4. 4 Daniel Brazil 12/12/2008 às 3:48 pm

    Acho que vi esta casa, Helion, num documentário do Eduardo Coutinho, chamado O Fio da Memória. Realmente fascinante!

  5. 5 Marina Guyot 25/01/2010 às 7:01 pm

    que lindo! usei uma da imagens (citando o site) para ilustrar um poeminha no meu blog. se quiser visitar, está convidado!
    se acaso preferir que eu tire, só avisar…
    parabéns pelo site muito interessante.
    abraços
    marina

  6. 6 Daniel Brazil 25/01/2010 às 7:40 pm

    É bacana essa sinergia, Marina. Imagens inspirando palavras, e vice versa. Ou vice verso.

    Abraço,


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