Arquivo para dezembro \23\UTC 2008

Balanço

Fim de ano, época de balanço. Não farei aqui um balanço de vida, que seria abusar da paciência dos amigos, mas apenas do Fósforo.

Admito que as postagens foram meio bissextas. Por conta de meu trabalho de cigano, estive muitas vezes distante de da Internet e até de computadores. Muitas vezes, foi falta de tempo mesmo. Outras, falta de inspiração.

Para um blog que se propõe a falar de música, literatura e uma pitada do resto de tudo, a receita desandou. A pitada ficou maior que os ingredientes principais. Prometo acertar as quantidades, em 2009.

E por falar em pitada, pretendo escrever algumas coisinhas sobre comida, o ato de reunir pessoas em volta de uma mesa (ou na cozinha), para falar de tudo e até comer. Chega de miojo!

Literatura é um problema. Pelos motivos citados (vida cigana, patati, patatá), li menos do que deveria em 2008. Um ditado francês diz que “se o lobo ronda nossa casa, comamos o lobo”. A crítica gastronômica M.F.K.Fischer (que o britânico W.H.Auden considerava a maior escritora americana!), cujo centenário de nascimento foi comemorado neste ano, escreveu um livro se referindo a este, digamos, prato (Como Cozinhar um Lobo, Cia.das Letras). Fala da culinária da Europa fustigada pelas guerras, e da capacidade de improvisar com poucos recursos. Bem, se a crise mundial ronda 2009, tracemo-la. Assada, frita ou confitada. Nada melhor que literatura para fazer da crise um banquete.

Como já escrevo sobre música há mais de três anos na Revista Música Brasileira, sobra pouco para o Fósforo. Mas deveria falar da música do planeta, dos clássicos aos contemporâneos. Tenho vários amigos músicos, alguns até espiam o blog e me cobram mais temas musicais. Anotem: Em 2009, mais jazz, Mozart e, claro, Pixinguinha!

E pra terminar o ano, deixo com você um guitarrista genial, o Jymmy Wyble, que conheci através do Taxi, que por sua vez linkou do Chico Pinheiro.

. O velhinho é fera, realmente assombroso. Elegância, imaginação e bom gosto imbatíveis.

Que venha 2009!


Outra praia

Minha praia

Parece uma praia comum, pequena, até simpática. Para mim, é muito mais: é a praia de minha infância. Ali aprendi a nadar, pescar, furar ondas. Vi muito cardume de tainha passando próximos aos rochedos, seguidas por um enorme cação que surgia não sei de onde, toda vez que as tainhas eram atacadas por bombas. Sim, pescavam com bombas, naquela época. A molecada, nas ondas, saía das águas aos berros, gritando “cação, cação!”, e o bicho chegava até a beira dágua, mostrando seu corpo enorme através de cada onda. Teria uns três metros talvez, maior que um homem certamente. Nunca atacou ninguém, que eu saiba. Se contentava com as tainhas que boiavam, emborcadas, pelo efeito das bombas.

prainha

Ali vivi até os dez anos, quando vim para São Paulo. Mesmo sendo filho e neto de paulistas, odiei a mudança. Pouco tempo depois, a casa onde morei foi demolida, e no lugar construíram hotéis e condomínios.

As poucas vezes em que regressei a Salvador, quando passava pela  Avenida Pres. Vargas, perto do Morro do Cristo, virava o rosto ou fechava os olhos. O contorno dos morros, a mata, a Casa de Pedra onde morei, permaneciam vívidos na memória. Era como se a visão da realidade fosse apagar tudo, impondo sua abjeta modernidade.

PlacaHá dois anos, participei de um congresso em Salvador. Quando vi a reserva do hotel, tremi. Iria ficar hospedado no monstro que desfigurou minha paisagem. Suspirei fundo e encarei. “Deixe de ser criança. As coisas mudam!”

Cheguei à noite. Na manhã seguinte, muito cedo, abri a janela e vi a pequena praia sob minha janela. Intacta. Os mesmos rochedos, agora menores. A ponta de onde mergulhava, quando a maré estava cheia. Onde pescava budiões, corró-corrós e carapiaçavas.

Caminhei até a praia, me enchi de coragem e virei de costas para o mar. Quando abri os olhos, um certo mundo acabou. Para sempre.

Praia


O pequeno pianista

o pequeno pianista

Este ano tive algumas surpresas. Uma delas foi esta foto, enviada pelo tio Edgard que, aos 80 anos, é um adepto convicto da Internet e esbanja jovialidade.

Observo atentamente a imagem. Tento me lembrar de que tipo de música gostava, nessa época. Provavelmente qualquer uma. Na adolescência meus pendores musicais se inclinaram para o violão, voltando depois ao piano, depois de passar pela flauta e bandolim. Tudo de forma inconstante e sem método, o que me tornou um razoável não-músico, eternamente amador.

Costumo dizer que a música é minha amante. Nos damos bem, conversamos na mesma linguagem, me consola nos momentos de tristeza, me abraça nos momentos de alegria. Mas nunca me casei com ela, pois sei que não ia dar certo (ao contrário de meu irmão Marcelo, que é maestro). Amante não é para casar…

Espio novamente a foto, invejo a concentração que foi se dispersando com os anos. Lembro as palavras de Nero, tocando harpa e vendo Roma em chamas: Que grande artista o mundo perdeu!

(Fim de ano a gente fica assim, meio reminiscente e besta…)

O juiz na roda

Segundona braba, dia de ressaca. Zapeando, descubro que o programa Roda Viva, da TV Cultura, vai entrevistar o meretríssimo presidente do STF, Gilmar Mendes.

Opa, e quem são os entrevistadores? Decepção absoluta. Um direitoso da Veja, uma jornalista da FSP (Façamos Serra Presidente), um cara do Estadão e o editor do site Consultor Jurídico, velho conhecido do entrevistado.

Ora, assim até eu! Será que não dava pra chamar uma pessoa, uma só, com postura crítica em relação ao referido juiz? Ou alguém de esquerda, só pra contrariar? Ou com independência em relação aos grandes esquemas corporativos imprensa/Daniel Dantas?

O programa mantém uma página na rede, onde telespectadores podem fazer perguntas “ao vivo”. Quem matou a pau foi o Idelber Avelar, do ótimo blog O Biscoito Fino e a Massa, que enviou 25 perguntas matadoras. Duvido que alguma delas seja enunciada pela Lílian Bife Quibe, âncora do programa. Vou conferir.

A Bienal e a pichadora

Bienal

Fui a muitas Bienais na vida, desde criança. Meu pai participou de duas, em 1967 e 69. Já adulto, me envolvi em alguns projetos com Bienais. Em geral, gosto daquele espaço de experimentação, de investigação de fronteiras. Quem quer arte estabelecida que vá ao museu!

Não fui à Bienal de 2008. Achei a proposta besta. A idéia de deixar um andar vazio, “aberto à reflexão”, é indigente. Ainda assim, sugeria que artistas ocupassem com propostas criativas.

Pois um grupo de pichadores resolveu deixar suas marcas na parede. Não tenho nenhuma simpatia por pichadores, que ao contrário dos grafiteiros, são truculentos e normalmente possuem a noção estética de um chimpanzé mal amestrado. Mas parede branca é com eles, e foram para o espaço “aberto”, manifestar sua, vá lá, rebeldia.

Pintou a repressão. Prenderam uma garota, Caroline Sustos. Está presa há 50 dias. Enquadrada na Lei do Meio Ambiente (!), pode pegar até 3 anos de prisão.

Estou chocado. A única vez em que fui detido e levado para uma delegacia, foi por pichar um muro com a frase “A UNE vem aí”. Tomei uma canseira de um par de horas, levei um pito do delegado e voltei para casa. Estávamos no final da ditadura, governo Figueiredo, no ano de 1979. Hoje estamos sob a democracia do presidente Lula e do governador Serra*…

Roubar milhões, desviar recursos da Saúde, contrabandear dólares, subornar juízes e corromper policiais não dá cadeia, se você tiver um bom advogado. Pichar um espaço que convidava a isso é compatível com uma prisão de 50 dias? Se fosse filha de um Daniel Dantas, de um político ou de um artista global, estaria presa por mais de 50 minutos?

Vários artistas (de verdade) já se manifestaram contra a prisão da moça. Zé Celso declarou que “é coisa do AI-5”. Corre um abaixo-assinado na Internet (liberar-caroline@googlegroups.com), organizado pelo artista plástico e professor da USP, Artur Matuck. É por isso que neste domingo, 14 de dezembro, haverá uma reunião no Atelier La Tintota, na rua Brigadeiro Galvão 296/298, São Paulo, tel. (11) 3666-2630. Artistas e a(r)tivistas pretendem fazer bastante barulho pela libertação de Caroline Sustos.

* Pelo menos o ministro da Cultura de Lula tentou intervir em favor da moça. Já o governador, disse que não podia fazer nada…


O Filho Eterno e as prateleiras

O Filho Eterno

Chegou ao fim a Copa de Literatura Brasileira 2008 consagrando o escritor Cristóvão Tezza, autor de O Filho Eterno.

O resultado foi previsível. Durante o ano de 2008, o autor recebeu aplausos da crítica, resenhas generosas e uma batelada de prêmios. Entre eles, o Portugal-Telecom, o maior prêmio literário do país (cem mil reais ao primeiro colocado).

Não sou nenhum profeta, mas comprei o livro em 2007, antes dessa badalação toda. Esta semana me ocorreu que continua sendo um bom presente, e dei uma espiada numa “livraria” dentro de um hipermercado paulistano, desses que tem de alface a pneu, passando por máquinas fotográficas. Parei na “livraria”, dividida por seções tipo auto-ajuda, culinária, etc.

Nos “mais vendidos”, nem sinal do Filho Eterno. Nem nos “menos vendidos”. Simplesmente não existe. Já os caçadores de pipas de Kabul estavam todos lá…

Não creio que um livro precise ser um best-seller para ser bom, mas seria razoável que pelo menos as pessoas pudessem ter acesso ao que de melhor aqui se produz, não?

Futuros Fósseis

Xaxim

Passei dois dias em Barra do Una, fazendo caminhadas na Serra do Mar, indo à praia, preparando comidinhas, jogando conversa fora.

Faz tempo que não fazia isso, desde o início do ano. Como faz falta, para quem nasceu à beira do mar, ver a linha do horizonte! Creio que pessoas nascidas nas montanhas, nas cidades do interior, num mundo de curvas e quebradas, não sentem a necessidade vital de rever aquele encontro de dois azuis que faz parte de uma infância litorânea.

No meio da mata, deparei com um sobrevivente: um belo pé de samambaiaçu, o popular xaxim, planta que de tão procurada e transformada em vaso, está em extinção. O sol na folhagem dava um efeito tão lindo que me animou a fazer o registro. A foto, claro, não traduz todas as nuances de luz, sem falar dos cheiros, zumbidos, pios e brisas que animam uma cena como esta.

Ao redor outros sobreviventes: palmitos, bromélias, orquídeas cada vez mais raras. Será que nossos bisnetos enxergarão as reservas de Mata Atlântica como se fossem um tipo de Jurassic Park vegetal?

Por via das dúvidas, trouxe um dinossaurinho, hã… um palmitinho pra plantar no jardim, em São Paulo.