A Bienal e a pichadora

Bienal

Fui a muitas Bienais na vida, desde criança. Meu pai participou de duas, em 1967 e 69. Já adulto, me envolvi em alguns projetos com Bienais. Em geral, gosto daquele espaço de experimentação, de investigação de fronteiras. Quem quer arte estabelecida que vá ao museu!

Não fui à Bienal de 2008. Achei a proposta besta. A idéia de deixar um andar vazio, “aberto à reflexão”, é indigente. Ainda assim, sugeria que artistas ocupassem com propostas criativas.

Pois um grupo de pichadores resolveu deixar suas marcas na parede. Não tenho nenhuma simpatia por pichadores, que ao contrário dos grafiteiros, são truculentos e normalmente possuem a noção estética de um chimpanzé mal amestrado. Mas parede branca é com eles, e foram para o espaço “aberto”, manifestar sua, vá lá, rebeldia.

Pintou a repressão. Prenderam uma garota, Caroline Sustos. Está presa há 50 dias. Enquadrada na Lei do Meio Ambiente (!), pode pegar até 3 anos de prisão.

Estou chocado. A única vez em que fui detido e levado para uma delegacia, foi por pichar um muro com a frase “A UNE vem aí”. Tomei uma canseira de um par de horas, levei um pito do delegado e voltei para casa. Estávamos no final da ditadura, governo Figueiredo, no ano de 1979. Hoje estamos sob a democracia do presidente Lula e do governador Serra*…

Roubar milhões, desviar recursos da Saúde, contrabandear dólares, subornar juízes e corromper policiais não dá cadeia, se você tiver um bom advogado. Pichar um espaço que convidava a isso é compatível com uma prisão de 50 dias? Se fosse filha de um Daniel Dantas, de um político ou de um artista global, estaria presa por mais de 50 minutos?

Vários artistas (de verdade) já se manifestaram contra a prisão da moça. Zé Celso declarou que “é coisa do AI-5”. Corre um abaixo-assinado na Internet (liberar-caroline@googlegroups.com), organizado pelo artista plástico e professor da USP, Artur Matuck. É por isso que neste domingo, 14 de dezembro, haverá uma reunião no Atelier La Tintota, na rua Brigadeiro Galvão 296/298, São Paulo, tel. (11) 3666-2630. Artistas e a(r)tivistas pretendem fazer bastante barulho pela libertação de Caroline Sustos.

* Pelo menos o ministro da Cultura de Lula tentou intervir em favor da moça. Já o governador, disse que não podia fazer nada…


3 Responses to “A Bienal e a pichadora”


  1. 1 Charô 14/12/2008 às 1:16 pm

    Querem que pobre se exploda!

  2. 2 Daniel Brazil 14/12/2008 às 1:55 pm

    É isso aí, Charô. Aliás, foi no teu blog que vi a notícia da reunião. Obrigado!


  1. 1 Pela libertação de Caroline Sustos | Charô! Trackback em 15/12/2008 às 11:43 am

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s




Arquivos


%d blogueiros gostam disto: