Arquivo para dezembro \05\-02:00 2008



O subsídio da alface

Pela enésima vez, assisto a um telejornal e ouço o apresentador pronunciar subzídio. Este z dói no meu ouvido, há muitos anos. É um barbarismo transmitido há gerações pelo rádio e TV. Milhões de brasileiros falam assim.

Inventei uma frase que gosto de repetir, quando alguém insiste em subzidiar na minha frente. “Obzerve: falar subzídio é abzurdo!” Em geral, funciona. Quem ouve isso não esquece mais a forma correta.

Ou esquece? Talvez essas coisas estejam gravadas no cérebro de maneira indelével. Do mesmo jeito que o alface, por exemplo. Desde criança acho esquisito quem considera a delicada alface como um vegetal masculino. Se é ponto pacífico que só existe alface crespa, alface roxa, alface lisa, alface romana, por que raios quando surge sem adjetivos tem de ser chamada de o alface?

É cultural, claro. Tradição familiar, independente de educação formal. Conheço universitários bem formados que sempre falaram subzídio e o alface, porque ouviram assim dentro de casa, da mãe, da avó. É um processo tão inconsciente que ficam surpresos quando lhes chamo a atenção. Assim como fiquei, certo dia, quando me observaram que eu pronunciava certa palavra de forma errada. E eu já era bem grandinho, saído da escola. Mas, por um curioso atalho mental, não só passei a falar da forma correta como esqueci completamente qual palavra era…

Tradutor Automático

Já contei essa história algumas vezes, mas não aqui no Fósforo. Hoje um amigo lembrou dela, e pediu um bis. Lá vai, Sérgio!

Estava eu posto em pesquisa, da vida colhendo o amargo fruto, em dificuldades com um texto em inglês. Um colega, me vendo com um dicionário na mão, sugeriu que eu instalasse no computador um tradutor automático. Disse que era bárbaro, traduzia ou vertia três dúzias de idiomas, a última palavra da tecnologia, uma ferramenta essencial.

Fez questão de me emprestar um CD com o programa, um tal Translator Pro. Instalada a maravilha, fiz um teste. Abri aleatoriamente uma página sobre jazz e copiei um parágrafo sobre Miles Davis. A primeira linha era:

Miles Davis, with his velvet horn, created the cool jazz.

O programinha, em dois segundos, me devolveu isso:

Milhas Davis, com seu chifre de veludo, criou o jazz fresco.

Quase caí pra trás com a insolência do tradutor! Um pouco abaixo, vinha uma lista de elementos que formavam a quadrilha de Milhas Davis: Atordoado Gillespie, Monge Thelonius, Wayne Mais Curto…

Desinstalei o desgraçado e voltei para o meu velho e bom dicionário inglês-português. De papel.


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