Arquivo para janeiro \27\-02:00 2009

Em Belém

ver-o-peso

Esta semana estou em Belém, participando do Fórum Social Mundial. Gravações diárias, edições noturnas, reuniões, muita agitação. Na volta conto o que rolou. Até breve!

forum

Um mar de domingo

Na primeira vez que estive em Olinda, me encantei com a arquitetura colonial, as ladeiras tortuosas, o clima festivo (era pré Carnaval), as noites quentes e animadas. Inesquecível!

Na segunda vez, olhando o mar ao fundo, reparei em algo estranho: ninguém fala em ir à praia, em Olinda.

Há dois anos, a trabalho, me hospedei num hotelzinho de frente para o mar. Na primeira caminhada matinal, bem cedo, me defrontei com este meigo aviso, que se repete por toda a orla.  Está explicado.

tubarao

Saramago plagiário?

O contista mexicano Teófilo Huerta acusa José Saramago de ter plagiado uma obra sua ao escrever As Intermitências da Morte (publicado em 2005). O conto está disponível na rede,  em espanhol, pra quem quiser conferir, ou nessa tradução da professora Lena Lessa, uma brasileira que vive em Portugal.

O homem diz que escreveu o conto em 1987, e o enviou para um concurso da Editora Alfaguara, na Espanha. Segundo Huerta, o responsável pela editora era amigo de Saramago, e teria mostrado o conto para o futuro Nobel.

Não vou entrar em discussões jurídicas sobre o conceito de plágio mas, quando li o livro do português, imediatamente notei que a idéia não era original. Veio-me à lembrança um filme que assisti na TV, ainda menino, sobre a história da Morte vir buscar alguém, se apaixonar pela pessoa e resolver tirar umas férias. Lógico que isso causa grande confusão no resto do mundo, com superlotação dos hospitais, onde pacientes terminais vivem indefinidamente, as filas de transplantes não andam, as UTIs ficam superlotadas, etc. Além do desemprego de coveiros e agentes funerários, que fazem passeatas cobrando uma solução do Governo.

Death takes a holiday

Com variações (ora a Morte é masculina, ora feminina), o argumento parece bem antigo. “A Morte Está de Férias” (Death Takes a Holiday), filme americano de 1934 que no Brasil ganhou o shakespeariano título de Uma Sombra Que Passa, foi inspirado numa peça do italiano Alberto Casella (1891-1957). Embalado pela Valsa Triste de Sibelius, Fredric March se envolve com a nobre Evelyn Grenable, deixando de furar o cartão de ponto por alguns dias.

O filme Encontro Marcado (Meet Joe Black, 1998), com Brad Pitt e Anthony Hopkins, é uma versão recente da mesma história, que também teve uma adaptação para a televisão americana em 1971, com Melvyn Douglas e Ivette Mimieux.

O problema é que, na minha memória, parecia um filme europeu. Uma família se reunia numa ilha, com o velho patriarca já bem doente. Sua jovem e bela neta se afoga na praia. Ou melhor, é salva por um misterioso homem que a leva nos braços até a areia. A família, agradecida, convida-o para ficar com eles. O velho reconhece quem é, mas se cala. Os dias passam, e pelo rádio chegam notícias de que ninguém mais morre no mundo, etc. Procurei na Internet, mas não encontrei referências. Se alguém assistiu este filme, dê a dica!

Em todo caso, acho que tanto Saramago quanto o mexicano partiram de uma idéia já de domínio público, e com o desenrolar previsível. Claro que o português ousa, dando à Morte (no caso, uma mulher) o direito de ter o que ninguém antes concedeu: uma noite de amor com o escolhido. Mas talvez isso se deva mais à censura da época dos primeiros filmes. E todo o lance entre a Morte e seu escolhido, explorado pelo português, não existe no conto do mexicano, que se limita a descrever o pano de fundo, sem protagonistas.

Claro que a Indesejada já apareceu em muitos filmes, em geral feia, magra e com uma foice na mão. Já jogou xadrez em filme do Bergman, já andou pelo deserto perseguindo Brancaleone, veio em busca do Barão de Münchausen. Esteve linda na pele de Jéssica Lange, em All That Jazz (1979), de Bob Fosse.

Jessica Lange

Dar à Morte um corpo humano e, mais que isso, o humano sentimento da paixão, parece que foi invenção do injustiçado Casella. Que teve o conterrâneo Dante Alighieri lá atrás, lhe dando inspiração. E muitos mitos e lendas, de vários povos do mundo!

Reforma ortográfica em Gaza

Acompanhando pelos jornais, angustiado, as notícias sobre a faixa de Gaza, me deparo com a nova grafia da palavra anti-semita. Agora é antissemita. Com dois SS. Melhor não fazer interpretaçõeS Semióticas.

PS: Aliás, você sabia que judeus e palestinos árabes são povos semitas? Assim com eram os assírios, fenícios e aramaicos, que habitavam a região.

Três versões de uma idéia

A indústria fonográfica tem coisas mirabolantes, difíceis de entender. Depois de ler o livro de memórias do Midani, algumas clarearam, outras ficaram mais confusas ainda.

Outro dia, fuçando na Internet, me deparo com a capa de um CD, lançado em 2008, que me chamou a atenção. Não conheço a cantora, mas a capa me pareceu bem familiar.

beatrizazevedoalegria

Só precisei de alguns segundos para localizar na estante o CD do Maurício Pereira, de 2007, do qual, aliás, gosto muito. A bela foto de Cristiano Mascaro pode ser vista integralmente quando desdobramos o encarte, mas mesmo reduzida dá pra notar a semelhança.

pra-marte

Aí enviei para o Maurício, velho amigo e parceiro, para sentir sua reação. Ele ficou surpreso, claro, mas elegantemente atribui isso a uma espécie de inconsciente coletivo. Pra demonstrar sua tese, me enviou a capa de uma coletânea da Maysa, lançada em 2008, com a mesma foto do Mascaro!

Maysa

Sincronicidade? Falta de imagens na praça? Citações cruzadas? Excesso de significados? Falta de imaginação? Signos em rotação? O que Maysa, Mauricio Pereira e Beatriz Azevedo tem em comum?

Desde 2008, um chapéu mexicano de parque de diversões na capa do CD…

O cordel de Oliver Sacks

Desde pequeno tenho fascínio pela literatura de cordel. Meu pai tinha uma boa coleção, e alternei muito gibi do Tarzan (ou do Pererê do Ziraldo) com as aventuras de príncipes e princesas do sertão, de cangaceiros e de onças e cachorros que falavam.

Os títulos eram deliciosos, e prenunciavam o enredo: O encontro de Lampião com o Diabo. A História do Pavão Misterioso. O Boi que Falou no Piauí. A Moça que Bateu na Mãe e Virou Cachorra. O Debate de Lampião com São Pedro. Encontro da Velha que Vendia Tabaco com o Matuto que Vendia Fumo. História de Três Irmãs que Queriam Casar com um Rapaz Só. A Moça que Casou 14 Vezes e Continuou Donzela. O Vaqueiro Que Deu a Luz no Sertão Alagoano. O Rapaz Que Mamou na Onça. O Encontro de Lampião com a Negra Dum Peito Só.

cordel

Até hoje, de vez em quando, leio um folheto (como o povo do sertão chama) com o maior prazer. Um dos títulos engraçados que eu conhecia era O Homem que Trocou sua Mulher por uma TV a Cores, dos anos 70. Por isso me espantei quando, há uns dez anos, passei numa livraria chique da Avenida Paulista e vi na vitrine um livro todo estiloso: O Homem Que Confundiu Sua Mulher com um Chapéu.

Achei que a nossa literatura de cordel finalmente tinha finalmente atingido o status de alta literatura. Mas bastou ver o nome do autor, o neurologista Oliver Sacks, pra consertar as coisas. Ou entortar de vez, pois o livro é um relato sobre casos psiquiátricos estranhos. Muito bem escrito, por sinal. Sacks tem vários livros publicados e obras adaptadas para o cinema (Tempo de Despertar, com Robin Williams e Robert De Niro), e tem leitores cativos no Brasil. Seu último título, Alucinações Musicais, está na minha lista para 2009.

Se não tivesse nascido na Inglaterra e estudado medicina, ele bem poderia ter sido um cearense arretado chamado Olivério Saques, contador de causos mirabolantes. Certamente continuaria sendo um profundo entendedor da alma humana, requisito básico para qualquer bom contador de histórias.

Ah, um pesto!

varanda

O Ano Novo na ilha foi mais que uma simples festa. Foi também um reencontro com gente querida, uma troca de presentes, e um rodízio de comidinhas e bebidinhas que está virando tradição. A cada ano um conviva traz uma novidade.

Se no ano passado eu impressionei com a caipirinha de gengibre (substitua o limão por fatias finas de gengibre fresco, fazendo da maneira habitual), desta vez o mano Marcelo e sua partner Rosa arrebentaram com uma de tangerina com pimenta-rosa. Inesquecível!

tangerina-com-pimenta-rosa

Duplas se revezaram na cozinha, a cada dia. Fui à caça (na peixaria) de um namorado de 4 kg, que foi dignamente recheado com uma farofinha de couve com camarões. Tia Adelaide fez um escondidinho de bacalhau cuja lembrança ainda me emociona.

escondidinho

Carmen fez uma musse de damascos na noite do dia 31 que vai entrar nas antologias familiares.

Espuma de damasco

No dia em que eu vim me embora (música de Caetano ao fundo), pedi à tia um pouco de manjericão, já que a imponente moita da perfumada erva ultrapassava os limites da horta. Ela me colheu uma braçada de tal modo generosa que foi preciso colocar num saco plástico daqueles de 50 litros. O carro inteiro ficou cheirando a manjericão, inclusive os passageiros, durante as 5 horas de viagem até São Paulo.

Bem, o que se faz com tanta matéria prima básica? Use algumas folhas para aromatizar uma margherita, e com o resto faça um pesto! Como o preço do pignoli anda soberbo (copyright by Cartola), optei pelas nozes, já em liquidação pós Natal. Há quem faça com castanha-do-pará, de caju, amendoim, variações bem brasileiras.

Garanto que foi o melhor pesto que já fiz, mas devo confessar também que foi o primeiro com nozes… Carmen e eu já tentamos fazer com pinhão, em Campos do Jordão, mas não deu muito certo.

Pesto

Receita:

– Muuuuuito manjericão fresco. (Na feira daria uns três maços grandes, no mínimo). Limpar o danado dá um certo trabalho. Muuuuita paciência, também. É quase tão chato quanto limpar camarão. Elimine talos e folhas amareladas ou secas. Pra facilitar, vamos concluir que você tem nas mãos 3 xícaras de folhas frescas, lavadas e enxutas.

– 4 dentes de alho, picados de forma infinitesimal. (Ou duas colheres de sopa bem cheias daquele pré-picado, de potinho, sem sal. Nada de pasta, pi-ca-do!)

– meia xícara de azeite extra virgem.

– 3 colheres de sopa cheionas de nozes picadas. Ou quatro cheinhas, vá lá!

– Meia xícara de um bom parmesão ralado. Se tiver um pedaço de pecorino em casa, aproveite e substitua uma parte. Fica ótimo!

– Sal e pimenta do reino ao ponto que você preferir. Vá pondo e experimentando.

Nos tempos pré-Benjamin Franklin, punha-se tudo num pilão e socava. Se você tem um bom almofariz e gosta de fazer pilates, vá em frente. Se acredita que a ordem dos fatores pode alterar o resultado, pile primeiro o alho e o sal (pode ser grosso, é mais cult), e em seguida o manjericão com as nozes. Depois vá acrescentando o azeite e o queijo ralado até virar uma pasta.

Se você é um preguiçoso moderno, use o processador (ou liquidificador).

Num pote de vidro bem fechado, dura semanas na geladeira. Para servir, é só misturar com uma massa quentinha, acabada de escorrer. Nessa aqui acrescentei fatias finas de abobrinha douradas no azeite, só pra complicar um pouquinho, porque estava fácil demais!

Fetuccine al pesto

Por falar em saci

Os amigos sabem do meu envolvimento com os sacis. Vem lá de trás, da leitura apaixonada de Monteiro Lobato, com 8 ou 9 anos. Creio ter visto mais de um no quintal da casa de minha avó, quando vinha passar férias em São Paulo.

Nos anos de juventude não pensei muito neles. Anos céticos, correndo atrás de ilusões feitas de luz. Na universidade, topei novamente com o pequeno unípede, através do filme, hoje clássico, de Rodolfo Nanni.

Em 2001, reconvertido, fiz uma peregrinação a Botucatu, para o Encontro Nacional de Criadores de Saci, patrocinado pela ANCSACI.

Durante dois dias as pessoas contam causos, tocam, dançam, comem e bebem numa quermesse onde tudo tem a cara do saci: pirulitos, bolos, salgados, souvenires. Doceiros e quituteiras vestem gorrinho vermelho, e o porco no rolete fica a noite inteira no fogo, com a turma vigiando para que o saci não faça suas traquinagens. E filosofam: “Em casa de saci, uma calça dá pra dois!”

Pouco tempo depois foi fundada a SOSACI, Sociedade Observadora de Sacis, com sede em São Luiz do Paraitinga. Defende que não se deve criar saci, os bichinhos têm de viver soltos. Não entrei na briga, pois tenho carteirinha dos dois times, criadores e observadores. Aliás, os dois lados adoram se encontrar e confraternizar!

Em 2004 organizamos um núcleo de saciólogos no saudoso Jajabar, na entrada da USP, com uma festa memorável. Escolas da região passaram a trocar o detestável haloween pela turma do saci, no dia 31 de outubro. E agora há uma campanha para que seja escolhido símbolo da Copa de 2014! A concorrência é braba, depois que lançaram o Pelezinho do Mauricio de Souza, mas pelo menos na Para-Olimpíada ele tem uma boa chance…

Originário do Vale do Paraíba, cada vez mais industrializado, é natural que o saci se esparramasse para regiões vizinhas fugindo do desmatamento. Durante os anos em que construí uma casa na praia de Juquehy, deparei com vários na Serra do Mar. O bambuzal que cerca o Rio Taquaribu é um ninhal deles, até hoje. Um dia ainda te mostro o lugar!

Quando a tia Adelaide construiu sua casa em Ilhabela, na virada do milênio, coisas estranhas aconteciam: arames que amanheciam cheios de nós, ferramentas que sumiam e reapareciam misteriosamente em lugares insólitos. Tivemos certeza de que ali havia saci.

Foi tanta convicção que a pequena rua que dá acesso à casa foi batizada informalmente de Travessa do Saci. Em 2007, a rua passou a fazer parte do mapa jurídico da prefeitura e virou oficial. E está aí, nessa foto tirada no último reveillon, para quem ainda tinha dúvida!

travessa-saci

Alguma poesia

A poeta, editora e agitadora cultural Dalila Teles Veras, da Alpharrabio de Santo André, me cobra por não ter citado a poesia nas minhas leituras, comentadas aqui. O primeiro impulso foi confessar que não leio poesia. Seria uma saída fácil, mas refletindo um pouco, vi que seria mentira.

Senão, com dizer que li e reli todo o Manoel de Barros, nos últimos anos? Também descobri a fantástica Adélia Prado, que passou a fazer companhia a Cecília e Hilda no meu panteão feminino.

Um poema maravilhoso do grego Kaváfis me fez mergulhar na obra de seu tradutor, José Paulo Paes. Poeta do primeiro time, com a verve provocativa de um Oswald e a erudição de um Mário.

Por motivos profissionais, percorri a obra de Mario Quintana em 2006, ano de centenário de seu nascimento. Confesso que o considerava um poeta menor, que abusava dos diminutivos, resvalando na pieguice. A leitura sistemática me revelou um universo lírico muito pessoal, com belos momentos.

Claro que Murilo Mendes e Bandeira, admiração de juventude, se mantiveram firmes no topo da tabela. Volto a eles de vez em quando, e é sempre redescoberta. Assim como o insuperável João Cabral, e alguns momentos essenciais de Drummond.

Conheci vários novos poetas, desde os tempos de estudante. Alguns sumiram no horizonte da memória, outros viraram burocratas das letras. Há pontos luminosos na lembrança, não o suficiente para configurar uma galáxia, ou pelo menos um sistema solar.

Felizmente, a Internet virou terreno fértil para a poesia, com uma profusão de blogs e sites mais ou menos poéticos. São caminhos por onde passeio às vezes, procurando pepitas no meio do cascalho. E encontro poetas cambiantes como Ana Peluso, por exemplo, que visito semanalmente. Que flertam com a música popular, sem deixar que a poesia vire apenas letra de música, como o cearense Marcus Dias. Profundamente originais como Glauco Matoso, ou engajados como Elisa Lucinda.

Mas paremos por aqui, antes que amigos se sintam melindrados ou me cobrem algum nome que certamente esqueci. Fiquemos com o moderno Kaváfis (1863 / 1933) que dialogou com o clássico Homero nesse fascinante poema.

ÍTACA
(Konstantinos Kaváfis)

Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrará
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda a espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.

Arte grega

Encontro com o Axolotl

Férias escolares, sobrinhos em visita a São Paulo. Vesti a fantasia de tio e comboiei Thais, Bruno e Luiza ao Aquário nesta segunda-feira.

Creio que metade dos tios e tias da cidade teve a mesma idéia estúpida: “Segunda feira deve estar vazio”. Havia congestionamento na rua, filas nos guichês e os corredores do aquário pareciam um formigueiro.

Sob um calor insuportável, enfrentei pirarucus, sucuris, aruanãs, mães esfalfadas, avôs suarentos, centenas de Tiaguinhos, Vanessinhas e outros nomes da moda. A temperatura ambiente devia girar em torno dos 50 graus.

Vi uma plaquinha salvadora indicando o recinto “Pólo Sul” (ainda com acento). Arrastei a sobrinhada pra lá, sob protestos, para ter uma decepção. Separados por uma parede de vidro, alguns pingüins pareciam estar confortáveis, mas no lado reservado aos humanos fazia a mesma temperatura equatorial dos outros ambientes.

sobrinhosOs grandes peixes amazônicos, os tubarões e raias, os répteis e as raposas voadoras – “os maiores morcegos do mundo” – atraíam a atenção da turba. Os sobrinhos se enfiavam no meio da massa pegajosa com uma facilidade que meu tamanho não permitia. Pra escapar do pisoteamento, fiquei perto de alguns aquários menores, com alguns sapos e salamandras que não despertavam muita atenção, a não ser comentários de nojo e desprezo.

Foi quando bati o olho no axolotl e gelei. Pela primeira vez estava em frente ao mítico animal que motivou um conto arrepiante e inesquecível de Julio Cortazar (que você pode ler aqui, em espanhol).

Fascinado, aproximei o rosto do vidro e tentei enxergar os olhos do bicho, enquanto rememorava a narrativa. Como era mesmo? De repente, lembrei do final e recuei, ressabiado. Saí meio cabreiro do lugar, espero que ninguém tenha notado. Amanhã, ao acordar, será um alívio rever meu rosto no espelho.

axolotl


Arquivos