Alguma poesia

A poeta, editora e agitadora cultural Dalila Teles Veras, da Alpharrabio de Santo André, me cobra por não ter citado a poesia nas minhas leituras, comentadas aqui. O primeiro impulso foi confessar que não leio poesia. Seria uma saída fácil, mas refletindo um pouco, vi que seria mentira.

Senão, com dizer que li e reli todo o Manoel de Barros, nos últimos anos? Também descobri a fantástica Adélia Prado, que passou a fazer companhia a Cecília e Hilda no meu panteão feminino.

Um poema maravilhoso do grego Kaváfis me fez mergulhar na obra de seu tradutor, José Paulo Paes. Poeta do primeiro time, com a verve provocativa de um Oswald e a erudição de um Mário.

Por motivos profissionais, percorri a obra de Mario Quintana em 2006, ano de centenário de seu nascimento. Confesso que o considerava um poeta menor, que abusava dos diminutivos, resvalando na pieguice. A leitura sistemática me revelou um universo lírico muito pessoal, com belos momentos.

Claro que Murilo Mendes e Bandeira, admiração de juventude, se mantiveram firmes no topo da tabela. Volto a eles de vez em quando, e é sempre redescoberta. Assim como o insuperável João Cabral, e alguns momentos essenciais de Drummond.

Conheci vários novos poetas, desde os tempos de estudante. Alguns sumiram no horizonte da memória, outros viraram burocratas das letras. Há pontos luminosos na lembrança, não o suficiente para configurar uma galáxia, ou pelo menos um sistema solar.

Felizmente, a Internet virou terreno fértil para a poesia, com uma profusão de blogs e sites mais ou menos poéticos. São caminhos por onde passeio às vezes, procurando pepitas no meio do cascalho. E encontro poetas cambiantes como Ana Peluso, por exemplo, que visito semanalmente. Que flertam com a música popular, sem deixar que a poesia vire apenas letra de música, como o cearense Marcus Dias. Profundamente originais como Glauco Matoso, ou engajados como Elisa Lucinda.

Mas paremos por aqui, antes que amigos se sintam melindrados ou me cobrem algum nome que certamente esqueci. Fiquemos com o moderno Kaváfis (1863 / 1933) que dialogou com o clássico Homero nesse fascinante poema.

ÍTACA
(Konstantinos Kaváfis)

Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrará
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda a espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.

Arte grega

Anúncios

3 Responses to “Alguma poesia”


  1. 1 Mario Abramo 16/01/2009 às 2:15 am

    Poesia visual pode?
    Antonio Gades, Cristina Hoyos, Carlos Saura, Manuel de Falla (?)
    Pas de deux, Dança do Fogo Fátuo, Amor Brujo

  2. 2 Daniel Brazil 16/01/2009 às 6:13 pm

    Teremos de abrir um novo post só pra tratar do tema, Mário! Tem muita coisa linda por aí, feita de som, luz e sombra.

  3. 3 dalila teles veras 16/01/2009 às 10:58 pm

    caro Daniel,
    E eu que cheguei a pensar que um grande leitor como você não lia poesia! E que poesia! Não me arrependo da provocação.
    Tive a honra de privar da amizada do poeta José Paulo Paes, citado por você, que além de enorme poeta foi um ser humano de primeira grandeza. Gratíssima por difundir, assim, o melhor da poesia brasileira.
    abraço
    dalila teles veras


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s





%d blogueiros gostam disto: