O cordel de Oliver Sacks

Desde pequeno tenho fascínio pela literatura de cordel. Meu pai tinha uma boa coleção, e alternei muito gibi do Tarzan (ou do Pererê do Ziraldo) com as aventuras de príncipes e princesas do sertão, de cangaceiros e de onças e cachorros que falavam.

Os títulos eram deliciosos, e prenunciavam o enredo: O encontro de Lampião com o Diabo. A História do Pavão Misterioso. O Boi que Falou no Piauí. A Moça que Bateu na Mãe e Virou Cachorra. O Debate de Lampião com São Pedro. Encontro da Velha que Vendia Tabaco com o Matuto que Vendia Fumo. História de Três Irmãs que Queriam Casar com um Rapaz Só. A Moça que Casou 14 Vezes e Continuou Donzela. O Vaqueiro Que Deu a Luz no Sertão Alagoano. O Rapaz Que Mamou na Onça. O Encontro de Lampião com a Negra Dum Peito Só.

cordel

Até hoje, de vez em quando, leio um folheto (como o povo do sertão chama) com o maior prazer. Um dos títulos engraçados que eu conhecia era O Homem que Trocou sua Mulher por uma TV a Cores, dos anos 70. Por isso me espantei quando, há uns dez anos, passei numa livraria chique da Avenida Paulista e vi na vitrine um livro todo estiloso: O Homem Que Confundiu Sua Mulher com um Chapéu.

Achei que a nossa literatura de cordel finalmente tinha finalmente atingido o status de alta literatura. Mas bastou ver o nome do autor, o neurologista Oliver Sacks, pra consertar as coisas. Ou entortar de vez, pois o livro é um relato sobre casos psiquiátricos estranhos. Muito bem escrito, por sinal. Sacks tem vários livros publicados e obras adaptadas para o cinema (Tempo de Despertar, com Robin Williams e Robert De Niro), e tem leitores cativos no Brasil. Seu último título, Alucinações Musicais, está na minha lista para 2009.

Se não tivesse nascido na Inglaterra e estudado medicina, ele bem poderia ter sido um cearense arretado chamado Olivério Saques, contador de causos mirabolantes. Certamente continuaria sendo um profundo entendedor da alma humana, requisito básico para qualquer bom contador de histórias.

Anúncios

2 Responses to “O cordel de Oliver Sacks”


  1. 1 Franco Pimentel 25/05/2010 às 3:02 am

    Adorei o artigo.
    É leve curto e objetivo.
    Estamos publicando na rede pública estadual de Goiás uma seqüência didática de teatro para o 8ºano do ensino fundamental. Estamos abordando a modalidade contação de história pela perspectiva da literatura de cordel.
    Gostaria muito de utilizar esse artigo como exercício introdutório ao universo temático de nossas aulas.
    Ficamos muito contentes se a resposta for positiva.
    abraço.
    Franco

  2. 2 Daniel Brazil 25/05/2010 às 9:51 am

    Fico feliz de poder ser útil, Franco. Defendo a tese de que todo aluno de Português, História ou Comunicação, em qualquer grau, deveria tomar conhecimento da literatura de cordel em sala de aula. Utilize da melhor forma possível.

    Abraço,


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s





%d blogueiros gostam disto: