Saramago plagiário?

O contista mexicano Teófilo Huerta acusa José Saramago de ter plagiado uma obra sua ao escrever As Intermitências da Morte (publicado em 2005). O conto está disponível na rede,  em espanhol, pra quem quiser conferir, ou nessa tradução da professora Lena Lessa, uma brasileira que vive em Portugal.

O homem diz que escreveu o conto em 1987, e o enviou para um concurso da Editora Alfaguara, na Espanha. Segundo Huerta, o responsável pela editora era amigo de Saramago, e teria mostrado o conto para o futuro Nobel.

Não vou entrar em discussões jurídicas sobre o conceito de plágio mas, quando li o livro do português, imediatamente notei que a idéia não era original. Veio-me à lembrança um filme que assisti na TV, ainda menino, sobre a história da Morte vir buscar alguém, se apaixonar pela pessoa e resolver tirar umas férias. Lógico que isso causa grande confusão no resto do mundo, com superlotação dos hospitais, onde pacientes terminais vivem indefinidamente, as filas de transplantes não andam, as UTIs ficam superlotadas, etc. Além do desemprego de coveiros e agentes funerários, que fazem passeatas cobrando uma solução do Governo.

Death takes a holiday

Com variações (ora a Morte é masculina, ora feminina), o argumento parece bem antigo. “A Morte Está de Férias” (Death Takes a Holiday), filme americano de 1934 que no Brasil ganhou o shakespeariano título de Uma Sombra Que Passa, foi inspirado numa peça do italiano Alberto Casella (1891-1957). Embalado pela Valsa Triste de Sibelius, Fredric March se envolve com a nobre Evelyn Grenable, deixando de furar o cartão de ponto por alguns dias.

O filme Encontro Marcado (Meet Joe Black, 1998), com Brad Pitt e Anthony Hopkins, é uma versão recente da mesma história, que também teve uma adaptação para a televisão americana em 1971, com Melvyn Douglas e Ivette Mimieux.

O problema é que, na minha memória, parecia um filme europeu. Uma família se reunia numa ilha, com o velho patriarca já bem doente. Sua jovem e bela neta se afoga na praia. Ou melhor, é salva por um misterioso homem que a leva nos braços até a areia. A família, agradecida, convida-o para ficar com eles. O velho reconhece quem é, mas se cala. Os dias passam, e pelo rádio chegam notícias de que ninguém mais morre no mundo, etc. Procurei na Internet, mas não encontrei referências. Se alguém assistiu este filme, dê a dica!

Em todo caso, acho que tanto Saramago quanto o mexicano partiram de uma idéia já de domínio público, e com o desenrolar previsível. Claro que o português ousa, dando à Morte (no caso, uma mulher) o direito de ter o que ninguém antes concedeu: uma noite de amor com o escolhido. Mas talvez isso se deva mais à censura da época dos primeiros filmes. E todo o lance entre a Morte e seu escolhido, explorado pelo português, não existe no conto do mexicano, que se limita a descrever o pano de fundo, sem protagonistas.

Claro que a Indesejada já apareceu em muitos filmes, em geral feia, magra e com uma foice na mão. Já jogou xadrez em filme do Bergman, já andou pelo deserto perseguindo Brancaleone, veio em busca do Barão de Münchausen. Esteve linda na pele de Jéssica Lange, em All That Jazz (1979), de Bob Fosse.

Jessica Lange

Dar à Morte um corpo humano e, mais que isso, o humano sentimento da paixão, parece que foi invenção do injustiçado Casella. Que teve o conterrâneo Dante Alighieri lá atrás, lhe dando inspiração. E muitos mitos e lendas, de vários povos do mundo!

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8 Responses to “Saramago plagiário?”


  1. 1 Fernando de F. L. Torres 23/01/2009 às 12:52 pm

    Essa é uma questão que costuma perseguir Saramago. Sua análise é precisa e de inquestionável qualidade. alguns temas são universais, algumas semelhaças são homenagens ou influencias.

    Abraços

  2. 2 Daniel Brazil 23/01/2009 às 3:52 pm

    Reli o tal conto, e me parece bem óbvio. Nada que não tenha sido antecipado nas obras anteriores. Como é que o cara alardeia originalidade? Claro, polemizar com um Nobel dá cartaz…

  3. 3 Michelle Rolim 19/02/2009 às 2:33 pm

    É verdade, Sr. Daniel, parece-nos que o contista italiano quis pegar uma carona com Saramago. Afinal, gerar polêmica em torno de um Nobel deve ter lhe dado o destaque que desejou qdo da publicação do seu conto (por sinal com tema muito “original”. Abç. a todos.

  4. 4 Daniel Brazil 19/02/2009 às 2:37 pm

    É isso aí, Michelle. Obrigado pela visita!

  5. 5 Regina Sardoeira 15/06/2009 às 2:23 pm

    Acabo de ler o conto de Huerta e, para além de uma espécie de mote comum, não vejo onde reside o plágio! Há temas que, pela sua universalidade, pelo desejo humano de igualar Deus ou de ser o homem, ele próprio, Deus, podem acorrer à mente de muitos sem que uns saibam das ideias dos outros.
    Eu própria escrevi um livro (comecei-o em 2006) que ainda não foi editado (está na fase de depuração) onde trato o fenómeno do retorno no tempo, a saber: alguém faz anos e, no dia seguinte, descobre, perplexa, que recuperou trinta anos de vida! Em 2009 vejo um filme intitulado O Estranho Caso de Benjamin Button, baseado no conto homónimo de F. Scott Fitzgerald, que apenas li naquela altura, depois de ver o filme! Embora a história de Benjamin Button e a minha sejam diversas, o tema do viver ao contrário (ou seja : começar velho e acabar bebé) pode indiciar uma relação, pois a heroína da minha história retorna no tempo! Isso significa que plagiei? Claro que não e por duas razões: em primeiro lugar nunca tinha lido antes o conto de Fitzgerald e, em segundo lugar, todo o desenvolvimento da história é muito diferente!
    Por idênticas razões se poderia dizer que Camões, nos Lusíadas, plagiou A Odisseia, pois a epopeia de Camões começa exactamente na mesma e a sequência só é diferente porque diferentes são os feitos narrados: também poderíamos afiançar que Eça de Qeuiroz plagiou Zola várias vezes, ou Flaubert…há muitas semelhanças entre os livros respectivos…e por aí adiante! Não dizemos isso pois não?
    Então, vamos ler bem as duas obras – o conto de Huerta e o romance de Saramago – perceber bem a noção de plágio e parar de inventar escândalos!

  6. 6 Daniel Brazil 15/06/2009 às 3:20 pm

    Pertinentes tuas comparações, Regina. Parece que Huelga está destinado a ser um escritor medíocre, que colocou seu nome na história apenas por uma polêmica com Saramago. Merece ser esquecido.
    Abraço!

  7. 7 Cláudia Belintani 05/02/2012 às 10:52 am

    Olho para trás e vejo um homem torneado, com uma linda jovem nos braços e um velho sábio assistindo a tudo, com a chave da vida nas mãos, identificando a morte e também apaixonado por ela.
    Era uma menina quando vi o filme na televisão.
    De alguma forma, todos nós sonhamos em negociar com a morte.
    Saramago, Borges, Bergman, Shakespeare e tantos outros brincaram com a mesma história.
    Nossos medos e sonhos acabam se esbarrando.
    Parabéns pelas abordagens.
    Cláudia


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