Uma cachaça e uma história

Monte Alegre do Sul

Há quatro anos fui passar um feriado em Monte Alegre do Sul. A agradável estância do interior paulista, entre Amparo e Serra Negra, é um pequeno e montanhoso município que se orgulha de fazer as melhores cachaças do estado.

São mais de cinquenta alambiques, o que dividido pela população (menos de 7 mil, pelo IBGE de 2005) dá mais de um para cada 140 habitantes. Considerando crianças e abstêmios dos dois sexos, nem ouso fazer a conta do saldo… É muita cachaça!

Antiga região de café, que entrou em declínio, dedica-se agora ao cultivo de morangos e à produção da marvada. Muitas cachaças tem nome italiano, ostentando com orgulho a origem dos ex-colonos do café. E são realmente excelentes! Num ranking das melhores cachaças do Estado, Monte Alegre emplacou três das 6 mais (inclusive o segundo lugar). Para um município daquele tamaninho, é de tirar o chapéu.

Chora Menina

Há nomes famosos como a Chora Menina, a Campanari, a Rouxinolli, a do Italiano. Os municípios vizinhos também perceberam o potencial da região, e ostentam marcas respeitadas como a Galo Branco (de Socorro), a Flor da Montanha (da família Benedetti, de Amparo), Theodoro e Santo Remédio (de Serra Negra).

Visitar estes alambiques é conhecer locais lindos, com características culturais e históricas fascinantes. E também a certeza de voltar trupicando, chifrando os barranco, cambeteando, como canta a grande Inezita.


Por isso é bom planejar o passeio e combinar que alguém sóbrio te leve de volta, se estiver de carro.

A mais famosa das cachaças de Monte Alegre é a Salmo XXIII, fabricada na fazenda do mesmo nome. Chegamos lá (eu e a Carmen) por uma estrada de terra que com chuva fica meio intransitável.

Um lugar lindo, com cachoeiras, muita mata e um dono meio doidinho, bom de papo, que nos recebeu com alegria e uma generosa degustação diretamente do barril .

Edson Peres herdou a fazenda da família. Foi estudar Arquitetura em Campinas, “bagunçou muito” (palavras dele), mas voltou para cuidar da propriedade. Tornou-se escultor, e fazia estranhas obras inspiradas nas formas tortuosas dos troncos e paus que achava em suas caminhadas.

Contou que um padre da região havia implicado com o nome da cachaça, e me perguntou o que achava de mudar para “Cachaça do Escultor”. Obviamente repeli a idéia, e disse que mandasse o padre lamber sabão. Ele chegou a fazer alguns rótulos com a nova marca, mas não deu muito certo. Os clientes que enfrentavam os 7 km de barro continuavam pedindo a Salmo XXIII, com histórica razão.

O alambique é maravilhoso, e a cave de pedra onde ficam os centenários tonéis parece cenário de filme. Edson nos serviu cachaças de várias safras, em pequenas cuias feitas de cabaça. A cada prova, ele também emborcava uma. Falava sem parar, e dizia que “este é o meu néctar, tomo o dia todo e não me acontece nada!”. Bem…

Compramos várias garrafas,  mel e uma excelente pimenta cumari curtida na pinga. Na volta, claro, caiu o maior toró, e quase não conseguimos chegar à pousada Cafezal em Flor, onde estávamos hospedados.

Pois no final de 2008 soube, através do Mauricio Pereira, que o Edson da Salmo XXIII morreu. Diz Pereira, em homenagem feita no blog Midauma: “Quando morre um cara desses, que meio que é um guerrilheiro-artesão-inventor, morre também um pouquinho duma maneira de se ver o mundo”.

Com menos de 50 anos, Edson parecia destinado a se tornar um daqueles velhos meio sábios, meio malucos, que ligam eternamente sua imagem àquilo que fazem. Será lembrado como um jovem meio sábio, meio maluco, que ligou eternamente sua imagem à famosa cachaça de sua fazenda, mais até do que gostaria. Sonhava em ser mais reconhecido como escultor.

Em sua homenagem abri a última garrafa de Salmo XXIII que tinha em casa e fiz um brinde. Tomara que lá em cima ele largue essa bobagem de fazer escultura e mostre para os anjos como se faz uma boa cachaça, “esculpida no tempo”!

Salmo XXIII

2 Responses to “Uma cachaça e uma história”


  1. 1 BANANA 04/03/2009 às 3:04 pm

    DANIEL VOCÊ TÁ SOMÍTICO,ANDA POR AI APRECIANDO CACHAÇA BOA E ESQUECE DO AMIGOS. DEPOIS PARA FAZER INVEJA MOSTRAR FOTOS E ESVREVE BONITO.VOCÊ TEM UMA DIVIDA COMIGO LEMBRA DOS PONTOS NA CNH. AQUILO VALE SE PAGA COM UM TRAGO DA AZULADINHA. AH PARA NÃO FICAR PARA TRÁS QUERO TE DIZER QUE ESTOU COM UMA HAVANA RESERVA ESPECIAL EM CASA MORRA DE INVEJA E DE SEDE SEU PUTO. ABRAÇOS BANANA

  2. 2 Daniel Brazil 04/03/2009 às 5:21 pm

    A dívida será paga em espécie, Banana. Espécie líquida, claro!
    Em breve apareço em S. Bernardo, aguarde.

    abraço,


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