Outra cachaça e outra história

joaopacifico

Em 1998 morreu João Pacífico, o maior poeta da música caipira paulista. Meu amigo Paulo Weidebach, apreciador do gênero, me intimou:

– Precisamos fazer um documentário, antes que a memória se perca. Você escreve o roteiro?

Mergulhei por mais de um mês na obra, nos versos, nos relatos sobre o autor de Pingo Dágua, Cabocla Tereza e Chico Mulato. Levantei toda a discografia no Museu da Imagem e do Som. Paulo inscreveu o roteiro no Prêmio Estímulo do governo do Estado, e ganhamos. Dinheiro que só dava pra fazer um curta econômico, mas a idéia do diretor era outra. Convidamos artistas conhecidos para cantar músicas do João, e todos toparam fazer a homenagem “na faixa”, sem cachê. Renato Teixeira, Jair Rodrigues, Mônica Salmaso, Benjamin Taubkin, Pena Branca, Mauricio Pereira, Passoca, Paulo Freire, Gereba, Freddy Mogentale e Maria Antônia, Robertinho do Acordeon e, claro, Inezita Barroso.

Acabou virando um programa lindo, piloto de uma provável série sobre os grandes da música caipira, mas não conseguimos patrocínio para prosseguir o projeto.

As gravações foram no ano de 1999. No ano anterior, eu tinha passado uma temporada em Alagoas, e trazido uma garrafa da afamada Azuladinha, mítica cachaça em cuja fermentação são adicionadas folhas de laranjeira, que dão o tom azulado.

azuladinha1

Era um presente para o Paulo W, colecionador de cachaças e dono de um belo acervo de rótulos. Sem grana nem pro lanchinho, resolvemos oferecer para os músicos, no estúdio de gravação, uma mesa com quitutes caipiras, feitos em casa. O produtor Almir Almas André Bueno fez milagres: Bolo de fubá, biscoitinhos, pão de queijo, café e uma cachacinha. Aliás, várias. Paulinho colocou na mesa a Azuladinha, pra fazer bonito.

Não havia grana nem pro táxi. Fui buscar Inezita no seu apartamento, ali na Santa Cecília, e leva-la até o estúdio, na Turiassu, com meu próprio carro. Quando ela entrou e viu a garrafa sobre a mesa, exclamou:

– Azuladinha! Há quanto tempo não vejo uma… Ah, essa garrafa é minha, vai ser o meu cachê, ora se vai!

E abraçou a garrafa como quem abraça uma pessoa querida. Paulinho olhou para mim, meio sem jeito, abrindo os braços como quem diz “fazer o que?”. Fiquei indignado. Viajei com a porra da garrafa por mais de dois mil km e o cara dá de presente pra primeira sirigaita que aparece?

Tá bom, admito que não era qualquer sirigaita. Inezita cantou, Inezita levou. Espero que lhe tenha trazido boas recordações.

PS: No final de 2008 meu sogro chega pra mim, do alto de seus 80 anos, e diz que o médico mandou parar com destilados. Agora só um vinhozinho de vez em quando. E me deu meia dúzia de garrafas que guardava por razões sentimentais. Não é que no meio havia uma Azuladinha, intacta?

Saiba, Paulo W, que você não vai chegar nem perto dessa. Nem você, Dona Inezita!

azuladinha2

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22 Responses to “Outra cachaça e outra história”


  1. 1 Almir Almas 21/02/2009 às 12:58 am

    Daniel, o crédito pela mesa farta e bem montada é para o produtor André Bueno. Meu trabalho nesse documentário foi um pouco mais de bastidores. E depois, com o Paulo, nas tentativas de vendas para a continuidade do projeto. Realmente, eu tava lá e vi o quanto a Inezita adorou a azuladinha e o bolo de fubá.

  2. 2 Daniel Brazil 21/02/2009 às 1:01 am

    Taí uma testemunha que, além não me deixar mentir, corrige meus lapsos de memória. Crédito para o André Bueno!

  3. 3 paulow 21/02/2009 às 11:19 am

    Demorei com a foto, foi assim mesmo !!!
    Linda essa garrafa que seu sogro lhe deu,
    cheia de história, marcada pelo tempo….
    Obrigado pelo post.

  4. 4 Daniel Brazil 21/02/2009 às 1:22 pm

    Você é protagonista desta história, Paulo! Na verdade, vamos abrir esta garrafa juntos, com o Almir, qualquer dia desses. Mas você só vai pegar no copinho! 🙂

  5. 5 tony silva 16/06/2009 às 5:28 pm

    Essa azuladinha,me fez recordar uma linda viagem feita por esse Brasil afora.Em 1989 viajei para Maceio,foi um suscesso quando me apresentaram a danada da azuladinha.Todos os componentes da viajem apreciaram o sabor diferente da azuladinha.gostaria de saber se ainda fabricam,e como adquiri-la aqui em Brasilia.Um brinde e aguardo resposta.

  6. 6 Daniel Brazil 16/06/2009 às 6:01 pm

    Recentemente um amigo veio de Alagoas e afirmou que ainda existe, Tony. ele viu (e provou) várias garrafas no Mercado Municipal da cidade.
    Aqui em São Paulo nunca vi uma pra vender…
    Abraço!

    • 7 tony silva 16/06/2009 às 7:52 pm

      OK!Vou pesquisar mais,se por acaso eu encontrar um exemplar em Brasilia,volto a fazer comentarios.Um abraço,e claro um brinde com a melhor !

  7. 8 Daniel Brazil 16/06/2009 às 8:23 pm

    Tin tin!

  8. 9 Nelson Galvão 21/07/2010 às 7:22 pm

    Caro amigo.
    Por curiosidade, descobrí agora o quanto cada vez mais a AZULADINHA é bem aceita no Brasil e no exterior. Informo ao Amigo, que EXISTE SIM a Aguardente Azuladinha, não é de Arapiraca(AL, há mais de 20
    anos é engarrafada aquí em Maceió e temos uma loja no Aeroporto Internacional Zumbí dos Palmares na Praça de Alimentação. Observe que há no rótulo GG (GG quer dizer Galvão & Galvão Ltda), nosso produto é legalmente registrado no Ministério da Agricultura em Alagoas e o INPI o que, descobrimos ano passado um falsário no RN e que solicitamos a retirada imedianta etc.
    Foi ótimo ler e ver o q contém da Azuladinha, fico grato ao Sr.
    Um Forte Abraço Nelson Galvão-Sócio-Administrador (Galvão & Galvão Ltda.)

    • 10 Davilson Azevedo 02/06/2015 às 5:07 pm

      Nelson, tem como informar se a Azuladinha já se encontra aqui em São Paulo? Tem alguma forma de adquirir algumas garrafas dessa boa cachaça?

      • 11 João Duarte. 16/12/2015 às 4:40 pm

        Rapaz em 1989 em plena campanha do collor eu conheci essa delicia de cachaça, fazendo um serviço pra uma alagoano funcionario publico, dizendo ele ser amigo do collor e que aquela caixa com 6 garras tinha sido presente do então candidato, e me presenteou com uma, no ano seguinte o coitado havia sido demitido tava num desespero danado e enchendo a cara de azuladinha, na SQN 414 muita gente conheceu essa figura que ganhou o apelido de azuladinho, caso a parte a danada da cachaça é boa mesmo.

  9. 12 Daniel Brazil 21/07/2010 às 8:15 pm

    Uma bela cachaça, Nelson, merece a fama que tem!

  10. 13 antonio ricardo 02/01/2011 às 3:00 pm

    queria sabe o ano que foi produzida uma aguardente engarrafada em porcelana com produção limitada da azuladinha composta com folha de laranjeira adoçada?
    pois eu tenho um exemplar deste.
    desde ja agradeço.

    • 14 Nelson Galvão 07/03/2011 às 3:50 pm

      Sr. Antonio Ricardo
      Boa tarde
      Lendo hoje sua pergunta, afirmo que essa garrafa de porcelana Azuladinha é de Dezembro de 2010.(é relíquia coisa rara)
      Abraços Nelson

      • 15 Nilson Almeida 11/08/2012 às 11:45 am

        Caro Nelson, meu pai e de AL e sempre me fala da azuladinha! estamos morando em SP agora e gostaria de presentialo com uma garrafa da azuladinha! onde encontro para comprar?Obrigado!

  11. 16 geyson 27/10/2014 às 12:17 am

    tenho uma azuladia para vender no mercado livre bastante antiga e em bom estado.

  12. 18 Nivaldo 26/04/2015 às 2:52 pm

    Gostaria de saber onde posso comprar a cachaça azuladinha, aqui em São Paulo; capital. Trouxe uma garrafa de Maceió, mas nunca mais achei para comprar. Se alguém tiver o endereço onde possa adquirir a azuladinha, por favor me forneça.

  13. 19 Davilson Azevedo 02/06/2015 às 5:06 pm

    Nelson Galvão, por favor tem como informar como adquirir aqui em São Paulo algumas garrafas da Azuladinha (original). Vocês não encaminham para São Paulo por meio de transportadora? Tomei alguns goles com um amigo que é de Alagoas (Moacir/Taxista) e achei um espetáculo esta Cachaça.

  14. 20 Davilson Azevedo 10/02/2016 às 5:12 pm

    Sr. Nelson Queiróz, já fiz a pergunta anteriormente e vou repeti-la. Tem alguma revenda aqui em São Paulo? Recebi uma amostra dessa cachaça e gostaria de obtê-la, porém aqui em São Paulo pois não irei para Alagoas apenas para comprar a cachaça.

  15. 21 Daniel Brazil 22/02/2016 às 9:41 pm

    Davilson, o Nelson Galvão não pode ler tua pergunta, a não ser que ele entre aqui nas respostas deste post, por qualquer motivo. Infelizmente não o conheço pessoalmente, não posso repassar tua mensagem…


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