Arquivo para fevereiro \12\UTC 2009



O mistério das cantoras

A tentação do diabo

A teoria mais aceita do surgimento da música especula que tenha nascido da imitação do canto dos pássaros. Imagine um descabelado homem das cavernas tentando transformar seus grunhidos em melodia e você vai desconfiar que o processo deva ter sido longo e penoso. Principalmente para sua paciente esposa, que provavelmente embalava o bebê com sons mais intuitivos e aconchegantes.

Alguns milhares de anos depois, logo que dominou os rudimentos da coisa, o homem destinou sua nova habilidade para as funções rituais, místicas, de comunicação com o outro mundo, o espiritual. Enquanto a mulher tratava de ensinar a prole cantarolando as sílabas, ensaiando as primeiras cirandas e canções de ninar, os sacerdotes tratavam de dominar as formas ditas superiores de música, seu ensino e registro formal. Esta divisão estendeu-se por muitos séculos, atravessou a Antiguidade, dominou a Idade Média e chegou até o século XX, representada pelos grandes compositores, maestros e instrumentistas que construíram a tradição erudita da música ocidental, com raríssimas exceções do sexo oposto.

A música laica era o espaço permitido às vozes femininas, e as canções de colheita, de festa ou de trabalho, de dor ou de alegria, assim como as citadas cirandas e canções de ninar, acabaram dominadas pelo registro mais agudo da voz humana. Cá entre nós, muito mais próximo do canto dos pássaros do que as tentativas daquele primeiro troglodita.

Mas um dia o homem inventou o fonógrafo e o rádio, e descobriu que podia ganhar dinheiro vendendo música à distância. Só não previu que estas invenções, destinadas a levar a música para dentro do lar, estavam colocando no território feminino todo o arsenal de truques necessário para que elas assumissem de vez a ponta da grande corrida musical.

É por isso que temos muito mais cantoras que cantores no mundo. Entendeu, Joãozinho?

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Retratos Falhados

retratos-falhados

A cronista, livreira, editora, blogueira, agitadora cultural e sempre poeta Dalila Teles Veras lança seu novo livro nesta semana. Estarei lá para trocar dois dedos de prosa, se isso for permitido em noite de versos.

Está aí o convite, para quem quiser aparecer. E também uma pequena amostra da refinada poesia que vem da Ilha da Madeira, via Santo André, com sabor brasileiro e universal.


retratos

serei eu

(desenhada, naif, acadêmica

pontilhada, caricaturada)

alma roubada

aprisionada em

tão díspares celas?

sendo eu, já  outra

sendo outras, ainda sou

serei eu?

Um mercado de domingo

Ir a Belém do Pará e não conhecer o Mercado do Ver-o-Peso  (com hífen!) deve ser uma espécie de pecado.

artesanato

Dizem os paraenses que é o maior mercado ao ar livre da América Latina, o que soa como certo exagero. Os vários quarteirões da feira de Caruaru (PE) ou de Feira de Santana (BA) não me parecem menores. Mas é inegável que aqui há características únicas.

gaiola


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Primeiro, o porto e as docas, na baía fluvial do Guajará. Segundo, a arquitetura do prédio principal, o Mercado de Peixe, visível à distância.

Solar da Beira

Outros prédios históricos, como o Solar da Beira, hoje transformado em espaço cultural, também chamam a atenção.

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camaroes

pupunhas

farinhas

Para quem gosta de cheiros, cores, texturas e sabores, é uma espécie de parque de diversões.

Infelizmente chovia muito no sábado em que lá estive, com o pessoal do Fórum. Mesmo assim, comprei umas coisinhas. Trouxe pra casa tucupi, pimenta e farinha de mandioca amarela, difícil de achar no Sul. O tucupi acompanhou um belo peixe, puxado na pimenta, que animou a também chuvosa noite de sábado paulistana, uma semana depois.

grupo-folclorico

Dançarinos

Ainda pudemos ver grupos folclóricos se apresentando no meio da feira, apesar da chuva. Tudo pelo social…

Confesso que faltou muita coisa pra ver em Belém. Pretendo voltar, se a tanto me ajudar o engenho e arte (e uma graninha, claro, que o preço da passagem de avião está nas nuvens!).

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Civilização

… e no meio do Fórum Social, no campus da Rural, vejo um índio esperando a vez para usar um banheiro químico.

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Tentei imaginar no que estaria pensando o cacique.

1)  É isto a civilização?

2) Fazer xixi no mato não é mais  saudável pra natureza?

3) Será que isso daria certo lá na aldeia?

4) Putz, como homem branco é porco…

FSM, parte 3

Sexta, 29 – Novamente dividimos as equipes. Aline foi com os jovens para a Rural, enquanto eu andei quilômetros dentro da UFPA, gravando reuniões temáticas. Embora o olhar fosse atraído pela multidão colorida que circulava pelos stands, não poderia deixar de registrar que o Fórum era um lugar de trabalho, onde se trocam experiências e tomam decisões. Gravei uma vietnamita fazendo uma intervenção marcante numa reunião sobre meio ambiente, índios brasileiros ouvindo uma palestra sobre os 50 anos de Cuba, uma senegalesa puxando a orelha de sindicalistas machistas.

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senegalesa


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Na hora do almoço, disposto a passar fome pra não pegar fila, ouvi um barqueiro dizer a um grupo de estrangeiros:

– Querem comer? Por dois reais, levo vocês até o outro lado do rio, onde tem peixe frito na hora e cerveja gelada.

Pulei pro barco na hora, assim como mais dez que passavam. Em alguns minutos estávamos aportando num bar-palafita bem rústico, sentindo o cheirinho de peixe no ar. Filé de dourada, uma porção que dava pra dois, arroz,feijão, vinagrete e farinha amarela. Foi quando melhor almocei. Pena que só descobri a bocada no penúltimo dia!

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restaurante-no-rio

Na volta, outra tempestade. Um filme sobre a questão do aborto (O Fim do Silêncio, de Thereza Jessoroun, 2007) foi exibido num coreto na beira do rio Guamá, mas a chuva restringiu bastante o público. No final, um debate interessante, com homens e mulheres discutindo a questão da criminalização.

coreto-2

plateia-de-filme

A chuva equatorial não deu trégua, a noite toda. Cansados, tomamos um tacacá na calçada da Av. Nazaré e voltamos pro hotel, sem pique pra balada, ou mesmo para jantar fora. Antes de dormir decidimos que a manhã de sábado, nosso único horário de folga, seria dedicado a compras no Ver-o-Peso, antes de ir para o aeroporto. Os jovens santarenos, para nosso horror, optaram por ir ao shopping center comprar “lembranças”.

– Artesanato tem lá em casa. Queremos coisas diferentes!

Compraram artefatos made in China e Taiwan, e provavelmente vão bombar em Santarém. O tempora, o mores

FSM, parte 2

Quinta, 28/01 – O trabalho que estamos fazendo em Belém é delicado e urgente. Aborda diretamente a questão do aborto, com suas implicações políticas e legais. A equipe de vídeo foi contratada pelo IPAS Brasil, com sede no Rio de Janeiro, que promove debates sobre o tema. No hotsite da entidade, você pode conhecer as três perguntas que são a essência do nosso trabalho.

stand-ipas

Junto conosco está um grupo de adolescentes de Santarém, com idades entre 14 e 19 anos, que trabalham com a questão da sexualidade em suas comunidades. Dois garotos e cinco meninas. Para muitos foi a primeira ida a Belém, a primeira viagem de avião, e certamente a primeira vez que viram tanta gente bonita, colorida e esquisita reunida pra “mudar o mundo”.

video-trio

Dividimos as equipes e partimos para a Universidade Rural, distante 4 km da UFPA onde, além de discussões temáticas, estavam acampados centenas de estudantes, tribos indígenas e malucos de toda espécie. A expressão “Woodstock da esquerda” parece encontrar ali sua perfeita tradução. Um cheiro de maresia paira no ar, e não vem do rio que corta o campus.

acampamento


casal-hippie

grupo-festivo


Homem sábio

indias-1

brasil-europa

Novamente, o aguaceiro da tarde despencou sem dó. De volta ao stand, na UFPA, cruzo com vários conhecidos. Sindicalistas de todo o Brasil, diretores de cooperativas que visitei em 2008, um agricultor de algodão ecológico de Tauá (CE), diretoras da Justa Trama que conheci no Rio Grande do Sul. E, não, não fui ouvir o bolero dos presidentes no Hangar, terceiro espaço do Fórum, distante mais um punhado de quilômetros. Voltamos para o hotel exaustos, ainda com muito trabalho pela frente.

tribos

FSM, parte 1

Terça, 27/01 – O Fórum Social Mundial, como é de praxe, começou com uma passeata, momento simbólico onde todos os participantes caminham numa só direção.

O temporal que desabou às 15 horas era de fazer xiita largar o camelo e voltar para o deserto. Mesmo assim, centenas de pessoas se reuniram na Av. Presidente Vargas, sambando ao som de batucadas e maracatus. Preocupado com os equipamentos de vídeo, me abriguei sob um ponto de ônibus com mais uns 150 nativos. Foram 40 minutos de intenso convívio, onde pude constatar o bom humor do paraense. Descobri também que lá o povo usa a expressão “égua!” pra transmitir surpresa, espanto ou admiração. Égua, que chuva!

chuva

Uma hora depois a chuva amainou, e começou a sair gente de tudo quanto é canto, enchendo a avenida. A avenida Nazaré, por onde passa o famoso Círio, virou um amazonas de gente, até a praça da rodoviária. Uns falam de 30 mil, outros de 70 mil. Preocupado em captar imagens em vídeo, não me preocupei em fotografar o desfile. Uma pena, pois foi lindo!

O trabalho realmente começou no dia seguinte, no campus da UFPA. A desinformação do pessoal de apoio fez com que muita gente se irritasse, andando de um lado para o outro procurando o prédio X ou Y. Muitos chegaram atrasados nas discussões temáticas.

entrada-ufpa

africanas

Na hora do almoço, as filas se formavam nas lanchonetes e restaurantes. Um espetáculo à parte para os fotógrafos! Índios amazonenses, sindicalistas franceses, jornalistas italianos, freiras irlandesas, estudantes gaúchos, professores gauches, militantes africanos e latino-americanos se misturavam de forma colorida e surpreendente.

Na fila do rango

restaurante

freiras

Depois de um dia exaustivo e calorento, com mais uma chuva no meio da tarde, chegamos ao hotel por volta das 19 horas. À noite fomos à Estação das Docas, um belo exemplo arquitetônico de aproveitamento de um espaço portuário. Um conjunto de bares, museu, área de exposições e cinema de dar inveja a Santos, Rio de Janeiro, Recife, Florianópolis, Vitória, Fortaleza, Salvador, São Luiz, etc.

A ponte móvel de carga foi restaurada e aproveitada como um pequeno palco. Fica em movimento o tempo todo, de ponta a ponta do galpão, com um cara tocando sobre a cabeça do público! Repertório MPB fino, boa acústica (um milagre!) e ar condicionado perfeito. Lá fora, mais mesas e o grande rio.

Estação das Docas

– Amanhã vamos levantar às seis! Pede a última Cerpinha e rumbora!


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