Arquivo para março \26\UTC 2009

Thais Sauaya Pereira

Hoje quero falar de uma amiga que se foi. Daquelas companheiras de vida e luta, de embates e festejos, de tristezas e alegrias. Conheci… sei lá como a conheci! Há uns dez anos, mas parece que sempre fez parte de minha vida, nos botecos do Butantã, na militância política, nas festas que organizava. E como era festeira!

Não consigo lembrar de outra pessoa que mereça, de forma tão plena, os adjetivos de generosa e entusiasmada. Thais foi (dói usar o verbo no passado) daquelas pessoas que eram, nas palavras de Zé Eduardo Cardozo “um tipo muito precioso e raro de ser humano, desses que recolhem a bandeira caída no campo de batalha, já desbotada, convencem todos da necessidade de recosturá-la, e a transformar novamente em num belo estandarte.”

Agregadora é uma boa palavra para definir Thais. Militante de esquerda, crítica em relação aos desvios e desmandos do PT que ajudou a fundar, encontrava tempo para reunir os amigos e fazer festas memoráveis, onde conseguia o milagre de reunir simpatizantes do PSOL, PCdoB, PSTU e PT (direita não, felizmente) sem que rolasse sangue entre as partes. E ainda preparava petiscos de tirar o chapéu, a começar por uma carne louca sensacional, que salvou a vida de muito alcoólatra desnutrido. Fiquei sem a receita, mas um dia ainda faço uma igual!

Comidinhas árabes então, nem se fala. Trazia o peso da família Sauaya no sobrenome, e honrava as tradições. Contestando todas, porque a vida era pra ser vivida, e não obedecida de cabeça baixa. Lição que seus filhos, Pablo e Sofia, certamente saberão levar em frente.

Há muitos anos não ia ao Crematório da Vila Alpina. Fui lá queimar uma sogra, nos anos 90. Ontem à noite, surpreendido pelo frio (alpino?) em pleno final de verão, revi amigos de muitos anos. Mais de 300 pessoas deram a dimensão de como Thais era querida. A ex-química que se formou em jornalismo continua agregadora, mesmo depois do acidente fatal na BR-050, voltando de Brasília. Seu companheiro Sérgio Alli, destruído por dentro, recebeu o carinho dos muitos amigos que souberam cultivar nos anos em comum.

Thais não ligava para igrejas ou religiões. No adeus final, sem padre ou missa, a filha escolheu uma de suas músicas preferidas. E rolou Luiz Melodia! Quando ouvi a voz do negão cantando “O por do sol/ vai revelar brilhar de novo o teu sorriso”, não agüentei, e chorei feito criança.

A última imagem que tenho dela divido agora com vocês. É de fevereiro de 2009, na gloriosa Vai Quem Quer, onde pulava por quatro dias seguidos, sob chuva ou estrelas. Beijo, Thais!

carnaval2009

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Um bacalhau de domingo

Semana passada fui ao Mercado da Cantareira e fiquei namorando as mantas de bacalhau da Noruega, cada uma mais pedaçuda que a outra. Estava no devaneio, fazendo contas, quanto reparei que, a cada pedaço cortado, sobravam umas aparas que eram afastadas para o canto do balcão com a faca.

Pouco depois o sujeito juntou estas lascas, colocou numa bandeja de isopor, pesou e tascou lá um preço que era quase metade do valor do pedaço inteiro. Conversando com o gajo (era português), ele explicou que a qualidade era a mesma, mas por serem pedaços menores ressecam mais rápido, precisam ser feitos logo.

Catei uma bandejinha e vim pensando num risoto, num suflê, nos famosos bolinhos, nas inúmeras possibilidades que lascas de bacalhau de primeira podem oferecer.

Semana agitada, esqueci o bicho na geladeira. Ontem lembrei do maravilhoso escondidinho que Tia Adelaide fez em Ilhabela, na virada do ano, e resolvi arriscar. Deixei o bacalhau de molho de véspera, trocando a água várias vezes. Pedaços lindos, sem pele e sem espinhas, só de olhar davam gosto.

Fui ao supermercado, comprei mandioca, cheiro verde, leite de coco. O preparo atrasou, quase perco o jogo do Corinthians (1 x 0, nem Ronaldo, nem Neymar. Dentinho é o cara!). Mas ficou muito bom! Quem provou, repetiu e lambeu os beiços. Fica aqui a receita de domingo, um bacalhau português-nordestino com um toque mineiro. Como chamar? Bacalhau à Adelaide, claro!

Escondidinho


Na verdade, fiz como se fossem duas receitas, que se juntam no final. Primeiro preparei um purê de mandioca.

1,5 kg de mandioca

1 colher de sopa cheia de manteiga (sem sal)

200 ml de leite de coco

400 ml de leite

Sal a gosto.

Cozinhei a mandioca até ficar bem macia, começando a desmanchar. Passei no amassador e misturei numa panela, em fogo baixo, com a manteiga e os leites, acertando o ponto do sal. Depois de uns 10 minutos, tampei a panela e deixei ali quietinha, no canto do fogão.

Em seguida, preparei o bacalhau, com os seguintes ingredientes:

600 g de bacalhau em lascas

Um punhado de salsinha picada

Duas folhas grandes de cebolinha picada

1 lata de tomate sem pele

1 cebola média picada

1 colher de sopa de alho picado

4 colheres de sopa de azeite extra virgem

Sal

Tá, eu sei que ”um punhado” é uma medida relativa, mas imagine uma porção que caiba na sua mão em concha, Maricota! Se tiver a mão muito fora de proporção, use meio maço, tá bom? E aquele canudinho verde da cebolinha é folha mesmo, não um talo…

Escorri bem o bacalhau, desfiando os pedaços maiores. Coloquei o azeite numa caçarola e dourei o alho e a cebola, misturando em seguida o bacalhau e os tomates. Refoguei por uns 10 minutos e acrescentei o cheiro verde picado. Acertei o ponto do sal e desliguei o fogo.

A terceira parte é a montagem do prato. Untei um pirex com catupiry (este é o toque mineiro) e coloquei o bacalhau refogado. Cobri com o purê de mandioca, pondo mais umas colheradas de catupiry por cima e espalhando. Levei ao forno quente para gratinar por 10 minutos.

PS1: (Na verdade, não gratinei. Tenho certa implicância com a mania de soterrar os pratos com parmesão ralado e farinha de rosca. Aprecio o queijo, mas seu forte sabor muitas vezes encobre as nuances, as delicadezas de certos pratos. Acho incrível como, em cantinas paulistanas, as pessoas pedem massas com os molhos mais variados e fazem uma duna de queijo ralado por cima. Até em filé à parmigiana vejo cometerem esse desatino!)

PS2: Não deixe de guarnecer a mesa com uma boa pimenta do reino. Essa cai bem no prato, com parcimônia. Ou algumas gotas de um bom molho de pimenta.

Jumentalidade

Jegue e homem

Hoje, fuçando no rádio, topei com uma música do  Gonzagão que há muitos anos não ouvia: “O Jumento É Nosso Irmão” (Luiz Gonzaga/ José Clementino). Filosofando com bom humor, retrata as virtudes do famoso jeguinho.

É verdade, meu senhor
Essa estória do sertão
Padre Vieira falou
Que o jumento é nosso irmão

A vida desse animal
Padre Vieira escreveu
Mas na pia batismal
Ninguém sabe o nome seu
Bagre, Bó, Rodó ou Jegue
Baba, Ureche ou Oropeu
Andaluz ou Marca-hora
Breguedé ou Azulão
Alicate de Embau
Inspetor de Quarteirão

Tudo isso, minha gente
É o jumento, nosso irmão

Até pr’anunciar a hora
Seu relincho tem valor
Sertanejo fica alerta
O dandão nunca falhou
Levanta com hora e vamo
O jumento já rinchou
Bom, bom, bom

Ele tem tantas virtudes
Ninguém pode carcular
Conduzindo um ceguinho
Porta em porta a mendigar
O pobre vê, no jubaio
Um irmão pra lhe ajudar
Bom, bom, bom

E na fuga para o Egito
Quando o julgo anunciou
O jegue foi o transporte
Que levou nosso Senhor
Vosmicê fique sabendo
Que o jumento tem valor

Agora, meu patriota
Em nome do meu sertão
Acompanhe o seu vigário
Nessa terna gratidão
Receba nossa homenagem
Ao jumento, nosso irmão!

Um amigo mineiro costuma dizer que ouvir uma coisa dessas faz “a vontade de rinchar e comer capim voltar tudo!” É mais uma prova dos laços fraternos que unem humanos e asininos. Outras provas se encontram por aí facilmente, basta abrir um jornal e ler o noticiário.

A foto foi feita em Tabira, interior de Pernambuco, no ano passado.

Pas de Deux

Por que uma pessoa resolve estudar Cinema? Em 90% dos casos, pelo fascínio holywoodiano da indústria cinematográfica, do star system, da vertiginosa sensação de descolamento da realidade que o cinema nos proporciona.

Outros 9% vêem no cinema uma expressão autoral, uma forma de exprimir e traduzir a realidade em que vivem. E 1%, vá lá, por “outros motivos”.

Estou no último caso. Quase fiz Biologia.  Era (e continuo) interessado pelo oceanos, pela vida marinha. Jacques Costeau foi um de meus primeiros heróis. Suas imagens do fundo do mar me fascinavam. Creio que resolvi fazer cinema porque queria fazer filmes como aqueles.

No curso, tomei contato com um mestre do qual nunca ouvira falar antes: Norman MacLaren (1914/1987) escocês radicado no Canadá, um dos maiores inventores da história do cinema. O homem criou e esgotou praticamente todas as formas de animação, desenho, música e arte cinética projetadas numa tela. Antes da computação gráfica, criou abstrações líricas e inusitadas, de alto impacto visual. Pintou direto na película, riscou o celulóide, criou  cenas fantásticas com cores, linhas, objetos e seres humanos. Sem os recursos atuais, compôs música magnética riscada na banda sonora do filme, sincronizada com a imagem. Ganhou o Oscar com o curta Neighbours, em 1952.

Não conheço outro cineasta que tenha elevado o cinema a um grau de poesia tão intenso. Talvez Chaplin, numa outra faixa de percepção. E hoje, fuçando no You Tube, encontrei um dos momentos mais emocionantes do mestre, dividido em duas partes.

McLaren me fez trocar o documentário pela animação, por algum tempo.

O filme Pas de Deux, de 1967, merece ser assistido no escuro, em silêncio. Beleza feita de luz, som e movimento, onde até a cor é supérflua. Comovente, sensual, poético, surpreendente. E eterno.

O nome da tua rua

armagedon

Você já pensou no nome da rua onde mora? Claro, se é algo óbvio como Getúlio Vargas ou Princesa Isabel, não é preciso pensar muito. Mas se você reside na rua Otávio Passos, Antônio Serrado ou Gregório Serrão, a coisa fica mais difícil.

Tinha eu quatorze anos de idade (copyright by Paulinho da Viola) quando a professora de História resolveu estimular a classe a pesquisar. Anos 70, ditadura braba.

– Cada aluno tem uma semana pra descobrir a origem do nome de sua rua. Quem é, quando viveu, como surgiu, etc. Escreva um texto de 30 linhas. Vale dois pontos na nota do bimestre!

O colega ao lado, que morava na rua Machado de Assis, abriu um sorrisão. Eu, que morava na rua Gregório Serrão, abaixei as orelhas, fechei os olhos e pensei: “Estou lascado!” (Eu era bem educadinho. Sou, até hoje.)

Fui três dias seguidos à biblioteca Mário de Andrade, no centro da cidade, atrás do tal Gregório. Não havia Google, nem sequer Internet, garota! Pesquisa era em biblioteca, jornal, livro, revista e “mais velhos”.

Descobri. Escrevi o texto, ganhei minha notinha. Virei também o sabido da rua, o único que sabia (além de minha mãe) quem era o tal Gregório, um padre da mesma turma que veio com Manoel da Nóbrega e Anchieta. Responsável pela marcenaria, Serrão era um apelido que acabou virando nome. Ganhou uma paróquia na Bahia.

Nunca esqueci essa informação. Custou uma semana de minha vida. Se tivesse pesquisado na Internet e achado em 15 minutos, provavelmente teria esquecido em 15 dias.

Hoje descobri que se uma professora pedir isso, já existe alternativa cômoda, pelo menos em São Paulo. Uma página do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) do município conta a história das ruas da metrópole. Basta colocar o nome do logradouro e aparece a biografia do fulano, fulana, data ou evento.

É bom, pra quem utilizar com sabedoria. Aquilo que se consegue de forma fácil, também se vai facilmente. Não informam, p.ex., que o padre Gregório era marceneiro, mas o resto está certinho, com datas e locais onde o cara viveu. Mas, cá entre nós, mergulhar numa biblioteca ainda é insubstituível!

Spam

spam

A praga do spam aumenta sua circulação em escala exponencial. Sei que isso não é novidade pra quem tem uma conta de correio eletrônico. A quantidade de anúncios de revistas que não quero assinar, cursos que não pretendo fazer, congressos que não me interessam, cópias de relógios Rolex, guias do orgasmo feminino e o infalível “ganhe dinheiro sem sair de casa” é de enlouquecer qualquer um que não disponha de um bom filtro. Sem contar as Bruninhas, Jessicas e Carlas que começam inevitavelmente com um “Oieeee, lembra de mim?”

De uns tempos pra cá, resolveram antecipar a ação do tempo sobre meu gasto corpinho. Uma torrente semanal de anúncios de Viagra, Levitra e Cialis entope minha caixa postal. Até dá pra entender a estratégia: um dia vou precisar. Mas se eu tivesse 20 anos, deveria receber mensagens pelos próximos 40 anos até virar um possível cliente?

Também comecei a reparar nos nomes dos remetentes. Em geral mulheres de nomes exóticos, provavelmente falsos, mas sem dúvida criativos. A lista é grande e sonora: Rhonda Semíramis, Delisa Miraballes, Maria Boston, Maricela Purvis, Rophina Meigh, Kupricka Tsutumi, Habina Neslusan…

A campeã veio hoje do Canadá, e já é minha preferida: Latrina Christal! Você compraria algo de uma mulher com um nome desses?

Na Goela do Sapo

Neste sábado, dia 07 de março, gostaria de ter estado em dois lugares ao mesmo tempo: A Goela do Sapo, em Itapecerica da Serra (SP) e a rua Barão de Limeira, em frente à sede da Falha de SP. Naturalmente, como ainda não tenho o dom da ubiqüidade, tive de escolher o compromisso anteriormente assumido.

Participei da gravação de um documentário sobre a  Clave de Sol,  uma Ong que ensina música a crianças e jovens na periferia. Com instrumentos doados e muito voluntarismo, trabalham hoje com 240 crianças, com resultados surpreendentes.

clave-de-sol

A apresentação foi  na comunidade denominada Goela do Sapo, onde moram vários alunos. Um concerto emocionante, apesar da fina garoa que caía naquelas bandas. E um trabalho excepcional da equipe de voluntários que a VIATV juntou para a gravação, a começar pelo diretor de fotografia Luiz Miyasaka e o técnico de áudio Pedro Kohler. Gravação profissional, em HDTV e mesa de 16 canais. Voltarei a falar em breve deste trabalho!

Já na Barão de Limeira o tempo foi quente. O protesto contra a “ditabranda” está bem relatado aqui , e também aqui.  Será que a Trolha de SP e o seu principal concorrente noticiarão o episódio? Pra quem defende a democracia e a liberdade de expressão, seria natural…