O nome da tua rua

armagedon

Você já pensou no nome da rua onde mora? Claro, se é algo óbvio como Getúlio Vargas ou Princesa Isabel, não é preciso pensar muito. Mas se você reside na rua Otávio Passos, Antônio Serrado ou Gregório Serrão, a coisa fica mais difícil.

Tinha eu quatorze anos de idade (copyright by Paulinho da Viola) quando a professora de História resolveu estimular a classe a pesquisar. Anos 70, ditadura braba.

– Cada aluno tem uma semana pra descobrir a origem do nome de sua rua. Quem é, quando viveu, como surgiu, etc. Escreva um texto de 30 linhas. Vale dois pontos na nota do bimestre!

O colega ao lado, que morava na rua Machado de Assis, abriu um sorrisão. Eu, que morava na rua Gregório Serrão, abaixei as orelhas, fechei os olhos e pensei: “Estou lascado!” (Eu era bem educadinho. Sou, até hoje.)

Fui três dias seguidos à biblioteca Mário de Andrade, no centro da cidade, atrás do tal Gregório. Não havia Google, nem sequer Internet, garota! Pesquisa era em biblioteca, jornal, livro, revista e “mais velhos”.

Descobri. Escrevi o texto, ganhei minha notinha. Virei também o sabido da rua, o único que sabia (além de minha mãe) quem era o tal Gregório, um padre da mesma turma que veio com Manoel da Nóbrega e Anchieta. Responsável pela marcenaria, Serrão era um apelido que acabou virando nome. Ganhou uma paróquia na Bahia.

Nunca esqueci essa informação. Custou uma semana de minha vida. Se tivesse pesquisado na Internet e achado em 15 minutos, provavelmente teria esquecido em 15 dias.

Hoje descobri que se uma professora pedir isso, já existe alternativa cômoda, pelo menos em São Paulo. Uma página do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) do município conta a história das ruas da metrópole. Basta colocar o nome do logradouro e aparece a biografia do fulano, fulana, data ou evento.

É bom, pra quem utilizar com sabedoria. Aquilo que se consegue de forma fácil, também se vai facilmente. Não informam, p.ex., que o padre Gregório era marceneiro, mas o resto está certinho, com datas e locais onde o cara viveu. Mas, cá entre nós, mergulhar numa biblioteca ainda é insubstituível!

6 Responses to “O nome da tua rua”


  1. 1 Manuela S. 21/03/2009 às 10:42 pm

    Passar os dedos pelas lombadas, afagar uma encadernação em pele, folhear páginas em papel-bíblia, admirar antigas ilustrações…
    Sensações que só com o livro na mão!
    Até os cheiros dos livros, novos ou antigos!
    Manuela S.

  2. 2 Daniel Brazil 21/03/2009 às 11:25 pm

    Pois É, Manuela, o post acabou virando uma declaração de amor aos livros. Não consigo esconder essa paixão!

  3. 3 ELIANE 07/12/2010 às 2:38 pm

    Caríssimo, adorei sua professora e sua pesquisa. Porém, a origem do nome Serrão não se deve à marcenaria, uma vez que, segundo outras fontes históricas, o padre era, na verdade, enfermeiro. Aliás, sua vinda deu-se exatamente por sua profissão. Além de enfermeiro, era português cristão-novo e veio para o Brasil como muitos outros. O nome deve-se à tribo judaica de origem (da qual não me lembro o nome) e que possui vários derivativos: Serrão, Serran, Serrano, por exemplo. Este é apenas um reparo, desculpe; parabéns pelo trabalho, de qualquer maneira.

  4. 4 Daniel Brazil 07/12/2010 às 9:12 pm

    Tuas fontes devem ser bem melhores que as que eu tinha na época, Eliane! Lembro que colhi a informação de um velho almanaque paulistano, num artigo sobre os logradouros públicos.
    Provavelmente fui induzido a erro, mas a professora engoliu. Ou melhor, deu a nota pelo meu esforço, não pelo resultado…
    Obrigado pela correção!

  5. 5 Nelson Ogata 13/01/2013 às 4:35 pm

    Comer sashimi em restaurante badalado é muito bom! Comer sashimi fresquinho do peixe que, para fisgar, vc programou a viagem com a família, comprou mantimentos, preparou a tralha, pegou estrada, atravessou rios em balsa, armou barraca, lançou a isca, sentiu a primeira “lambida”, esperou a hora “h”, fisgou o baiacu? cação? robalo? robalo! gira a carretilha, não deixa escapar! Depois que o Sol se deita lá atrás das dunas, já quase pronto ver brincar com as estrelas, ouço uma música: “tá pronto”! Uau! Peixe frito, sopinha (missoshiru) com a cabeça do peixe e fatias translúcidas, tão frescas quanto a brisa o mar nos oferece. Iguarias que só a mamãe sabia dar o toque para, num piscar, reunir a família à “mesa”, a caixa de madeira de laranja que de dia, foi o banquinho do melhor “pescador” do mundo, papai! Vamos repetir a dose daqui a alguns dias. Agora com o neto, que já está “brincando” com a sua própria tralha!

    Vejo que seu post está datado de 2010, mas me trouxe duas coisas boas. A primeira, informações sobre o tal Gregório, o qual sempre brinquei ao me referir ao nome da rua como Serrão, de serra grande. Fico feliz de saber que não estava enganado. A segunda, essa mais pessoal, de resgatar, ao ler seu relato de infância, recordações e vivências que, apesar de simples, transmitiram valores que forjaram caráter e formaram pessoas. É como a sua professora escola fez, e fizeram nossos professores da vida, nossos pais, não serviram simplesmente o peixe, mas nos ensinaram a pescar! É muito mais gostoso e duradouro, pois o prazer de “saborear” as conquistas “fisgadas” é por toda a vida! Grande abraço! Nelson, morador da rua Gregório Serrão, religioso, enfermeiro com dotes de marcenaria, oriundo da região judaica que se refere a serra.


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