Jumentalidade

Jegue e homem

Hoje, fuçando no rádio, topei com uma música do  Gonzagão que há muitos anos não ouvia: “O Jumento É Nosso Irmão” (Luiz Gonzaga/ José Clementino). Filosofando com bom humor, retrata as virtudes do famoso jeguinho.

É verdade, meu senhor
Essa estória do sertão
Padre Vieira falou
Que o jumento é nosso irmão

A vida desse animal
Padre Vieira escreveu
Mas na pia batismal
Ninguém sabe o nome seu
Bagre, Bó, Rodó ou Jegue
Baba, Ureche ou Oropeu
Andaluz ou Marca-hora
Breguedé ou Azulão
Alicate de Embau
Inspetor de Quarteirão

Tudo isso, minha gente
É o jumento, nosso irmão

Até pr’anunciar a hora
Seu relincho tem valor
Sertanejo fica alerta
O dandão nunca falhou
Levanta com hora e vamo
O jumento já rinchou
Bom, bom, bom

Ele tem tantas virtudes
Ninguém pode carcular
Conduzindo um ceguinho
Porta em porta a mendigar
O pobre vê, no jubaio
Um irmão pra lhe ajudar
Bom, bom, bom

E na fuga para o Egito
Quando o julgo anunciou
O jegue foi o transporte
Que levou nosso Senhor
Vosmicê fique sabendo
Que o jumento tem valor

Agora, meu patriota
Em nome do meu sertão
Acompanhe o seu vigário
Nessa terna gratidão
Receba nossa homenagem
Ao jumento, nosso irmão!

Um amigo mineiro costuma dizer que ouvir uma coisa dessas faz “a vontade de rinchar e comer capim voltar tudo!” É mais uma prova dos laços fraternos que unem humanos e asininos. Outras provas se encontram por aí facilmente, basta abrir um jornal e ler o noticiário.

A foto foi feita em Tabira, interior de Pernambuco, no ano passado.

2 Responses to “Jumentalidade”


  1. 1 Mario Abramo 20/03/2009 às 11:49 am

    Grande Daniel!
    Você sempre mexendo com minhas saudades particulares….
    Tem uma música do Gonzagão, só conheço da década de 70, cantada por um colega acreano (no Rei das Batidas, ça va sans dire), de quando ele foi motorista de taxi no Rio (o Lua, não o colega). Venho caçando e procurando essa música desde então, mas, como na poesia, embalde. Nem sei se é autoria dele ou não, mas acredito que sim.
    Lembra de alguma coisa assim?
    Abraços

  2. 2 Daniel Brazil 20/03/2009 às 10:59 pm

    Tá na mão, camarada, cantado e proseado!
    Chofer de Praça, de Fernando Lobo e Evaldo Rui, gravado pelo grande Lua:

    Juntei dinheiro quase um ano inteiro,
    Entrei pra escola para ser chofer,
    Dessa maneira, sem fazer besteira,
    Tirei a carteira, butei meu boné,
    Batendo pino sigo o meu destino
    Caminhando para onde Deus quiser
    A vida passa, eu vou fazendo a praça
    Primeira, segunda, pisa em marcha ré

    Se o freguês reclama que eu sou vagaroso
    Que meu carro é velho e faz muita fumaça
    Eu não me zango, não faço arruaça
    Sou bem educado,
    Sou chofer de praça,
    Ai, ai, não nego a minha raça
    Ai, ai, eu sou chofer de praça

    Para casamento tenho um terno branco,
    Para batizado tenho um terno azul,
    Tiro o boné se vou pra zona norte,
    Boto o boné se vou pra zona sul,
    Se apanho um casal,
    Pros lados do Leblon,
    Sei que vou parar na gota da empresa,
    Viro o espelho, não fale, não veja,
    Vou dá meu cortejo, espero a recompensa

    -Taxi…
    -Tá Ocupado.
    -Taxi!
    -Oficina!
    -Doutor,
    -O senhor não leva a mal doutor, mas pra onde é que o senhor vai hein?
    -Vou pra Jacarepaguá.
    -Tá doido.
    -O senhor vai pagar a ida e a volta.
    -Pois não, doutor.
    -Vamos nós!
    -Doutor, trabalho a quilômetro, tenho oito filho pra sustentar doutor
    -Vamos nós, doutor, o senhor foi mandado de Deus, “vamu simbora”
    -Táxi!
    -Vou almoçar!


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