Thais Sauaya Pereira

Hoje quero falar de uma amiga que se foi. Daquelas companheiras de vida e luta, de embates e festejos, de tristezas e alegrias. Conheci… sei lá como a conheci! Há uns dez anos, mas parece que sempre fez parte de minha vida, nos botecos do Butantã, na militância política, nas festas que organizava. E como era festeira!

Não consigo lembrar de outra pessoa que mereça, de forma tão plena, os adjetivos de generosa e entusiasmada. Thais foi (dói usar o verbo no passado) daquelas pessoas que eram, nas palavras de Zé Eduardo Cardozo “um tipo muito precioso e raro de ser humano, desses que recolhem a bandeira caída no campo de batalha, já desbotada, convencem todos da necessidade de recosturá-la, e a transformar novamente em num belo estandarte.”

Agregadora é uma boa palavra para definir Thais. Militante de esquerda, crítica em relação aos desvios e desmandos do PT que ajudou a fundar, encontrava tempo para reunir os amigos e fazer festas memoráveis, onde conseguia o milagre de reunir simpatizantes do PSOL, PCdoB, PSTU e PT (direita não, felizmente) sem que rolasse sangue entre as partes. E ainda preparava petiscos de tirar o chapéu, a começar por uma carne louca sensacional, que salvou a vida de muito alcoólatra desnutrido. Fiquei sem a receita, mas um dia ainda faço uma igual!

Comidinhas árabes então, nem se fala. Trazia o peso da família Sauaya no sobrenome, e honrava as tradições. Contestando todas, porque a vida era pra ser vivida, e não obedecida de cabeça baixa. Lição que seus filhos, Pablo e Sofia, certamente saberão levar em frente.

Há muitos anos não ia ao Crematório da Vila Alpina. Fui lá queimar uma sogra, nos anos 90. Ontem à noite, surpreendido pelo frio (alpino?) em pleno final de verão, revi amigos de muitos anos. Mais de 300 pessoas deram a dimensão de como Thais era querida. A ex-química que se formou em jornalismo continua agregadora, mesmo depois do acidente fatal na BR-050, voltando de Brasília. Seu companheiro Sérgio Alli, destruído por dentro, recebeu o carinho dos muitos amigos que souberam cultivar nos anos em comum.

Thais não ligava para igrejas ou religiões. No adeus final, sem padre ou missa, a filha escolheu uma de suas músicas preferidas. E rolou Luiz Melodia! Quando ouvi a voz do negão cantando “O por do sol/ vai revelar brilhar de novo o teu sorriso”, não agüentei, e chorei feito criança.

A última imagem que tenho dela divido agora com vocês. É de fevereiro de 2009, na gloriosa Vai Quem Quer, onde pulava por quatro dias seguidos, sob chuva ou estrelas. Beijo, Thais!

carnaval2009

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10 Responses to “Thais Sauaya Pereira”


  1. 1 paulow 26/03/2009 às 3:14 pm

    “Fui lá queimar uma sogra” é de doer!!!

  2. 3 Daniel Brazil 26/03/2009 às 10:41 pm

    Espero virar fumacinha também, Paulo. Mais higiênico, não ocupa terra improdutiva, não obriga ninguém a levar flores ou cuidar de túmulo. E dispenso missa!

  3. 4 Barbara 26/03/2009 às 11:09 pm

    Daniel
    foi lindo o que voce escreveu.
    cada um de nos capotou um pouco naquela estrada.
    bj
    barbara

  4. 5 Julio 26/03/2009 às 11:14 pm

    A vida so e completa quando a morte ou este periodo de transição se conclui. O corpo que fe o bem se foi mas o espirito do bem cotinua entre os bons espiritos.

  5. 6 Daniel Brazil 27/03/2009 às 1:31 am

    Você sintetizou bem, Barbara. Olho pra foto, Julio, e sinto que ela ainda está aqui ao nosso lado.

  6. 7 Daniel Brazil 28/03/2009 às 6:15 pm

    Os amigos de Thais e Sérgio Alli marcaram um gurufim pra este domingo. Tá aqui o convite:

    “Amigos queridos,
    Dentre tantas coisas que aprendemos com a Thais fica também o cuidado com nossas amizades e a força que só o coletivo nos dá. Por isso vamos construir juntos nossa saudade, como uma homenagem e uma celebração de sua beleza e de seu carinho por todos nós.

    Vamos nos encontrar neste Domingo, 29 de março, na Casa da Cidade, Rua Rodésia, 398.

    Combinamos assim:
    16 horas, para os que puderem chegar e ajudar na organização.
    17 horas, começamos as atividades da nossa homenagem a Thais.

    Vamos fazer um encontro com música, lembranças, sentimentos e idéias.
    Cada um pode levar flores, fotos e bebidas ou petiscos.
    Juntos faremos nosso mosaico de lembranças e saudades.”

  7. 8 Mario Abramo 29/03/2009 às 1:42 pm

    Caríssimo amigo,
    Tava longe, a trabalho, qd a Carminha me mandou o aviso. Pego no contrapé, tive que engolir choro e lágrimas e botar o barco pra correr.
    Conheci a Thais no final da década de 70, durante alguns anos ficamos mais ou menos longe, reencontrei nos debates a respeito do Movimento Estundantil em 97 (nas lembranças da invasão da PUC). Daí em diante, sempre ela esteve próxima, nas discussões a respeito da retomada da ética na política, nas campanhas, sempre dura, sarcástica e bocuda quando necessário, mas gentil, carinhosa e solidária sempre.
    Ainda não tenho palavras. Ainda estou em estado de choque. Mas hoje, lendo seu texto, consegui chorar.
    Um imenso abraço
    Mario Abramo

  8. 9 Lira 30/03/2009 às 2:10 am

    fica aí meu e-mail procê mandar as fotos que disse que tem. lindo texto. assim que têm que ser as lembranças, né?
    beijo.


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