Arquivo para abril \30\UTC 2009

Sobre livros e livrarias

shakespeare-and-co

As bibliotecas sempre tiveram, pra muita gente, um ar meio mágico, meio religioso, onde se conversa aos sussurros, como numa igreja, e onde adoramos os livros, objetos sagrados (mesmo quando são profanos). Menos rígidas, mais coloridas, ruidosas e dessacralizadas pelo comércio inerente, as livrarias também têm seus fãs. Há quem quase chore de emoção ao ver  um sítio como o  Most Interesting Bookstores of the World, de onde tirei a foto aí de cima, da célebre Shakespeare & Co., de Paris.

E é fascinante, para amantes de livros e livrarias, conhecer o Pequeno Guia Histórico das Livrarias Brasileiras, escrito por Ubiratan Machado (Ateliê Editorial, 264 páginas). Historiador dedicado, vai às origens das primeiras livrarias, no século XVIII. Você sabia que na velha Vila Rica, em 1750, havia uma Loja de Livros? Claro, é fácil imaginar os poetas da Inconfidência encontrando-se no local e trocando impressões sobre os últimos lançamentos. Fácil, mas enganoso. Na verdade, era muito maior o número de cidades e vilas onde não havia uma livraria, tal como conhecemos. Aliás, passe essa última afirmação para o tempo presente e continuará sendo verdadeira…

Ubiratan Machado pesquisou a história de 100 livrarias, dos tempos coloniais até o final do século XX, que tiveram importância cultural, social e, muitas vezes, política. Livraria é habitat natural de defensores da liberdade de pensamento, o que costuma contrariar certos governos.

As primeiras livrarias, ainda precárias, também comercializavam livros usados, o que atrai outra seita: a de admiradores de sebos. Incluo-me neste grupo, mas cometo freqüentes infidelidades. Uma boa livraria é apaixonante. Uma biblioteca bem organizada dá vontade de morar dentro. E há lugares que reúnem vários encantos, como o sebo-livraria-editora Alpharrabio, de Santo André. Ou os sebos-museus que se ocultam alguns andares acima da rua Barão de Itapetininga, em São Paulo, onde livros convivem com gravuras e objetos de arte. Lembrança puxa lembrança, e lembrei agora de um anúncio simples e genial que vi outro dia na Internet.

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Nem preciso dizer que o anunciante é uma rede de livrarias. Não uma qualquer, mas a Steimatzky, cuja história dá um filme. Ou um bom livro.

PS: Neste sábado, dentro da Virada Cultural, a Pinacoteca de São Paulo vai organizar uma feira de livros de arte com várias editoras, prometendo descontos de até 80%. Vamos nessa?

Cena (sub)urbana

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São Bernardo do Campo, a Detroit brasileira, no recente ano de 2007. Uns indo pro trabalho, outros voltando…

Rio, São Paulo

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Passei três dias no Rio de Janeiro, pra comemorar o aniversário da filha querida. Três dias de gandaia, com passagens por alguns lugares folclóricos. Tomei cerveja no Bar do Zé, numa ruela da Glória, onde todos ficam na calçada. Atravessei os Arcos da Lapa às 2 horas da manhã, abrindo caminho com os cotovelos no meio de enorme multidão de notívagos. Vila Madalena é fichinha perto daquilo! Terminamos a primeira noite no Nova Capela, às 4 horas da manhã.

Tomei café da manhã no Parque Lage, almocei no velho Aurora, tracei um peixinho no Manolo. Ainda me espanto com as diferenças culturais entre cariocas e paulistas. No Rio a calçada é espaço de convivência, em toda a cidade. Seja no pé do morro ou na orla dos bacanas, tomar chope no meio da calçada é de lei. Qualquer boteco põe ali suas mesinhas, cadeiras (ou caixotes) e uma televisão, se houver jogo. Esta apropriação do espaço público é bem reveladora de um certo espírito comunitário que não existe em São Paulo.

Claro, há exageros. Colocar os carros em cima da calçada é natural na Cidade Maravilhosa. Jamais passaria pela cabeça de um paulista fazer um negócio desses. Quer dizer, pode até passar, mas a multa é certa. Para tentar corrigir o hábito, o Rio criou a moda infame de colocar tocos de concreto no passeio, o que deve ser um martírio para os deficientes visuais.

Fomos pegar um ônibus, sábado de manhã. Estávamos a 50 metros do ponto quando avistamos o coletivo, ali no Jardim Botânico. Ensaiei os primeiros passos de um pique à la Ronaldo, pra chegar a tempo, mas estaquei ao ver que a Flor não me acompanhava. Placidamente, se postou na beira da calçada e estendeu o braço. E o ônibus parou! Ou seja, algo impensável para um paulistano. Aqui, ônibus não abre a porta se estiver faltando 5 metros para o ponto, mesmo que esteja parado num congestionamento (situação bastante comum, aliás).

Nem vou falar das rodas de samba em cada quarteirão do Rio, na tarde de sábado. Ou da quantidade de prédios históricos, centros culturais e museus abertos à visitação no centro da cidade. Aí já é covardia. Nem de botafoguenses e flamenguistas uniformizados dividindo o mesmo balcão, olhos grudados na TV, na tarde de domingo. Neste ombro a ombro suado, regado a cerveja, paulistas e cariocas são brasileiros de comportamento distinto.

Só sei que vou ao Rio – menos do que gostaria – e acho uma delícia. Falta um pouco de espírito carioca em São Paulo. E falta um pouco de organização paulista no Rio. Mas não seriam o que são, se não houvesse diferenças!

Memorial da Resistência

Em janeiro deste ano recebi um convite para a inauguração do Memorial da Resistência, na Estação Pinacoteca, em São Paulo. Criado no espaço onde funcionou o sinistro DEOPS (popularmente conhecido por Dops), o aparelho repressivo criado por Getúlio Vargas atravessou muitos anos servindo de prisão a quem contestasse o governo. Durante a ditadura militar muitos ali foram torturados e até mortos.

Na véspera, conversando com o pessoal da VIATV, deu o estalo: porque não gravamos o evento? Liga pra um, liga pra outro, vimos que eles não tinham verba pra isso. Fomos voluntariamente, pela oportunidade de conversar com pessoas interessantes e colher alguns depoimentos valiosos.

O museu é emocionante, como são os poucos memoriais existentes no mundo sobre perseguidos políticos. O Museu do Holocausto, em Israel, é o mais emblemático. Em Buenos Aires um prédio da Marinha, que era um centro de  tortura, foi transformado num centro de memória em 2004, com  centenas de depoimentos gravados sobre o período da ditadura.

O Memorial da Resistência está apenas começando. Com o material na mão, percebemos que tínhamos ainda muito pouco. Gravar entrevistas no meio de um  evento é complicado, tem muito barulho e o ambiente é dispersivo. Mas, conversando com os organizadores do Memorial, percebemos que este pouco era fundamental para que eles divulgassem o projeto e angariassem mais recursos.

Editamos um pequeno vídeo. Dá pra fazer um longa metragem sobre o assunto. Um não, vários! Não é à toa que o vencedor do Festival Tudo É Verdade deste ano foi Cidadão Boilensen, enfocando a repressão durante a ditadura. O tema é quente, e sabemos pouco sobre o período.

Mais que isso, a memória está se perdendo. Os mais velhos já partiram, levando parte da história. Antes que alguns comecem a acreditar que houve no Brasil uma “ditabranda”, é bom ver e ouvir com os próprios olhos.

Aqui está o vídeo. Não substitui de forma alguma uma visita ao Memorial, entrar nas celas, passar a mão nas paredes, ouvir os depoimentos de ex-presos. Mas é um pequeno passo.

Uma maniçoba de domingo

Você já comeu maniçoba? Se nasceu na Amazônia ou já andou por lá, é bem provável. Se for do Sul, Nordeste, Centro-Oeste ou das estranjas, é capaz de nem saber o que é.

Pois estava eu neste domingo posto em sossego, do Corinthians colhendo doce fruto, quando a Beth, amiga mui querida, convida para uma maniçoba.

– Está doida? Maniçoba demora três dias pra fazer…

– Está pronta, trouxe congelada de Belém!

Coisa assim rara não se perde. Depois da categórica vitória, só traçando uma maniçoba pra que a felicidade fosse completa. Lá fomos, eu e a Carmen, encontrar a Beth e o Mário Abramo para o regabofe.

Maniçoba é bicho complicado. As receitas mais ortodoxas dizem que leva até 7 dias para ser feita. Esta aqui garante que em quatro dias está pronta.

Tem gente que faz em três dias. Menos que isso, não garanto o resultado nem a saúde do freguês, uma vez que a matéria prima básica é venenosa. As folhas da mandioca, que os amazônicos chamam de maniva, contém ácido cianídrico, que só desaparece depois de muito cozimento.

Folha mandioca

Mas, afinal, o que é maniçoba? São as tais folhas, moídas e cozidas até virarem uma papa, misturadas a carnes suínas e bovinas, frescas e salgadas, tal qual uma feijoada. Imagine uma feijoada sem feijão, mas com um purê marrom-esverdeado, quase preto, envolvendo as carnes. É isso.

maniçoba

Esteticamente falando, é horroroso. Como uma feijoada, aliás. Mas o sabor, hummm… Não sou chegado em carnes vermelhas – numa churrascaria sempre prefiro as saladas – mas maniçoba é de lamber os beiços.

A noite foi ótima, o papo excelente, o sorvete de nozes da Carmen fechou a noite com aplausos. Mas voltei pra casa pensando nos tortuosos caminhos da humanidade, que fazem um veneno virar comida.

Quantos não morreram até acertar o ponto da maniçoba? Que curiosidade mórbida faz com que um sujeito experimente filtrar, cozinhar, fermentar ou torrar coisas horríveis até que se tornem interessantes? Qual o primeiro morto de fome que olhou pra um caranguejo no mangue e pensou “vou comer esse bicho?” Quem arriscou que um leite azedo fosse bom de tomar, que um queijo mofado fosse algo maravilhoso?

Comer é uma atividade vital, mas o homem extrapolou todas as possibilidades alimentares naturais, partindo para experimentos quase suicidas. Como a maniçoba.

Estava ótima, Beth!

Altos sons em Guarulhos

Não, não é o barulhos dos jatos! Espia só o festival de atrações que rola esta semana em Guarulhos, com entrada franca. Um dos melhores encontros de música instrumental do país, no terceiro ano de sucesso. Sinta o naipe dos convidados:

dia 15 de abril – GUINGA
dia 16 de abril – EGBERTO GISMONTI
dia 17 de abril – ARISMAR DO ESPIRITO SANTO e GRUPO
dia 18 de abril – ALTAMIRO CARRILHO acompanhado por IZAÍAS e SEUS CHORÕES
E, na parte competitiva, gente do porte de Yamandu Costa. Não dá pra perder!
III Festival Instrumental de Guarulhos
Dias 15, 16, 17 e 18 de abril de 2009 às 21h00
Teatro Adamastor – Av. Monteiro Lobato, 734 – Macedo – Guarulhos/SP
Capacidade: 700 lugares

Estômago, melhor filme de 2008

Estômago

O filme Estômago, de Marcos Jorge, foi devidamente reconhecido no Prêmio Vivo do Cinema Brasileiro, em festa ocorrida ontem, no Rio de Janeiro. Ganhou seis prêmios, um a menos que Meu Nome Não É Johnny.

Estômago é o melhor filme de ficção que vi no ano passado. Muuuito mais filme que o Johnny. História original, narrada em dois tempos de forma engenhosa, bem interpretada. Além do ótimo João Miguel, o elenco de apoio é excelente. O grupo de atores na prisão é magnífico, e Babu Santana era barbada para Melhor Coadjuvante. Filme pra ver e rever.

Johnny achei legalzinho, mas não tenho nenhuma vontade de assistir novamente. Quem nunca ouviu essa história antes? (Jovem cai na droga, se enrola cada vez mais, paga os pecados e se regenera). Além disso, tem um início bisonho, com crianças mal dirigidas, e só melhora com a entrada do Selton Mello, o Johnny adulto, que segura a onda (e levou o prêmio de Melhor Ator). Mas João Miguel é páreo duro. Já tinha achado ele ótimo em Cinema, Aspirina e Urubus, teria o meu voto.

Achei muito bom que o prêmio do júri de Melhor Longa Metragem de Ficção tenha batido com o gosto do público (Melhor Filme). Fato raro. Marcos Jorge mostra firmeza na direção (também premiada), e uma rara sintonia entre cinema de qualidade, talento narrativo e sobriedade intelectual. Ele é bom, não metido a gênio. Isso faz uma grande diferença!


Melhor Longa-metragem de Ficção Nacional:
Estômago, de Marcos Jorge
Melhor Longa-metragem Nacional pela votação do público:
Estômago, de Marcos Jorge
Melhor Longa-Metragem de Ficção Estrangeiro:
Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen
Melhor Longa-Metragem Estrangeiro pela votação do público:
Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen
Melhor Documentário
O Mistério do Samba
Melhor Filme Infantil
Pequenas Histórias
Melhor Filme de Animação – Menção Honrosa
Garoto Cósmico
Melhor Diretor
Marcos Jorge (Estômago)
Melhor Ator
Selton Mello (Meu Nome Não é Johnny)
Melhor Atriz
Leandra Leal (Nome Próprio)
Melhor Ator Coadjuvante
Babu Santana (Estômago)
Melhor Atriz Coadjuvante
Júlia Lemmertz (Meu Nome Não é Johnny)
Melhor Roteiro Original
Cláudia da Natividade, Fabrízio Donvito, Lusa Silvestre e Marcos Jorge (Estômago)
Melhor Roteiro Adaptado
Mariza Leão e Mauro Lima (Meu Nome Não é Johnny)
Melhor Figurino
Chega de Saudade
Melhor Maquiagem
Ensaio Sobre a Cegueira
Melhor Trilha Sonora
Os Desafinados
Melhor Trilha Sonora Original
Meu Nome Não é Johnny
Melhor Direção de Arte
Ensaio Sobre a Cegueira
Melhor Edição – Ficção
Meu Nome Não é Johnny
Melhor Edição – Documentário
O Mistério do Samba
Melhor Fotografia
Ensaio Sobre a Cegueira
Melhor Som
Meu Nome Não é Johnny
Melhores Efeitos Especiais
Ensaio Sobre a Cegueira
Melhor Curta-Metragem – Animação
Dossiê Rê Bordosa
Melhor Curta-Metragem – Documentário
Dreznica
Melhor Curta-Metragem – Ficção
Café com Leite