Rio, São Paulo

arcosdalapa

Passei três dias no Rio de Janeiro, pra comemorar o aniversário da filha querida. Três dias de gandaia, com passagens por alguns lugares folclóricos. Tomei cerveja no Bar do Zé, numa ruela da Glória, onde todos ficam na calçada. Atravessei os Arcos da Lapa às 2 horas da manhã, abrindo caminho com os cotovelos no meio de enorme multidão de notívagos. Vila Madalena é fichinha perto daquilo! Terminamos a primeira noite no Nova Capela, às 4 horas da manhã.

Tomei café da manhã no Parque Lage, almocei no velho Aurora, tracei um peixinho no Manolo. Ainda me espanto com as diferenças culturais entre cariocas e paulistas. No Rio a calçada é espaço de convivência, em toda a cidade. Seja no pé do morro ou na orla dos bacanas, tomar chope no meio da calçada é de lei. Qualquer boteco põe ali suas mesinhas, cadeiras (ou caixotes) e uma televisão, se houver jogo. Esta apropriação do espaço público é bem reveladora de um certo espírito comunitário que não existe em São Paulo.

Claro, há exageros. Colocar os carros em cima da calçada é natural na Cidade Maravilhosa. Jamais passaria pela cabeça de um paulista fazer um negócio desses. Quer dizer, pode até passar, mas a multa é certa. Para tentar corrigir o hábito, o Rio criou a moda infame de colocar tocos de concreto no passeio, o que deve ser um martírio para os deficientes visuais.

Fomos pegar um ônibus, sábado de manhã. Estávamos a 50 metros do ponto quando avistamos o coletivo, ali no Jardim Botânico. Ensaiei os primeiros passos de um pique à la Ronaldo, pra chegar a tempo, mas estaquei ao ver que a Flor não me acompanhava. Placidamente, se postou na beira da calçada e estendeu o braço. E o ônibus parou! Ou seja, algo impensável para um paulistano. Aqui, ônibus não abre a porta se estiver faltando 5 metros para o ponto, mesmo que esteja parado num congestionamento (situação bastante comum, aliás).

Nem vou falar das rodas de samba em cada quarteirão do Rio, na tarde de sábado. Ou da quantidade de prédios históricos, centros culturais e museus abertos à visitação no centro da cidade. Aí já é covardia. Nem de botafoguenses e flamenguistas uniformizados dividindo o mesmo balcão, olhos grudados na TV, na tarde de domingo. Neste ombro a ombro suado, regado a cerveja, paulistas e cariocas são brasileiros de comportamento distinto.

Só sei que vou ao Rio – menos do que gostaria – e acho uma delícia. Falta um pouco de espírito carioca em São Paulo. E falta um pouco de organização paulista no Rio. Mas não seriam o que são, se não houvesse diferenças!

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6 Responses to “Rio, São Paulo”


  1. 1 Flor 29/04/2009 às 3:03 pm

    Venha mais vezes, pai!
    Visitar a filha paulista-carioca.
    Beijo!

  2. 2 Daniel Brazil 29/04/2009 às 3:08 pm

    Certamente irei. E você, vem pra Virada Cultural? É uma das boas coisas de Sampa!

  3. 3 helion 01/05/2009 às 10:54 pm

    Gostei do post sobre a minha tão sofrida cidade.

    Sobre o ônibus: nunca me esqueço da primeira vez que, em São Paulo, bati na janela de um ônibus fora de ponto para que o motorista abrisse a porta para mim. A cara que fez todo o mundo lá dentro foi a de estar vendo um ET.

    Mas é esculhambação demais, mesmo. Eu moro numa praça, onde num dos lados fica um ponto de ônibus, bem em frente à minha casa. O ônibus circunda a praça, passando por três dos quatro lados dela. Claro que, quando estou chegando em casa nele, espero o ônibus dar a voltinha e parar no ponto final para descer. Pois não há uma única vez em que eu não seja o único a descer no ponto final. Porque, quando o ônibus está quase chegando, o antepenúltimo passageiro pede para parar num dos lados da praça, o penúltimo pede para parar no outro lado, 50 metros depois, e só eu fico esperando o ponto final, também 50 metros à frente. Detalhe 1: como a rua é estreita, para cada uma das paradinhas de cortesia o trânsito para completamente. Detalhe 2: é tão “exótica” a minha espera pelo ponto final, que mais de uma vez já aconteceu de o motorista parar o ônibus, apagar a luz, saltar pra fora rapidinho e me deixar lá dentro, trancado! Quando eu bato na porta chamando a atenção para que estou ali, pronto para descer no ponto final, o cara costuma levar aquele susto, “puxa, não vi que tinha ainda alguém aí!”. Eu sou ou não sou esquisitão de não pedir para parar especialmente para mim?

    Agora, Daniel, me desculpe, mas esse nome, “Virada Cultural”, aqui no Rio ia dar margem a muita besteira. Pai que é pai não convida a filha pra isso aqui!

    ps: vem também visitar o amigo carioca, que até já conheceua Flor num cinema!

  4. 4 Daniel Brazil 01/05/2009 às 11:37 pm

    Nada como o depoimento de um carioca da gema galada pra emprestar veracidade às minhas ligeiras impressões.
    Mas Virada Cultural é coisa de paulista, mesmo. A cidade que tem a maior Parada Gay do mundo, que tem como ícone cultural Mario de Andrade, que tem um shopping apelidado de Gay Caneca (fica na rua Frei Caneca), que transformou Clodovil no deputado federal mais votado, só podia ser da Virada…
    Mas só quem reclama é a mulherada. Os homens hetero gostam de ter menos concorrentes na praça!
    Aguarde a visita, mestre Helion!

  5. 5 Lucelena 02/05/2009 às 12:03 am

    Quer dizer que o senhor vem à minha cidade e nem me dá notícia???????????
    Estou de mal!
    Humpf!

  6. 6 Daniel Brazil 02/05/2009 às 12:39 am

    Querida Lucelena, se você visse minha agenda… Mal tive tempo de dormir! Ainda assim, passei pela rua do Ouvidor no sábado à tarde, com esperança de te encontrar.
    Mas retornarei em breve, aguarde!


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