Arquivo para maio \30\UTC 2009

O país dos magros

Bonde

Meu sogro Luiz Patrício, do alto de seus 81 anos viajados e bem vividos, foi quem me chamou a atenção. Em casa, folheando um livro de fotos da década de 30, observou:

– Reparou que nas fotos antigas de São Paulo nunca aparece um gordo?

Confesso que nunca tinha atentado para fato. Folheei o livro inteiro, conferi outro do Rio antigo, conferi na Internet. Como o povo era esbelto! E não era só uma questão de não ter o que comer. Mesmo em retratos da alta burguesia, como recepções e bailes no Municipal, são raríssimos os exemplos de obesidade.

A mudança de hábitos alimentares, depois da Segunda Guerra, com a crescente oferta de alimentos industrializados, foi determinante. Antes, pro sujeito fazer uma sopa, tinha de ir ao mercado (ou à horta), comprar os ingredientes e preparar. Já queimava várias calorias nesse processo. Hoje, abre um pacotinho e joga na água fervente…

Comer à noite implicava em trabalho. Hoje, sem sair do sofá, o folgado pede uma pizza e um refrigerante. Na escola, só havia aquele pãozinho com mortadela básico. Umas balinhas eram comuns, claro. Refris, um pouco menos. Hoje, a enorme oferta de isoporzitos saturados de gordura e sódio vicia o infeliz desde pequeno.

Olho para as fotos e fico com certa inveja. Parece que o povo era bem mais saudável, mesmo com menos remédios e antibióticos…

Candelaria

Cat Stevens/ Yusuf Islam

Cat Stevens

Meu amigo Helion Póvoa, do Rio de Janeiro, me enviou uma interessante série de links sobre Cat Stevens. Quem?, perguntarão os mais novos.

Cat Stevens, nascido em 1948, surgiu no final dos anos 60 como uma das mais originais vozes do folk-rock britânico. Filho de grego com sueca, compôs canções confessionais, onde muitas vezes transpareceu o desconforto de se sentir semi-estrangeiro, diferente e inquieto. Emplacou sucessos como Morning Has Broken, Wild World, Moonshadow, Peace Train, Lady D’Arbanville, Oh Very Young  e Father and Son, que tocaram bem até em rádios brasileiras. Seu estilo musical tem pontos em comum com artistas como Paul Simon, James Taylor, Donovan ou Van Morrison.

Em 1977 Stevens se converteu ao islamismo. Um choque para o mundo artístico ocidental. Se afastou (e foi afastado) da mídia,  virando uma espécie de lenda. Provavelmente só Cassius Clay causou impacto maior quando anunciou ao mundo que se tornara Muhammad Ali.

Ficou 28 anos sem gravar, dedicando-se à família e a causas humanitárias, como o amparo aos órfãos atingidos pelo conflito entre palestinos e israelenses. Enfim, a vida de Yusuf Islam, ex-Cat Stevens, dará certamente um belo filme. E ele voltou a cantar, gravando um novo disco em 2006 (An Other Cup).

A viagem que Helion me propôs é a seguinte: Primeiro, assista um videoclip do início dos anos 70, com a música Father and Son.

Em seguida, num concerto de 1979, após a conversão, quando ainda não havia interrompido a carreira.

Num salto de quase 30 anos, vemos novamente o cantor se apresentando em Londres, em 2007, após longo período de afastamento.

Em seguida, um videoclipe recente, “A is for Allah”, de nítido perfil religioso.

Por fim, uma boa entrevista (em inglês), onde comenta sua trajetória, antes e depois da conversão. É longa, mas vale também por incluir duas versões de “Peace Train”, antes e depois.

Se tiver meia hora disponível, assista tudo. É uma boa ocasião para tentar entender a alma de um artista, sua transformação espiritual, o conflito Ocidente X Oriente, o estranhamento que o “outro lado” provoca em nós.

Se você não está interessado em nada disso, mas quer ouvir lindas canções, também valerá a pena!

Yusuf Islam

Simonal, de volta às paradas

Simonal

“Com a chegada do filme ‘Ninguém Sabe o Duro que Dei’ às telas, abriu-se uma discussão nacional sobre o cantor Wilson Simonal. Ou melhor, não se discute o cantor, mas o personagem Simonal.”

Como dizem os maliciosos,  ninguém sabe o dedo-duro que dei. Escrevi sobre o controvertido personagem na Revista Música Brasileira. Dê uma espiada!

Entre os Muros da Escola

Entre os Muros da Escola

No último domingo consegui assistir, com certo atraso, o vencedor da Palma de Ouro de Cannes 2008. Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet, é realmente desconcertante.

Formalmente, consegue o feito de colocar uma câmera numa sala de aula de escola pública na periferia de Paris, apinhada de adolescentes entre 14 e 16 anos, e fazê-la parecer invisível. Os atores/ personagens são tão autênticos que nos fazem crer que estamos assistindo um documentário.

A coisa fica mais complexa quando sabemos que o professor/ ator (François Bégaudeau) é real, isto é, escreveu um livro sobre sua experiência em sala de aula, e foi convidado pelo diretor para interpretar a si próprio, recriando os conflitos que viveu (vive?).

Porém – e aí a diferença é enorme – não se trata de mais um filme do gênero professor-bonzinho-versus-juventude-transviada, que no final vira lição de vida, com direito a algumas lágrimas. O filme é cru, sem derramamentos, e mostra um professor tão angustiado e falível quanto seus alunos.

Pior: mostra o dilema universal da educação, hoje. Como ensinar literatura a jovens que mal pegam num livro, cuja informação vem de forma audiovisual, massificada e redutora? Como ensinar o futuro do pretérito a jovens que nunca ouviram alguém falar desse jeito, e que seriam ridicularizados se utilizassem esse tempo verbal? Como lidar com preconceitos, com limitações individuais, com excluídos da ordem econômica com pouquíssimas chances de ascensão social?

É comum ouvir, no Brasil, que nossa educação é um desastre, que o ensino público é um lixo, que as escolas da periferia são ninhos de delinqüentes. Sinto dizer, mas na França não é diferente. Ou melhor, no mundo não é diferente, com exceção de uma metafórica Suíça. Ou Suécia.

Dramaturgicamente, o filme foge do chavão. O personagem do qual se espera uma reviravolta de comportamento termina esvaziado. A chata com a qual antipatizamos desde o início continua chata até o final (mas é a única que declara ter lido um livro, a República de Platão). O professor humano, bonzinho e democrata perde as estribeiras e chama duas alunas de vagabundas. Os valentões da classe, machistas e grosseiros, tomam as dores das colegas, e quase escorraçam o professor. Valores toscos, como o espírito corporativo, se mostram mais determinantes que valores morais ou éticos.

Filme perturbador, capaz de abalar convicções e instaurar novos parâmetros de discussão. Sobre o que é cinema (área onde dou uns pitacos) ou o que é educação (da qual não manjo nada). E, por ser perturbador, excelente!

Lula, premiado? Não divulguem!

O presidente Lula ganhou esta semana o Prêmio de Fomento da Paz Félix Houphouët-Boigny 2008, concedido pela ONU.  O anúncio foi feito na quarta-feira, 13/05.

Você leu no seu jornal? Viu alguma chamada de primeira página em alguma banca? Ouviu no Jornal Nacional? Leu em manchete dos jornais na Internet?

Não, você não leu, porque a notícia foi malandramente escondida pela grande imprensa. Não sei se são bem pagos para destacarem apenas notícias negativas, mas a coisa tá ficando ridícula. A parcialidade é tão burra que quando surge uma notícia dessas, só é possível esconder, ou desmente tudo o que é escrito há anos sobre o atual governo. Ou seja, boa parte das mentiras cai por terra.

O ex-presidente de Portugal, Mário Soares, destacou que Lula foi premiado “por seu trabalho em prol da paz, do diálogo, da democracia, da justiça social e da igualdade de direitos, assim como por sua inestimável contribuição para a erradicação da pobreza e a proteção dos direitos da minoria”.

O prêmio existe desde 1989, e já foi atribuído a gente como Nelson Mandela, Yitzhak Rabin, Shimon Peres, Yasser Arafat, Jimmy Carter e o rei Juan Carlos I da Espanha, que “deram contribuição relevante para fomentar, buscar, proteger e manter a paz, levando em conta os princípios da Carta das Nações Unidas e a Constituição da Unesco”.

Pode-se até discordar de alguns premiados, inclusive Lula. Mas ocultar a notícia não é papel de jornalista que se preze. Imagino o que não haverá de distorção, omissão e manipulação por conta das eleições de 2010…

Lei Azeredo, o AI-5 digital

O grande avanço de liberdade de expressão representado pela Internet contraria vários interesses. Aliás, a liberdade pura e simples já contraria alguns interesses, certo?

Pois o senador Eduardo Azeredo (PSDB), (aquele mesmo, de Minas Gerais, tido como o pai do esquema  de corrupção operado por Marcos Valério) é autor de projeto de lei que cria um policiamento sobre a Internet, criminalizando várias ações. O autoritarismo é tão evidente que o PL 84/99 ganhou o apelido de AI-5 digital.

Pra se ter uma idéia, copiar um CD de música no seu pendrive pode virar crime, pois a gravadora detêm os direitos de reprodução. Compartilhar músicas pela rede? Nem pensar! Ao todo, o PL tipifica 13 crimes, e coloca em risco a privacidade, a liberdade de expressão, a criação e ampliação de redes abertas e, em muitos aspectos, a criação digital.

Felizmente, algumas pessoas e grupos estão se movimentando contra este projeto absurdo. Ontem, 14/12, houve um ato na Assembléia Legislativa de SP, que você pode ver aqui, bem resumido.

Você pode ler os principais argumentos contra o infeliz projeto de lei aqui. Acompanhe as discussões, identifique os parlamentares que se opõem ao AI-5 Digital (e os que apoiam!), pegue em armas (virtuais) e defenda o território livre da Internet.

Há outras formas de identificar crimes digitais, sem criminalizar todos os usuários. Já pensou se, para identificar criminosos  na praia,  por exemplo, todos tivessem que passar por postos de identificação com documentos e declarar o que foi fazer ali? É o fim da picada…

Hekel Tavares

Hekel Tavares

Outro dia, ouvindo no rádio a canção Suçuarana, lindamente gravada por Maria Bethânia no disco Brasileirinho, invoquei com o nome do autor: Hekel Tavares.

Ouço ou leio este nome há anos. No entanto, na minha velha coleção de vinis da Música Popular Brasileira (Abril Cultural), que se pretendia abrangente nos anos 70/80, ele não foi contemplado. O autor de Casa de Caboclo, Guacyra e Você (Penas do Tiê), três obras tão difundidas que se confundem com a criação folclórica de um jeito que só Caymmi conseguiu, é um grande desconhecido.

Abri uns livros, cliquei uns sítios, levei uns papos com gente que sabe. Em termos acadêmicos, pesquisei. E escrevi um artiguinho sobre o cara na Revista Música Brasileira. Confira!

PS: Passei muitos anos de minha vida detestando Maria Bethânia. Depois de um início impactante virou, nos anos 80 e 90,  uma espécie de Roberto Carlos de saias. Mas o CD Brasileirinho, de 2004, me fez pedir perdão de joelhos. A maior cantora brasileira (mesmo que  algumas outras cantem “melhor”).