Entre os Muros da Escola

Entre os Muros da Escola

No último domingo consegui assistir, com certo atraso, o vencedor da Palma de Ouro de Cannes 2008. Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet, é realmente desconcertante.

Formalmente, consegue o feito de colocar uma câmera numa sala de aula de escola pública na periferia de Paris, apinhada de adolescentes entre 14 e 16 anos, e fazê-la parecer invisível. Os atores/ personagens são tão autênticos que nos fazem crer que estamos assistindo um documentário.

A coisa fica mais complexa quando sabemos que o professor/ ator (François Bégaudeau) é real, isto é, escreveu um livro sobre sua experiência em sala de aula, e foi convidado pelo diretor para interpretar a si próprio, recriando os conflitos que viveu (vive?).

Porém – e aí a diferença é enorme – não se trata de mais um filme do gênero professor-bonzinho-versus-juventude-transviada, que no final vira lição de vida, com direito a algumas lágrimas. O filme é cru, sem derramamentos, e mostra um professor tão angustiado e falível quanto seus alunos.

Pior: mostra o dilema universal da educação, hoje. Como ensinar literatura a jovens que mal pegam num livro, cuja informação vem de forma audiovisual, massificada e redutora? Como ensinar o futuro do pretérito a jovens que nunca ouviram alguém falar desse jeito, e que seriam ridicularizados se utilizassem esse tempo verbal? Como lidar com preconceitos, com limitações individuais, com excluídos da ordem econômica com pouquíssimas chances de ascensão social?

É comum ouvir, no Brasil, que nossa educação é um desastre, que o ensino público é um lixo, que as escolas da periferia são ninhos de delinqüentes. Sinto dizer, mas na França não é diferente. Ou melhor, no mundo não é diferente, com exceção de uma metafórica Suíça. Ou Suécia.

Dramaturgicamente, o filme foge do chavão. O personagem do qual se espera uma reviravolta de comportamento termina esvaziado. A chata com a qual antipatizamos desde o início continua chata até o final (mas é a única que declara ter lido um livro, a República de Platão). O professor humano, bonzinho e democrata perde as estribeiras e chama duas alunas de vagabundas. Os valentões da classe, machistas e grosseiros, tomam as dores das colegas, e quase escorraçam o professor. Valores toscos, como o espírito corporativo, se mostram mais determinantes que valores morais ou éticos.

Filme perturbador, capaz de abalar convicções e instaurar novos parâmetros de discussão. Sobre o que é cinema (área onde dou uns pitacos) ou o que é educação (da qual não manjo nada). E, por ser perturbador, excelente!

3 Responses to “Entre os Muros da Escola”


  1. 1 Fábio Mendes 22/05/2009 às 2:11 pm

    Olha, eu não tava a fim de ver esse filme justamente porque achei que tinha essa fórmula irritante. Agora fiquei mais curioso. Vou tentar ver. Abraços!!!

  2. 2 helion 23/05/2009 às 6:48 pm

    O filme é bem instigante para quem lida com educação e com o tema dos imigrantes. Fui ver com o pessoal do meu grupo de pesquisa, alunos e professores. Depois, debatemos um pouco, reunidos no hall do cinema.

    Achei muito perturbador o final, quando cada aluno fala do que aprendeu de mais importante naquele ano, e citam coisas que nada tinham a ver com os temas das aulas. E, no final, uma aluna, das quietinhas, vem dizer ao professor que não aprendeu nada, absolutamente nada.

  3. 3 Daniel Brazil 24/05/2009 às 1:18 am

    Essa é a diferença para um filme “holliwoodiano”. Estes jamais têm a honestidade de dizer que o exemplo não serviu pra nada. Sempre vai rolar uma lição “de moral”, um exemplo edificante, a salvação de uma alma para o bem. E a vida, infelizmente, não é cheia de exemplos assim…


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