Arquivo para junho \29\-02:00 2009

A história de Elza

Elza

Não, não se trata daquela leoazinha que virou filme nos anos 60, cuja trilha sonora marcou época (Born Free). Esta Elza é brasileira, e sua história foi contada por Sérgio Rodrigues num romance magistral, que acabei de ler esta semana nas frias madrugadas de Atibaia, onde participei de um congresso.*

Sabe aqueles coquetéis coloridos, servidos em copo longo, em que cada fase é de uma cor? A realidade que Sérgio Rodrigues descreve é assim: Se olharmos por cima, vemos apenas um aspecto. Podemos até suspeitar que há algo embaixo, mas não conseguiremos enxergar. Visto do ângulo correto as camadas surgem distintas, harmônicas ou contrastantes.

A diferença é que, no obscuro caso (real) do assassinato de uma garota de presumidos 16 anos por ordem do PCB, em 1936, não é possível definir um ângulo que abarque todas as nuances. E o escritor dá leves mexidas no coquetel, suficientes para que a parte “ficcional” dissolva a linha fina que separa verdade e mentira.

Parece confuso? Pois é fascinante! No seu melhor livro, Sérgio Rodrigues arrisca na linguagem, cutuca um vespeiro político, distribui ironias pra todo lado e demonstra seu grande domínio do ofício.

A bibliografia registrada mostra que o assunto foi muito pesquisado, mas como bem aponta Zuenir Ventura na apresentação, as peças reais do quebra-cabeça surgem de forma orgânica, sem parecer citação de tese acadêmica. O exercício de linguagem é virtuoso, sem ser pedante. Rigoroso, sem deixar de ser envolvente. Investigativo, sem ser apenas uma reportagem. Romance moderno, cimentado por ótima ficção, com referências reais gentilmente indicadas pelo uso de itálico. Um pequeno grande livro, daqueles que nos fazem refletir sobre todas as nuances da estupidez humana.

*Este parágrafo inicial está aí para justificar a ausência de textos no Fósforo nos últimos dias.

Diploma de jornalista?

Esta semana foi marcada pelo polêmico fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo. Vários amigos estão debatendo a questão, e um incauto até arriscou me perguntar o que achava.

Talvez não devesse entrar nessa discussão, por não ser jornalista. Mas estudei numa faculdade de comunicação, tive e tenho muitos colegas jornalistas, e até sou confundido com eles.

Estudei Cinema na USP. Concluí o curso direitinho, em 4 anos. Nunca fui buscar o diploma, não me serve pra nada. Sou contra o diploma para cineasta…

Sempre achei absurda a quantidade de “colegas” do curso de jornalismo que não participavam sequer do jornalzinho do Centro Acadêmico, na minha época.  Também achava um absurdo o curso de jornalismo não ter aulas de português. E não têm até hoje, em muitos lugares! Vi muito aluno de jornalismo escrever gato com jota e sapato com cê, pra você ver!

Vi de perto que o monte de generalidades que é ensinado nas faculdades de jornalismo (sociologia, psicologia, antropologia, filosofia, todas “da comunicação”) não torna o aluno melhor que um sociólogo, psi, etc., de verdade. A regra é se tornar um generalista raso.

Como os mais argutos já perceberam, não defendo o curso “superior” de jornalismo. No meu jornal “ideal”, um médico escreveria sobre medicina, um urbanista sobre questões urbanas, um cientista político sobre política, um músico sobre música, um economista sobre a Bolsa de Valores, um profissional de turismo falando de viagens, um engenheiro sobre o Airbus da Air France. Mas teriam de escrever bem. Como?

O curso de jornalismo deveria ser oferecido como extensão acadêmica, com no máximo dois semestres, onde o sujeito aprenderia algumas técnicas básicas de redação, editoração e pesquisa. E com um exame rigoroso de português para ingresso, pois para escrever num meio de comunicação deve dominar o idioma.

Simples. E complicado, devido ao corporativismo dos “colegas”. Na área da comunicação onde atuo com mais frequência (televisão), muitos jornalistas ficariam indignados se lhes fosse exigido o diploma de “rádio e TV” ou “audiovisual”. Felizmente, é uma área menos conservadora, menos acadêmica. Tem outros pecados, claro.

Repare: Quando um repórter vai fazer uma matéria sobre um assunto qualquer, seja economia, física nuclear ou futebol de salão, ele entrevista jornalistas da área? Não, ele procura profissionais da área. O jornalista sabe que o público quer ouvir/ ler a opinião de especialistas, não generalistas. Assim sendo, porque preciso de um jornalista? Pra que o intermediário do conhecimento? Não seria melhor um jornal falado/ escrito por aqueles especialistas?

Creio que em todas as profissões existem os dotados de espírito investigativo, soma de curiosidade inata e conhecimento técnico adquirido na pesquisa. Esse cara deve passar por um treino pra escrever bem e voilá! teremos um ótimo jornalista especializado!

Num artigo, o (bom) jornalista Leandro Fortes teme que, com o fim do diploma, as “redações dos pequenos jornais do interior do Brasil, (…) sejam infestados por jagunços, capangas, cabos eleitorais e familiares”. Convenhamos, está desatualizado.  Isso já acontece, com diploma ou não.

Por que diabos uma redação de sociólogos, pedagogos, artistas de circo, economistas, etc, seria mais subserviente aos patrões que jornalistas? Há algum indício de que jornalistas sejam mais éticos ou inflexíveis que o resto dos mortais?

Isso é que soa estranho na maioria dos argumentos. Falam do fim do diploma como se acabasse o último bastião da moralidade. Não bate com o que vemos por aí, nas Vejas e jornalões da vida.

Em resumo: sou contra o diploma, mas a favor de bons cursos de jornalismo. E se fosse dono de jornal, pode crer que contrataria redatores e repórteres com diploma ou certificado do tal curso. Existe gente boa e ruim no jornalismo, como em qualquer outra profissão, mas isso não vem indicado em nenhum diploma…

Obama acerta jornalista da Folha!

Um jornal às moscas

Uma das coisas mais ridículas que vi nos últimos tempos é a nova campanha da Folha de SP na TV. O decadente jornal tenta passar um ar moderno colocando alguns de seus principais colunistas num roteiro debilóide, em que repetem versos de Raul Seixas.

Moderno? Quer coisa mais anos 70 que Raul Seixas? Quer coisa mais tosca que se apropriar de versos alheios pra alardear idéias próprias? Tem até gente que respeito fazendo papel de besta (ou melhor, díptero), confira:

“Eu sou a mosca”, diz Clóvis Rossi, secundado por Gilberto Dimenstein (canastrão), Ruy Castro (constrangido?), Bárbara Gancia (patética!), Zé Simão (sem graça e errando a letra), Renata Lo Prete, Angeli (tentando se esconder?) e as três mocinhas do 02 Neurônio.

“Eu sou a mosca/ que perturba o seu sono./ Eu sou a mosca/ que pintou pra lhe abusar.” Ha ha ha ha! Faz tempo que não ria tanto de um comercial ridículo!

Não preciso dizer qual é o alimento principal das moscas, certo? “Pois nem o DDT pode me exterminar”. A sabedoria popular diz que mudam as moscas, mas a merda continua a mesma.

Não é à toa que as assinaturas da Folha encolhem a cada dia. Espie só!

Auto-de-fé

elias-canetti

Alguns amigos reclamam que ando escrevendo pouco ultimamente. É verdade. Poderia dar as desculpas habituais de trabalho, pouco tempo, falta de assunto. Serviriam. Mas uma leitura que me absorveu as últimas semanas é a responsável pela baixa freqüência de postagens no Fósforo.

Já comentei aqui que me impus uma meta, na virada do milênio, de ler um clássico por ano. Pois ontem li a última página de Auto-de-Fé, do Elias Canetti. E creio que vou ficar impressionado por um bom tempo.

O búlgaro não é fácil. Seu único romance publicado fez com que merecesse o Nobel de Literatura de 1981. Fluente em espanhol, língua de seus ancestrais sefarditas, inglês (mudou-se para Manchester ainda menino) e alemão, transitou por vários gêneros. Parece que o cara estava disposto a esgotar toda forma de expressão, pois escrevia uma coisa definitiva e passava pra outra praia. Teatro, romance, relato de viagem (Vozes de Marrakesh), crítica literária (A Consciência das Palavras), autobiografia (Uma Luz em Meu Ouvido), ensaio (Massa e Poder, talvez sua obra mais conhecida).

Auto-de-Fé é assombroso pela ousadia estrutural, pela suprema originalidade dos personagens, pelo temerário mergulho na alma humana no que ela tem de mais mesquinho, invejoso, cruel. Lambendo as beiradas da loucura, os personagens agem de maneira que a artificialidade do intelecto embota o instinto. Um sinólogo alemão que vive no mundo dos livros, um anão que quer ser campeão de xadrez na América, uma mulher rude que almeja ficar rica, um renomado psiquiatra que tenta salvar o irmão da insanidade.

E não se trata apenas de criar tipos originais. A linguagem (o romance é de 1935!) mistura primeira com terceira pessoa, e a cada parágrafo temos que prestar atenção pra saber quem fala, o escritor ou o personagem. Olhando de longe, tinha tudo pra dar errado, pelo artificialismo da montagem. Na leitura, tudo ganha contornos de terrível realidade, quase epidérmica. Obra de gênio, leitura de marcar para sempre. Fuja, se você teme águas profundas!

Culinária musical

heitor-dos-prazeres

(Há algumas semanas escrevi um artigo com este nome, na Revista Música Brasileira. Algumas pessoas não lembraram das músicas citadas, outras me pediram a letra. Aproveitando o feriado frio e chuvoso,  republico. Antes que me chamem de preguiçoso, lembro que deu um trabalhão achar estes links. E ainda vão faltar alguns, porque quem quer tudo mastigadinho, vá comer mingau!)

O assunto surgiu em torno de uma peixada regada a samba, e acabou tomando conta da noite. Quando a música popular começou a falar de comida? Ou melhor, quando a comida virou tema na música popular brasileira?

Perguntinha difícil de responder. O samba nasceu dum batuque na cozinha, e o couro comia solto antes e depois do regabofe. Todos lembram de alguma referência, de alguma melodia temperada, de algum samba-receita.

Samba-receita é um gênero? Não chega a tanto, mas gerou obras primorosas de craques como Dorival Caymmi (Vatapá) e Chico Buarque (Feijoada Completa). Poucos compositores chegaram a detalhes técnicos tão explícitos quantos estes dois apreciadores de um bom prato.

Feijoada, aliás, é um clássico. Que o diga Paulinho da Viola, que provou do famoso feijão da Vicentina, no Pagode do Vavá. O grande Braguinha transmitiu a várias gerações a receita de feijoada do casamento da Baratinha, onde acabou sucumbindo o Doutor João Ratão: “Feijão, carne-seca, lingüiça mineira, orelha de porco pra dar e vender! Toucinho fresquinho, toucinho gostoso, toucinho cheiroso pra gente comer!”

Mas nem só de feijoada vive o brasileiro. O cardápio é extenso no cancioneiro pátrio. Carmen Miranda, acusada de ter voltado americanizada em 1940, se defendeu cantando que “na hora da comida, eu sou do camarão ensopadinho com chuchu”.

Carmem só confirma que frutos do mar sempre estiveram na comissão de frente da mesa brasileira. Pudera, com tanta praia, tanto peixe e tanto compositor, o negócio tinha de dar samba. Candeia mostra, em Peixeiro Granfino, que “salsa, pimenta de cheiro, faz bom tempero, azeite de dendê”. Aldir Blanc (com João Bosco) conta toda uma saga em busca de um siri recheado.

A moqueca, baiana ou capixaba (ou seja, com ou sem dendê) , foi cantada de diversas maneiras. Uma das receitas mais acabadas foi cantada por Herlon. Minas Gerais não tem mar, mas o mineiro Milton Nascimento sabe que “peixe bom dá no riacho”.  Sá e Guarabyra louvaram o Pirão de Peixe com Pimenta das margens do São Francisco, acompanhado de uma boa januária. Milton também exalta as especiarias em Cravo e Canela. Ê, morena, quem temperou?

Aliás, os doces marcam presença no repertório. Do doce de coco de Jacob do Bandolim ao alfenim de Delcio Carvalho, passando pela goiabada cascão de Wilson Moreira e Nei Lopes, tem muito doce cantado por aí. Ary Barroso elogiou os quindins de Iaiá, cozinheira tão famosa que Nei Lopes fez questão de homenagear o seu tempero. Tim Maia, como sabemos, só queria chocolate…

O tradicional churrasco, outra preferência nacional, está em tantas letras de música, principalmente sertanejas e regionais, que dá até enjôo. Entre os gaúchos, a combinação é quase obrigatória. Aliás, os caipiras de verdade sempre fizeram questão de exaltar os pratos da terra, como o Leitão à Pururuca de Lourenço e Lourival, que também prepararam um Franguinho na Panela, cantado por Tião Carreiro e Pardinho. Palmeira e Mario Zan cantaram a saudade do Arroz a Carreteiro. O grande Luiz Gonzaga, além de enumerar as delícias de Feira de Caruaru e mostrar como se faz um Baião de Dois, lembrou até da comida paraense em Tacacá.

O trivial variado está presente em todas as mesas. Martinho da Vila elogia a Comida da Filó (Vai ter bife de panela com polenta e aipim/ Quero provar o jiló e a berinjela/ Tô sem pressa, sou assim). Adoniran Barbosa e  Carlinhos Vergueiro não esqueceram da proletária marmita, que traz um Torresmo à Milanesa como “sustança”. Aliás, lá nos anos 70, Maria Creuza já cantava o Feijãozinho com Torresmo, do Walter Queiroz, com grande sucesso. Zeca Pagodinho diz que não conhece Caviar, e é mais “ovo frito, farofa e torresmo”. Cartola já reclamava que não é possível “Cozinhar sem banha, sem cebola e alho, sem vinagre e cheiro”.

Pratos menos corriqueiros foram cantados por Geraldo Pereira (Cabritada Mal Sucedida), João do Vale (Peba na Pimenta – peba é tatu, prato proibido pelo Ibama mas apreciado em todo o Brasil) e o grupo satírico Língua de Trapo, que sugere, numa cantina italiana, “filé a parmegiana com catuaba, arroz e pão”, acompanhado de ovos de codorna e sobremesa de tutano. (Tragédia Afrodisíaca). Nem a Concheta enfrentaria um cardápio desses!

Melhor ficar na Comida Mineira, de Toninho Geraes e Paulinho Rezende, um bufê completo de delícias bem brasileiras.  O bom garfo Nei Lopes, pra testar a nova cremalheira, anunciou para os amigos “carne de terceira’ e “tartaruga em fatia” (Festa da Dentadura). Aliás, o quelônio faz parte no cardápio cantado por Walter Alfaiate, no Prato do Dia (de Felipão do Quilombo): “Camarão frito na manteiga/ e tartaruga em fatia”. Nei lembra também da moqueca de fato que Idalina preparou, que mais parece um sarapatel.

Pensa que é só? Celso Viáfora e Vicente Barreto cantaram o pastel de feira, Inezita homenageou o bolinho de fubá, Rita Ribeiro fez sucesso com a cocada maranhense de Antonio Vieira, e o grande João Pacífico  imortalizou o doce de sidra paulista.

Quem mergulhou fundo no tema foi a dupla mineira  Célia & Celma. Além de escrever um livro com cheiro de fogão a lenha (A Cozinha Caipira de Célia e Celma), lançaram um CD com receitas musicadas, em vários ritmos. Vaca Atolada, Tutu de Feijão, Canjiquinha com Costelinha, Pé de Moleque…. Sim, são nomes de músicas, vale a pena conferir! Tem xote, samba, moda de viola, xaxado e até tarantela (Bolinho de Macarrão).

A dupla de artistas mineiras tem uma contrapartida maranhense: os músicos-gourmets Wellington Reis e José Ignácio, que lançaram um CD com receitas cantadas da culinária maranhense. Traz músicas-receita como Peixe ao Escabeche na Costa da Mão, Cuxá Orquestrado, Peixe Frito no Samba, Sururu Chorado no Leite de Coco, Caruru Mina-Jeje,  e Divino Doce de Calda Cacuriado no Crioula, entre outras. De dar água na boca!

Até nas capas dos discos, no tempo em que o formato LP dava espaço para a criatividade, a comida esteve presente. Quem não se lembra do disco de estréia de Luiz Melodia, cercado de feijão preto? Ou dos Secos e Molhados servidos à mesa? Ou o Banquete dos Mendigos, com Macalé recebendo os amigos para a santa ceia? Macalé, aliás, se apresentou num festival comendo rosas enquanto cantava.

Tia Ciata, cozinheira de mão cheia e primeira-madrinha do samba, inaugurou a mistura. De lá pra cá, o cardápio só ficou mais rico e substancioso. Paulo César Pinheiro, em parceria com Joyce, já havia decretado que “no samba tem que estar de olho/ É preciso dosar tempero e molho” (Receita de Samba ). Afinal, como bem disse Vinicius, para viver um grande amor é importante conhecer a harmonia das panelas:

“E o que há de melhor que ir pra cozinha
E preparar com amor uma galinha
Com uma rica e gostosa farofinha
Para o seu grande amor?”

Greve na USP

Há 30 anos a PM não entrava na USP. Desde 1979. Eu, jovem estudante, me dividia entre o deslumbramento com a universidade e a os embates pela liberdade de organização, de expressão, de ir e vir. Acabei optando pelo movimento sindical, enquanto terminava os estudos.  Me parecia mais conseqüente, mais orgânico, mais vital.

À medida que a ditadura perdia terreno, as manifestações pipocavam. Mas dentro da USP, desde então, não havia repressão policial (apesar daquela guarita na porta). Custa-me crer que o Serra, ex-aluno e hoje governador, tenha chegado a este ponto. A medíocre nomeada para a Reitoria não consegue dialogar, nem sequer dá entrevistas.

Vi, repetidas vezes, as imagens do ataque da PM aos manifestantes, nesta terça-feira, 09/06. Em nenhum momento é mostrado um ato de agressão aos policiais, até que estes começam a jogar bombas de gás lacrimogêneo e atirar com balas de borracha. Aí rola a reação natural de quem é atacado.

Conheço bem a geografia do local. Os manifestantes foram até o portão principal da Universidade, e lá estava a tropa, postada do outro lado da calçada. Perfeito. Dali pra frente, o movimento estaria extrapolando os limites e perturbando a ordem pública.

Durante quase uma hora houve cantorias, palavras de ordem, gritos de “fora, PM” e flores. Muitas flores, atiradas aos policiais. Isto é agressão? Gostaria de ser agredido assim, até o resto de minha vida.

Já presenciei o encontro de dois bandos de bugios, nas matas da Serra da Mantiqueira. Ficam uivando, latindo, xingando, ameaçando de lado a lado, até que cansam e vão cada um pro seu lado. Sábia natureza. Cada um já deu sua demonstração de força,  não há derramamento de sangue. Voltam pra árvore favorita cheios de si, certos de que cumpriram o seu papel. Darwin explica.

Quando os grevistas cansaram, resolveram voltar para a Reitoria. É nesse momento, quando estão en retirada, que a PM entra no território da USP e lança bombas. Ridículo! Freud explica?

O comandante diz que “os soldados foram provocados”. Ou que um estudante mexeu num cone de trânsito. Então, tá. Depois de uma hora ouvindo de tudo, não haviam sido provocados? Que raio de polícia é essa que ao reprimir trabalhadores, estudantes ou sem-terra, não pode “ouvir provocação”? Já pensou se um juiz de futebol sacasse um revólver cada vez que xingam a mãe dele?

Vai ver é confissão de incompetência. Ou seja, o comandante da operação não deu a ordem de bater, os soldados tomaram a decisão por conta própria. O que só piora as coisas.

Eu sei que tem um bando de chatos no movimento sindical. O pessoalzinho que controla a Asusp o Sintusp e a Adusp é de amargar. Convivo com essa turma desde 79. Alguns ainda são os mesmos, vi pelo noticiário. Mas nunca, mesmo que discorde deles em tudo, me ocorreria mandar a PM pra cima. É gente que você enfrenta com argumentos, esvazia as incoerências com diálogo, demonstra a ineficácia das teses com ações.

Mas a Magnífica Reitora não quer diálogo. E o seu chefe, José Serra, tenta colocar ordem na base da porrada. Não vai dar certo. Transformaram uma bombinha de São João numa explosão nuclear. Uma greve restrita se ampliou. Gente de bem, pacífica, de coração democrata, vai entrar em greve semana que vem contra a invasão da PM no sagrado território do saber. E, se eu ainda estivesse lá, cerraria fileiras com eles. Fora, PM!

Blogs X mídia impressa

O recente embate entre a Petrobras e a grande imprensa é interessantíssimo pra quem gosta de debater os significados da liberdade de expressão. A empresa criou um blog onde publica uma série de informações, emite opiniões e divulga números e projetos.

Até aí, normal. Muitas empresas, públicas ou privadas, já descobriram a internet com canal de relacionamento e fazem a mesma coisa. A briga esquentou pelo fato da Petrobras ter divulgado perguntas e respostas feitas por e-mail por jornalistas da Folha, Estadão e Globo, antes mesmo de terem sido publicadas.

O vice-diretor da ANJ – Associação Nacional de Jornais – esperneou. Os jornalões, que vêm perdendo espaço e vendagem para a TV e a internet há tempos, levam outro duro golpe. O monopólio da informação e a possibilidade de manipular dados se esvaziam. Qualquer um pode checar se a resposta da empresa foi editada ou distorcida. Ou se a pergunta era aquela mesma.

Claro que isto vem no contexto de uma CPI que se aproxima, e a empresa se protege contra possíveis arapucas. Mas nesse caso a arma me parece a mais legítima possível: a transparência. Já vi muito jornalista fazer longas entrevistas e pinçar apenas o que interessa, deixando o entrevistado em péssima situação. Escreve depois, reclamando, e recebe a resposta padronizada: “o jornal mantêm as informações publicadas”. Que muitas vezes significa “o jornal mantêm as mentiras publicadas.”

O presidente da ABI – Associação Brasileira de Imprensa – , Mauricio Azedo, se manifestou a favor. A ANJ, patronal, é contra. E nós, leitores e eleitores? Achei ótima a iniciativa, e creio que marca um momento histórico de transformação na imprensa nativa. Nossos jornais  são “furados” diariamente (quem, esta semana, viu alguma foto do avião da Air France que não tivesse sido divulgada no dia anterior pela TV ou internet?), e se conformaram com isso da pior maneira possível, se acomodando.

O que fazer para salvar o jornalismo impresso? Aumentar a qualidade de informação, colocar mais repórteres investigativos na rua, democratizar as análises sem privilegiar apenas alguns grupos econômicos ou políticos, apresentar notícias que não dependam somente de assessorias de imprensa.

Ficar se lamuriando por perder a “exclusividade” das informações é falta de inteligência. O mundo da informação mudou. Quem liga o computador à noite, em casa, sabe tudo o que o jornal vai trazer, amanhecido, no dia seguinte. Os próprios portais dos conglomerados da informação já “furam” seus irmãos impressos.

Para serem coerentes, A Folha, o Estadão e o Globo deveriam vir publicados em papel velho. Amarelado. Alguns colunistas e jornalistas mais espertos já perceberam isso, abrindo seus próprios blogs. É uma tendência universal e que expande os limites da democracia. A importância dos blogs e sítios informativos na  Europa e EUA é  hoje determinante. A própria eleição de Barack Obama, em 2008, deve muito a essa abertura das comportas jornalísticas. Não à toa, só ditaduras tentam bloquear esses novos canais como querem fazer os nossos jornalões de mentalidade do século passado.

Sensualismo alimentar

Sopa Camões

A primeira vez que li Gilberto Freyre me encantei com o texto fluente, saboroso,  que subvertia a idéia de que ensaios sociológicos deveriam ser pesados, acadêmicos, destituídos de qualquer concessão ao prazer. Casa Grande & Senzala é cheio de descrições eróticas, engraçadas, musicais, apaixonadas. Freyre termina seu fabuloso ensaio falando de comida, e quase sentimos o cheiro das tapiocas, dos doces, das quitandas das pretas quituteiras, dos “mocotós, vatapás, mingaus, pamonhas, canjicas, acaçás, abarás, arroz-de-coco, feijão-de-coco, angus, pão-de-ló de arroz, pão-de-ló de milho, rolete de cana, queimados, isto é, rebuçados, etc.”

Toda vez que arrumo minhas prateleiras e sopeso o alentado volume (uma edição comemorativa dos 80 anos do autor, de 1980, com poemas de Drummond, Bandeira e João Cabral, desenhos de Santa Rosa, Cícero Dias e Poty), releio alguns trechos, fruindo o delicioso estilo do pernambucano.

Ontem ganhei um inusitado presente, que me remeteu a Freyre: um opúsculo editado em 1952 pelo Ministério da Educação e Saúde do Brasil. O título: “O Sensualismo Alimentar em Portugal e no Brasil”. O autor, Dante Costa.

Confesso que nunca tinha ouvido falar do cara. Uma consulta à Estante Virtual mostra que escreveu outros títulos relacionados à alimentação, além de livros de viagem e até um  “O Socialismo”.

A tese de Costa é a de que os portugueses têm uma relação de amor com a comida, e os brasileiros, desdém. Lá pelas tantas cita Freyre, claro, mas seu método de pesquisa é baseado na literatura, não em andanças pelos tabuleiros das baianas. Começa por Camões, de onde pinça versos do canto IX dos Lusíadas:

Mil árvores estão ao céu subindo
Como pomos odoríferos e belos:
A laranjeira tem no fruto lindo
A cor que tinha Daphne nos cabelos.
Encontra-se no chão, que está caindo,
A cidreira c’os pesos amarelos;
Os formosos limões, ali cheirando
Estão virgíneas tetas imitando.”

E Camões também fala de “amoras, que o nome tem de amores” entre outras saliências, que mostram a forte relação dos portugueses com a comida desde os primórdios da língua. Nosso Dante cita Fialho D’Almeida, Eça de Queiroz (“o caráter de uma raça pode ser deduzido simplesmente do seu método de assar a carne”) e Ramalho Ortigão (“torrentes de ovos de fio brotam de rochedos de nogada, cobertos de chalets de massa, sobre tanques de torrão de Alicante, em que se abeberam pombas de rebuçado e boizinhos de pão-de-ló com chavelhas de açúcar e entranhas de creme.”).

Para ele, escritor brasileiro só fala de fome, não de comida. “A pobreza mutila-lhe muito da alegria. Com as outras, vai-se a alegria de comer”. Segundo Dante Costa, as descrições de jantares e acepipes ”são raras na literatura, porque são raras na vida mediana do povo.” Citando uma conferência de Joaquim Ribeiro, diz que “a fome, no Brasil, começou com a civilização”.

O livrinho foi publicado em 1952. Dante escreveria isso hoje? Se vivesse numa grande cidade brasileira, provavelmente não. Mas se passeasse pelo sertão mais árido, comprovaria a validade de sua tese. O que não significa que nos rincões mais desprovidos de Portugal a miséria alimentar também não exista. Afinal, Eça e seus colegas de ofício viviam na cidade, não nos campos.

Onde o sexo é só reprodução, não há sensualidade. Onde o ato de comer é somente uma questão de sobrevivência, não há como ser uma refinada fonte de prazer.

Aves de rapina sobre o Butantã

gavião

Os pios, altos e estridentes, chamaram minha atenção. No alto da árvore mais alta da rua, dois gaviões-carijó repartiam um pombo. As pequenas plumas flutuavam até o chão, à medida que as fortes bicadas dilaceravam o corpo da vítima.

Um terceiro gavião, maior que os dois primeiros, pousou na árvore ao lado. Soltou alguns pios, meio que pedindo licença pra entrar no banquete, mas os primeiros foram rudes. Abrindo as asas e gritando alto, pareciam dizer que o rango só dava pra dois.

O bicho ficou ali por um tempo, indo de uma árvore a outra, mas sem se aproximar muito.  Depois de meia hora, desistiu. Abriu as grandes asas e voou rumo à mata do Instituto Butantã.

Não é uma cena rural, como você já deve ter percebido. Isso aconteceu semana passada, na rua José Piragibe, Vila Indiana, aqui no bairro do Butantã, em São Paulo.  Já andei em muito mato por este mundo, mas nunca tinha visto gaviões-carijó (como esse da foto) tão próximos. E três de uma vez! Lembrei do filme Os Pássaros, do Hitchcock, embora lá só apareçam aves “pacíficas”, não de rapina.

E lembrei também que este, que é um dos bairros mais verdes de São Paulo, está sofrendo forte especulação imobiliária, por causa do Metrô. Agora querem abrir um túnel sob o Parque da Previdência, destruindo a Praça Elis Regina. Rasgando o Plano Diretor, sem consultar a população e contribuindo para piorar a qualidade de vida do bairro.

Por essa e por outras é que participo do movimento Butantã Pode!, contra o túnel, a degradação do bairro e a cambada de vereadores que quer mudar a lei para favorecer a sanha imobiliária. Estripam os direitos dos cidadãos de forma muito mais violenta que os gaviões-carijó, que só fazem isso porque precisam se alimentar. Não é à toa que boa parte dos energúmenos recebeu “doação de campanha” das empresas do setor, de forma irregular, como denunciaram a pequena e a grande imprensa no mês passado.

Dia 18 de junho faremos um grande ato na Praça Elis Regina, em defesa do bairro. Voltarei ao assunto!

Butantã


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